ARTIGO: A GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA E A UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA NEONATAL (UTIN): O VIÉS DA RELAÇÃO MÃE-BEBÊ COM BASE NA TEORIA PSICANALÍTICA

Por André Bassete do Nascimento*

gravidez

RESUMO: O artigo discute que a adolescência é um período da estruturação de um indivíduo marcado por processos psíquicos e corporais de origens multifatoriais. Tem-se como objetivo mostrar e desenvolver a partir de uma revisão de literatura com foco psicanalítico a temática escolhida. Trazendo como aspecto principal as possíveis dificuldades, mudanças e consequências deste processo de adolescência e gravidez precoce na relação díade mãe-bebê no UTI Neonatal, além das influências das primeiras vivências dessas “mães prematuras” com seus pais e descendentes. Opostamente do que pode-se pensar, em primeira instância, tal fenômeno não tem relação com a situação econômico-cultural, já que, mostra-se em diferentes classes sociais, não se restringindo aos países de terceiro mundo.

Palavras-chave: Gravidez na Adolescência, UTI Neonatal, Relação Mãe-bebê, Teoria Psicanalítica.

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* Artigo escrito em Jul./Set. 2011.

  1. Introdução

A adolescência é um período da estruturação de um indivíduo marcado por processos psíquicos e corporais de origens multifatoriais, e, inclusive, inconscientes.Questões vividas na infância serão reeditadas na adolescência.

O fenômeno gravidez precoce faz-se crescentemente presente na contemporaneidade onde diversos fatores de riscos podem ser apontados – não restringindo-se a países de terceiro mundo, mas também, nas diferentes classes sociais. Novas demandas e posicionamentos por parte dos pais desses bebês e familiares, e em alguns casos pelos próprios profissionais da saúde e pelo bebê, começam a surgir. Resignando aos psicanalistas, médicos e equipes da área da saúde da própria UTI Neonatal um novo olhar para com as questões essas ambivalentes.

A teoria psicanalítica fornece contribuições significativas à temática mãe-bebê. Dispõe de elementos para se pensar que questões envolvem a função materna na vida da mãe e da criança. Diversos autores com abordagem psicanalítica apontam que a relação dual mãe-bebê além de ser visceral, geram temores, reativam fantasmas, trazem à tona a vivências primitivas conscientemente esquecidas, mas vivas no inconsciente. Visto que, a gravidez é um momento de virada na vida subjetiva, onde será preciso posicionar-se como sujeito, no caso de mães-adolescentes precocemente. Questões relacionadas a dúvidas de como será este filho e, principalmente, como esta mãe será para seu filho fazem parte do imaginário dessas mães.

É de fundamental importância que os profissionais que atenderão as ocorrências dessas “mães prematuras” e de seus bebês na UTI/N possibilitem um espaço de escuta e fala terapêuticos onde possam ser trabalhadas questões relacionadas ao luto, à perda e a separação. Sendo extremamente necessário oferecer recursos simbólicos para que as mães resignifiquem seus traumas e “fantasmas”, para conseguirem estabelecer um melhor vínculo com o recém-nascido.

  1. Metodologia

A partir da proposta de trabalho da disciplina de Estágio Básico em Psicologia II ministrada pela psicóloga ProfªDrª. Sabrine Mantuan Coutinho do curso de graduação em Psicologia, quinto período, matutino, da Universidade de Vila Velha (UVV), Espírito Santo (ES), no ano de 2011, realizou-se uma revisão de literatura com artigos científicos publicados entre os anos de 1999 e 2011.

  1. A Adolescência

Na visão de diversos autores a adolescência é um período de desenvolvimento tanto de oportunidades como de riscos, marcada por conflitos e mudanças (externas e internas) significativas na vida e no corpo de um indivíduo. Todas as áreas do desenvolvimento se alteram à medida que esse adolescente confronta sua principal tarefa de estabelecer uma subjetividade e identidade próprias – incluindo a identidade sexual – que as levará para a vida adulta. (Papalia, 2009). Dito de outro modo, o período “adolescência” é marcado inicialmente por uma grande desestruturação psíquica e corporal. Neste período decisivo o adolescente será “obrigado” a se posicionar no mundo e principalmente tomar consciência de que é ele que tomará as decisões de sua vida e escolherá os caminhos a seguir. Pode-se afirmar então que a função da adolescência é organizar, estruturar e possibilitar ao adolescente uma mudança subjetiva para um lugar de sujeito – autônomo e desejante que criará e construirá um novo caminho próprio, sendo inteiramente, responsável por ele.

