A Função Paterna na Atualidade

Escrito por André Bassete do Nascimento

tumblr_lim28xgpJv1qefvv1o1_500_large

Resumo: Este trabalho reúne algumas articulações que me foram possíveis sobre a Função Paterna na Atualidade.

Palavras-chave: Função Paterna. Psicanálise. Inconsciente. Modernidade. Pós-modernidade. Constituição psíquica.

Introdução

O curso de Introdução, promovido pela Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória – ES, tem como uma de suas propostas facilitar uma primeira aproximação com a teoria psicanalítica: com um saber que advém da experiência de cada sujeito com o seu próprio inconsciente, somados a uma formação psicanalítica permanente.

Alguns analistas se prestaram a articular a Teoria Psicanalítica com a Clínica. Contudo, foi possível perceber que houve um constante diálogo com outros campos de saber, com outros autores, o que possibilitou um maior aprofundamento sobre o tema proposto.

Me parece que o mais desafiador era conseguir articular a Função Paterna, com a variedade de Fenômenos —  sintomas, passagens ao ato, acting out, toxicomanias, drogadição, depressão, distúrbios alimentares, transgressões de diversas ordens, etc. —  que acometem os sujeitos que chegam, diariamente, aos consultórios, clínicas e demais instituições nas quais os psicanalistas estão inseridos. Lembrando que tais fenômenos estão presentes, também, em nossa conjuntura social atual. Em última instância: o que esses fenômenos, cada vez mais recorrentes, não só na clínica mas, também, no social estão denunciando?

A Função paterna, hoje

Na atualidade, há uma precariedade no exercício da função paterna, que nada mais é que uma deslegitimação das figuras que representam a alteridade, tanto na esfera social quanto na esfera privada.

Isso foi possível graças a alguns eventos, movimentos e transformações que ocorrem no decorrer da Modernidade.

O Movimento Renascentista, propiciou ao homem se ver como centro do universo, um indivíduo separado de Deus. O Movimento Iluminista, por exemplo, trouxe um anseio por Liberdade e pela Felicidade.

Eventos como a Revolução Francesa, a Primeira e a Segunda Revolução Industrial, os avanços da Ciência, da Tecnologia e do Mercado globalizado também produzirem efeitos significativos neste período, que perduram até hoje.

Em resumo, estes múltiplos eventos e suas transformações alteraram, no decorrer da modernidade, toda a esfera social da época, e seus efeitos ainda ressoam tanto na sociedade, quanto no homem pós-moderno. O que nos permite dizer que, no fim da  modernidade, nada resistiu a esse modo de vida conquistador, fadado a destruir todos os antigos valores fixos, ritos e hábitos das sociedades unicentradas.

No plano subjetivo, o homem pós-moderno encontra-se desreferenciado, tendo que autofundar-se, autoreferenciar-se, já que as instâncias terceiras (externas), tão fortemente marcadas na Modernidade – Deus, o Estado-Nação, a Família… – que serviam de referência, que representavam a alteridade, que organizavam a vida psíquica e social do homem, encontram-se deslegitimadas na atualidade, dificultando a transmissão da Lei (interdito) e, consequentemente, da falta, do “Tudo não é Possível”.

O que é um pai para a psicanálise?

Diante disso, devemos esclarecer o que é um Pai para a psicanálise, e sua importância na estruturação psíquica.

Em psicanálise, falamos de função materna e função paterna.

A função materna diz respeito a uma maternagem. A mãe, para a psicanálise, é aquela/aquele que se encarrega dos cuidados do bebê, o acolhe, que o retira de sua condição de desamparo no qual veio ao mundo, que interpreta/traduz seus choros, que lhe dá um lugar e que banha o bebê com seu discurso, impregnado de significantes que, também foram transmitidos a mãe transgeracionalmente: “Você é isto!”, diz a mãe. É graças a esse acolhimento que o bebê humano sobrevive.

O pai, é aquele que representa uma instância terceira, é aquele que introduz um corte na relação mãe e filho, marcando uma impossibilidade, trata-se de uma proibição de uma relação incestuosa. O pai funciona como uma Lei que vem dizer, simultaneamente, à mãe: “não reintegrarás o teu produto!” e, ao filho: “não retornarás ao ventre materno!”.

Entretanto, essa operação paterna só é possível quando a mãe dá um lugar, em seu desejo, a este homem, quando ela dá importância a sua palavra, a sua alteridade. Vemos assim, que é a mãe quem funda o pai, reconhece-o, inaugura-o, pois é o desejo da mãe que o legitima para seus filhos, é quem dá as primeiras cartas no sentido de transmitir ou não a palavra do pai. O pai só passa a existir quando a mãe diz: “este é teu filho!” ou “você vai ser pai!”.     Um pai é, ao mesmo tempo, odiado como interditor, desmancha prazeres, e amado como garantidor da existência.

Nunca é demais enfatizar que não é necessário que o pai esteja vivo, em carne e osso, presente na realidade, no dia a dia da criança, tampouco que seja um homem, para que exerça sua função, pois este deve estar presente, antes de tudo, no desejo e no discurso materno. O que importa é a fala de quem está na posição materna, que esta mãe direcione seu desejo alhures da criança, ou seja, que o pai esteja presente mesmo quando não está (Lacan, citado por Jesus, 2009).