Por se tratar de uma fase de mudanças intensas (em todas as esferas da vida), o impacto de uma gravidez na adolescência – seja ela desejada ou não, prematura ou não – requererá todo um amadurecimento precoce destas adolescentes que ainda estão em formação, para que, possam cuidar não só de suas questões individuais como de seu mais novo produto: o bebê. O que significa que esta mãe-adolescente será a principal responsável por zelar e promover o desenvolvimento saudável deste bebê e mantê-lo vivo. Independentemente, consciente ou inconscientemente, espera-se que essa mãe-adolescente consiga investir e projetar seus desejos e expectativas neste bebê dando um lugar a esta criança em sua esfera psíquica.

  1. Situação Econômico-cultural

Segundo Zonatelli (2007) “tendemos, facilmente, a atribuir a sexualização precoce de nossos jovens à pobreza, à pouca informação, à educação e ao apelo excessivo da mídia, como razões implícitas de tal ‘epidemia’”. (p. 222). Contudo, a gravidez na adolescência na atualidade embora possa ser estimada como uma possibilidade real de diferentes e novas formas de arranjos familiares, não tem relação com a situação econômico-cultural, já que mostra-se presente nas diferentes classes sociais, por conseguinte não se restringe aos chamados países de terceiro mundo. (Zonatelli, 2007, p.222).

Para reforçar o que foi dito, trago as palavras de Eva Tavares (1996, citado por Zonatelli, 2007), que em seu texto “Mãe Menininha”, aborda dados relevantes de uma pesquisa realizada em uma capital brasileira. Tavares (1996) relata:

“Em São Paulo, uma pesquisa com 300 adolescentes grávidas mostrou que 80% delas estavam cientes do risco de gravidez e 68% chegaram a discutir previamente o assunto com o namorado. No entanto 70% não tomaram nenhuma providência para evitá-lo”. (p. 222).

Além disso,a mídia também pode citada como importante fonte de acesso a informação. Visto que, a mesma mídia que estaria estimulando precocemente os jovens a sexualização, vincula de forma maciça informação quanto aos métodos contraceptivos e frequentemente desenvolve campanhas para incentivar o uso da camisinha, como meio de prevenção às doenças sexualmente transmissíveis. Outro fator relevante é a inclusão do tema da educação sexual como parte das diretrizes curriculares das escolas públicas e particulares. (Zonatelli, 2007, p.222).

  1.  O “fenômeno gravidez na adolescência”

A gravidez para a maioria das mulheres é um processo que envolve eventos multifatoriais e resigna toda uma mudança subjetiva e estrutural – tanto para com essa mulher-mãe quanto para sua família – do seu período gestacional até o nascimento do bebê propriamente dito. Observa-se que com mães-adolescentes de bebês prematuros tais processos também podem ocorrer, embora seguindo outros critérios e características individuais. Entre outras colocações, Berquó (1998, citado por Santos e Menandro, 2005) entende que “a ocorrência precoce da gravidez pode originar mudanças no curso de suas vidas, culminando, em muitos casos, com uniões precoces, sejam legalizadas ou não”. (p.28).

Dois fatores serão destacados neste item a fim de promover reflexões. O primeiro está ligado ao fato de que (diferentemente do modelo cultural idealizado), nem sempre a família, ou melhor, o grupo familiar e os amigos se farão presentes nas UTIN, pois estes geralmente sentem-se angustiados pela dúvida a respeito da sobrevivência do bebê calando-se ou fazendo poucas visitas (ou não fazem). (Wanderley, 1999, p.40).Outro fator de suma importância a ser abordado, refere-se ao fato de que o fenômeno gravidez na adolescência é assiduamente tratado de forma negativa na literatura sobre o tema, tendendo a discussão somente dos prejuízos da gravidez para a relação mãe-adolescente e seu bebê e para os familiares. (Esteves, 2003, pp. 29-30, citado por Santos e Menandro, 2005, p.25).  Carecendo de escritos em outras perspectivas. Nem sempre a vida de um sujeito “estraga” ou “acaba” com uma gravidez, seja precoce ou considerada normal.