A Lei paterna escuta o que a lei materna diz: “Você é isto!”, e vem dizer “Não, ela [a criança] não é tudo que você diz dela!”, ou “Sim, mas, será que ela [a criança] também não pode ser…”, ou seja, um pai vem dar à criança as armas que lhe permitem fazer de modo a que não haja adequação entre o que sua mãe diz e o que a criança é como sujeito (Lebrun, 2004).

Assim, podemos dizer que a Lei paterna equivoca, interroga e substitui a lei da mãe, barrando-a, colocando-a em questão, remetendo o sujeito a um outro lugar, a um outro plano da existência habitado também pela dúvida e não apenas pela certeza. A operação dessa Lei faz do sujeito um sujeito dividido, com interrogações, introduzindo em sua vida, em sua maneira de pensar sobre si mesmo no mundo, uma dialética, uma oposição, uma reflexão (Carleti, 2007).

Vemos, assim, que uma mãe pode até por um filho no mundo, mas é o pai quem lhe dá a vida pois, é ele quem tira a criança do lugar de objeto materno, permitindo a criança humanizar-se.

O pai, em psicanálise, é aquele que tem o encargo de fornecer à criança o que lhe permite pôr obstáculo à devoração pela mãe. Esta é função de um pai. Pois, o desejo da mãe não é algo que se possa aguentar, este acarreta todos os estragos. Metaforicamente, podemos dizer que a mãe é um grande crocodilo em cuja boca os filhos estão. É isso o desejo da mãe. Como nos ensinou Lacan, um pai seria um rolo, de pedra, que é colocada na boca da mãe, que protege os filhos, que tem a função de impedi-la de fechar totalmente a boca.

Somente a partir da operação da função paterna é que o filho poderá construir sua vida, lançar-se ao mundo. Esta perda da origem, este des-prendimento, este deixar-ser, só é possível graças a pais que, em razão de sua conjugalidade, puderam compreender que “pôr no mundo” é saber retirar-se. Trata-se aí de uma negação criadora e libertadora dirigida ao filho, “Não és o objeto de nosso gozo”; mediante o que ele poderá virar-se para outro lugar, em direção a sua própria geração e de acordo com ela (Julien, 2000), sendo possível fazer vigorar a frase: “honrar os pais é quase sempre virar-lhes as costas e ir-se embora mostrando ter-se tornado um ser humano capaz de se assumir…”(Dolto, citado por Julien, 2000, p.36).

Considerações Finais

Vimos que as rupturas e permanências históricas, resultantes da modernidade, modificaram todo o contexto de nossa sociedade ― agora, ultraliberal ― cujas as características são pautadas no exibicionismo, na cultura do narcisismo, no discurso capitalista e no discurso da ciência, que nos impele a consumir a qualquer preço e sem limites, repercutindo, principalmente, no exercício da função paterna na pós-modernidade.

A respeito da função paterna, vimos sua importância para a constituição psíquica do homem, na medida em que é por meio de sua operação que a criança poderá separar-se da mãe e voltar-se para o mundo, possibilitando sua inscrição na cultura e no laço social. Entretanto, ressaltamos como tal função se encontra despotencializada na atualidade, em decorrência das mudanças sociais, dos avanços científicos e dos avanços tecnológicos, que abalaram os grandes Sujeitos (referências), tão fortemente fixados no início da modernidade.

Referências Bibliográficas

Angelo, D. V. G. (2007). Adolescência, violência e a lei. Do horror e miséria ao bom e belo. Companhia de Freud: Vitória. pp. 25-38.

Carleti, P. C. (2007). Adolescência, violência e a lei. A lei paterna como tratamento possível do adolescente em conflito com a lei. Companhia de Freud: Vitória. pp.243-56.

Cotrim, G. (2002). História Global: Brasil e Geral. Vol. Único, 6ª ed., Saraiva: São Paulo.

Dufour, D-R. (2005). A arte de reduzir as cabeças: a nova servidão da sociedade ultraliberal. Companhia de Freud: Rio de Janeiro.

Julien, P. (2000). Abandonarás teu pai e tua mãe. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Jesus, L. F. M. (2009). A psicanálise quando fala da função paterna se refere ao pai da         realidade? pp.01-16.

Lebrun, J-P. (2004). Um mundo sem limite: ensaio para uma clínica psicanalítica do social. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Oliveira, M. C. (2007). Adolescência, violência e a lei. A lei do pai na atualidade. Companhia de Freud: Vitória. pp. 203-09.

Curta, siga e compartilhe os Escritos Psicanalíticos também no Facebook FBlogo300


SOBRE ESTE ARTIGO: 

Artigo escrito em Novembro de 2014.


SOBRE O AUTOR/IDEALIZADOR DESTE BLOG:

escritos psiAndré Bassete do Nascimento. (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@gmail.com ou dreebn@yahoo.com.br

Anúncios