  1. Contribuições teóricas – algumas abordagens

A teoria psicanalítica fornece algumas contribuições significativas à temática mãe-bebê. Embora desde Freud já houvesse indicações de que a psicanálise é um referencial de análise, um novo olhar do mundo e de inferir sobre o mesmo, cujo uso não se atêm ao Setting clínico, seu uso na psicoprofilaxia [isto é, na atividade que, com base em um plano de análise psicológica e mediante o emprego de recursos e técnicas de psicologia, procura promover o desenvolvimento das potencialidades do ser humano, seu amadurecimento como indivíduo e, finalmente, sua felicidade] especificamente na relação primitiva mãe-bebê, é relativamente novo. (Sanches, Peter e Arida, 2005, p.133).  Vejamos o que alguns autores revelam sobre a relação mãe-bebê.

Zonatelli (2007) argumenta que “a maternidadeatualiza no corpo a questão da paternidade, o lugar do desejo de um homem, o pai – na história de uma mulher, a mãe” (p.224). O cruzamento desses desejos inconscientes ganha substância, corpo, movimento no ventre de uma mulher, onde se realiza o processo de fecundação, da gestação.

Como sabemos todo nascimento comporta certo grau de angústia e um remanejamento psíquico profundo. Quando se trata de um nascimento prematuro, é uma ‘tempestade psíquica’ que se abate sobre o casal, onde a realidade se junta à fantasia, na qual o bebê idealizado da gravidez, não corresponde em nada ao bebê da incubadora. (Wanderley, 1999, p.37).

Donald Woods Winnicott – com formação kleiniana e Françoise Dolto – originária do lacanismo são dois psicanalistas-pediatras que também oferecem contribuições importantes para o trabalho na UTI neonatal a partir da teoria psicanalítica.Winnicott (citado por Sanches, Peter e Arida, 2005) referindo-se as mudanças vivenciadas pela mãe, relata que:

“O momento do nascimento de um filho é, na vida de uma mulher, talvez um dos momentos mais significativos e assustadores. Produto narcísico, depositário de seus lados idealizados e/ou renegados, o bebê ao qual dá a luz é, sempre, embora em graus variados, um objeto ambivalente. Questões como: “como será ele” e, principalmente, “como serei eu” geram temores, reativam fantasmas, trazem à tona a vivências primitivas conscientemente esquecidas, mas vivas no inconsciente”. (p.136).

As mães que deram a luz recentemente a um filho doente ou prematuro são obrigadas a confortar-se com sentimentos de angústias devastadores. Tais vivências veem confirmar seus temores de ser uma mãe que não pode carregar seu filho, já que lhe deu uma vida frágil. As palavras de Mathelin (1999) situam bem esses impasses:

“Se o olhar da mãe desvia do filho, se o filho fraco demais e distante demais não dá a mãe o sentimento de que se interessa por ela, o investimento de amor entre eles se torna problemático e o bebê não tem mais em que se agarrar para se constituir”. (p.25).

 Decorrente de tais condições fica extremamente difícil investir um filho quando este é sentido e olhado como monstruoso e perseguidor, enfatizando para a mãe a conotação de sua impotência e fracasso. Estes bebês, por detrais dos vidros das incubadoras na UTI Neonatal faz-se como difícil de ser olhar por parte de suas mães, pois não lhes enviam nada das próprias imagens delas. É perante tal situação que a preocupação materna primária, apontada por Winnicott, cai no vazio. Como essas mães são impossibilitadas de dar ao bebê os cuidados inicias que ele exige – pois este está sobre o cuidado da equipe – grande parte dessas mães desistem e ficam deprimidas. (Winnicott, citado por Sanches, Peter e Arida, 2005, pp.136-137).
Além de Freud e Winnicott, um desvio pela obra de Melanie Klein trás a observação que toda relação é feita de ambivalência. Klein (citado por Mathelin, 1999) afirma que “o bem contém o mau, da mesma forma que o amor contém o ódio, da mesma forma que guardar e destruir ou dar e receber são o avesso da mesma moeda”. (p. 13).
Enquanto Winnicott (citado por Sanches, Peter e Arida, 2005) afirma que “não se pode falar de um bebêsem considerá-lo fazendo parte de uma unidade que inclui a mãe”. (p.136). Afirmando a impossibilidade de um bebê existir sem este Outro materno. Dolto evidencia a importância do que ela denomina de “palavra justa”.
Para Dolto (citado por Sanches, Peter e Arida, 2005), “os bebês, de qualquer idade são afetados pela fala… Não só no seu sentido afetivo, mas também pelo conteúdo, e, embora não faça uso da linguagem falada reage ao que é dito ou interdito com seu único meio de comunicação: seu corpo”. (pp.133-134).

O que demonstra que conversar com o bebê e descrever aspectos de sua história, nomeando-a e relatando sentimentos e angústias que as envolvem, podem colaborar para o desagravamento de um quadro, e até mesmo, a melhora de um sintoma.
Dolto denomina o sujeito psíquico seguindo a tradição lacaniana, embora, acredite ser o inconsciente uma experiência transindividual, social. Segundo ele, “a criança, é ela, essencialmente inserido numa estrutura, efeito da família, do “desejo do Outro”. (Dolto, citado por Sanches, Peter e Arida, 2005, p.134). Assim, o sintoma da criança, encontra-se a um fantasma combinado a fantasmática paterna, mas com uma configuração própria. Pode-se entender que algo não foi suficientemente falado pelo Outro – representante da cultura.

Dolto procurava,em suas intervenções, separar os fantasmas envolvidos na dinâmica familiar e devolver a cada membro o que lhe pertencia, dando-lhe uma elaboração socialmente compartilhada. Para que assim, fosse dado condições para a criança de simbolizar seu fantasma.
Com uma visão um pouco mais diferencial Soussomi (apud Szejer 1999, citado por Sanches, Peter e Arida, 2005) especula que:

“Parte do pressuposto de que o bebê traz dentro de suas estruturas cerebrais funcionantes o potencial do que serão as funções que surgirão no adulto. Além de salientar a possibilidade de haver sensores às palavras que salientem significados, dos quais carregariam um código de informações familiares a partir da experiência intra-uterina”. (pp.134-135).

Szejer (1999) também responde com hipóteses genéricas semelhantes a questões propostas, firmando que o lactante compreende as palavras não no sentido com um adulto as compreende, talvez fosse mais apropriado dizer que ele as “pega para si”. Considera que as palavras vêm ligar sentido as percepções memorizadas e supõe que na ausência destas, pode haver uma desorganização do corpo e de suas funções (Szejer 1999, p.27, citado por Sanches, Peter e Arida, 2005, p.135).

Mathelin (citado por Sanches, Peter e Arida, 2005) trás como questão a importância das redes multiplicas para a estruturação deste bebê. Segundo ela, “para que a criança ‘seja’, parece com efeito que ela deva estar presa em múltiplas redes ‘de atenção’ a seu respeito. É este endereçamento ao outro, capturado na linguagem, que podemos estar, para além das palavras, operando para a criança”. (p.135).

  1. Avanços técno-científicos e a Equipe

Embora o foco abordado seja a relação mãe-bebê, é preciso atentar-se ao fato de que a equipe também é um elemento de grande importância na UTI Neonatal.  A sobrevivência do bebê prematuro está também, de certa, maneira relacionada aos avanços científicos e tecnológicos que permitirão aumentar os limites de viabilidade e aperfeiçoar as técnicas de cuidados, contando com a retaguarda de exames complementares, laboratoriais e radiológicos, tudo funcionando 24h por dia. Nos primeiros momentos da internação, toda situação deverá ser envolvido por uma alta tecnologia e precisão. Todavia, é importante que tais técnicas não se sobreponham ao contato do recém-nascido prematuro e sua mãe. (Gomes, 2011, p.03 e Dias et al., 2006, p.01). Sendo importante tomar, antes de tudo, a criança como um sujeito.
As preocupações e expectativas da mãe e da equipe em relação ao bebê são muito diferentes, principalmente quando o quadro clínico agrava-se. Vejamos.
Gomes (2011) enfatiza, baseando-se nos fatos descritos acima que:

A equipe fica envolvida pelo aspecto técnico quando o bebê está grave, tem uma necessidade de expor todos os riscos que o bebê corre. (…) Entretanto,essa conduta dificulta ainda mais a situação para as mães. Uma vez que para poder se aproximar e entrar em contato com o bebê elas precisam ter esperanças. (p. 03).

É comum que as mães – incluindo as mães adolescentes – questionem a si mesmas e a equipe em que momento esse bebê poderá ser amamentado. Gomes (2011) aponta que “a alimentação se dá de forma bastante diferenciada para esses bebês prematuros. Iniciam recebendo nutrição parental, depois passam a receber o leite por sonda e, só posteriormente, poderão mamar”. (p.03).

Quiniou (1999, citado por Gomes, 2011) neste mesmo assunto faz a seguinte colocação “o bebê é muito mais nutrido do que alimentado; todas as referências de relação iniciais mãe-bebê ficam alteradas, o bebê recebe a alimentação passivamente” (p.03), trazendo como dificuldade para equipe a percepção que está é uma das principais formas de aproximação da mãe para com seu filho.  É importante que a equipe ouça e esclareça, na medida do possível, as dúvidas que possam vir a surgir ao longo da internação por parte dos pais.
Uma questão essencial a ser trazida e discutida esta no fato de que será a equipe, a principal responsável por assumir por um período a função de mediador da relação entre mãe-bebê, e/oude ambos com o grupo familiar quando estes estivem presentes. E ainda, é possível notar fenômenos transferenciais, onde os membrosda equipe desenvolvem uma preocupação materna primária e fazerem projeções sobre o bebê.Tais projeções por parte da equipe podem ser tanto positivas quanto negativas. A equipe começará então a atribuir características ao bebê prematuro, referindo-se a ele como “bonzinho” “calmo” ou “indiferente”, etc.

Observa-se quequando as mães não conseguem estabelecer vínculo com o bebê ou quando esses laços são negativos, sejam elas adolescentes ou não, a equipe tende vê-la como ‘mau’. Uma má mãe que não ama seu filho baseadas em uma visão cultural de que ‘toda mãe ama e quer ficar junto ao seu bebê’.
Ao se trabalhar com as mães, principalmente, cujo entendimento de si próprias ainda está em andamento, não se deve “forçar” de maneira alguma a relação entre esta mãe-adolescente e seu bebê e sim oferecer meios que despertem seu desejo pelo bebê.
Finalizarei com uma explanação de intervenção interessante que desejo que sirva de modelo e ilustre para as equipes, visto que é um fato fundamental para que., posteriormente, o bebê tenha mais chances de se constituir psiquicamente como sujeito da forma mais saudável possível:

Em seu livro “O sorriso da Gioconda”, Mathelin (1999) relatou que a partir de uma reunião de síntese com a equipe de uma UTI neonatal, foi proposta à realização de um livro onde seriam colocadas as fotos do bebê, de seu nascimento ao sair da unidade. Com o objetivo que equipe relatasse sua história com o bebê, sua evolução médica, seus hábitos, gostos, expressões. Seriam utilizados também fotos dele no colo de suas enfermeiras preferidas. Cada membro da equipe ficaria responsável, de escrever na ultima página do álbum, de seu próprio punho, palavras de adeus para o bebê. A autora lista algumas das frases escritas, entre elas: “pense em nós algumas vezes”, “sempre guardaremos você em nossos corações”, “você era o bebê mais bonito do mundo”. Estas poucas palavras e dedicatórias ilustram o grande investimento de afeto por parte da equipe. (Mathelin, 1999, pp. 97-98).

  1. Haveria um lugar para o psicanalista?

Mathelin (1999) afirma em seu livro O sorriso da Gioconda que “cada analista, num serviço de medicina, terá de ‘inventar’ seu lugar”. (p.88).
A partir da afirmativa entende-se que se este lugar lhe for atribuído antes que entre, o analista encontrar-se-á num sistema fechado. Sendo importante não deixar-se seduzir-se por ele, permanecendo num funcionamento estático. É importante que o analista possibilite um ambiente onde um certo tipo de fala e escuta seja possível. Seu lugar, cada vez diferente, deve ser recriando dia após dia. Mantendo-se flutuante e maleável.
Oppenheim (1997, citado por Mathelin, 1999) enfatiza que “Um psicanalista no hospital é como um psicanalista na rua”. (p.89). É necessário que o analista se situe em função dos sujeitos aos quais dirige-se, de diferentes maneiras. E em função do momento em que uma fala pode ser endereçada, pouco importa, seja ela, em uma antecâmara, em um corredor ou num consultório. Necessitará ser, por vez, parte integrante da equipe, outrora, exterior para remeter aos pais e a equipe uma escuta e uma imagem distanciada. Em outras situações, junto da incubadora, pode ocorrer ser necessário que ajude a equipe da melhor forma dentro de suas possibilidades. Ficará, outras vezes, ao lado da equipe acompanhar uma criança morrendo. (Mathelin, 1999, p.89).
Conforme evidenciado em tais colocações Mathelin (1999) descreve que:

“Para um analista, justamente, não existe ‘compreensão’ única, explicação sistemática. Seu único a priori é manter para a criança, por menor que seja, por mais fraca, por mais doente, seu estatuto de interlocutor. Ajudar os pais a serem seus pais apesar de tudo, não deixar nem a família, nem a equipe confundir a criança com o aparelho. Fazer com que todos preservem a capacidade de pensar. Falar da morte, para que a morte psíquica não invada tudo, para que ela não predomine sobre a morte do corpo”. (pp. 89-90).

Para o analista essa criação constante – ou, para ser mais exato – essa construção que não para de se inscrever são o que permitirão à equipe do UTI neonatal e essas mães, inclusive, as mães-adolescentes e suas famílias, ouvir com outro ouvido o que ocorre para eles no encontro com o bebê. A inscrição dos significantes do discurso do Outro, é o que deve ser ouvido no discurso materno. Além de interrogar-se sobre o efeito da linguagem no corpo do bebê e da inevitável transferência que se instaura em tais relações. (Mathelin, 1999, pp.18-19).

E na ocasião, propriamente dita, desse momento de corte presentificado pela hospitalização, e uma tentativa de reconstrução da história da relação mãe-bebê poderá se esboçar. A partir dessa reconstrução o nascimento poderá ser elaborado fazendo com que esse recém-nascido não seja mais visto como um pedaço de carne a ser reanimado, objeto da medicina, e continue sendo uma criança. (Mathelin, 1999, p. 24).

  1. Conclusão

 A adolescência é atravessada por transformações de diversas ordens, tanto corporais, sociais, quanto psíquicas. É um período em que questões vividas no decorrer da infância serão reeditadas.

Vimos que fenômeno gravidez precoce não restringindo-se a países de terceiro mundo, mas também, nas diferentes classes sociais. Dúvidas de como será este filho e, principalmente, como esta mãe será para seu filho fazem parte do imaginário dessas mães adolescentes.

Por se tratar de uma fase de mudanças intensas (em todas as esferas da vida), o impacto de uma gravidez na adolescência – seja ela desejada ou não, prematura ou não – requererá todo um amadurecimento precoce destas adolescentes que ainda estão em formação, para que, possam cuidar não só de suas questões individuais como de seu filho.

 Procuramos desmistificar a crença de que a gravidez na adolescência tem relação com a situação econômico-cultural, apontando que tal fenômeno também se faz presente nas diferentes classes sociais.E, principalmente que, nem sempre a vida de um sujeito “estraga” ou “acaba” com uma gravidez, seja precoce ou considerada normal.

Vimos as contribuições do saber psicanalítico a respeito da relação mãe e filho, que todo nascimento comporta certo grau de angústia e um remanejamento psíquico profundo, e que As mães que deram a luz recentemente a um filho doente ou prematuro são obrigadas a confortar-se com sentimentos de angústias devastadores.Tudo isso para destacar a importância do trabalho com essas mães, para que elas possam elaborar os pontos de sua história familiar e particular para que possam investir em seus filhos, vendo ali um sujeito advir.

Não podemos esquecer a importância da equipe nesse processo, somados aos avanços científicos e tecnológicos que permitirão aumentar os limites de viabilidade e aperfeiçoar as técnicas de cuidados, em prol da vida dos recém nascidos. A equipe é quem, muitas vezes, é incumbida de fazer a mediação entre mãe e bebê mas, que ela também pode dificultar esse processo quando suas percepções em relação a mãe atravessa esse processo.

Por fim, vimos a importância de um analista no hospital, ou mais precisamente, nas UTINs. Este deve possibilitar um ambiente onde um certo tipo de fala e escuta seja possível. Seu lugar, cada vez diferente, deve ser recriando dia após dia. Mantendo-se flutuante e maleável. Pois, este deve procurar ajudar os pais a serem pais, apesar de tudo, não deixar nem a família, nem a equipe confundam com a criança um pedaço de carne a ser reanimado, objeto da medicina, e continue sendo uma criança.

  1. Referencias Bibliográficas

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Dias, N. M.; Malzone, P. H. P.; Soares, C.; Pianowinsky, G.; Torres, J. C & Pimentel, C. A. (2006). A UTI Neonatal – a educação no ambiente hospitalar: proposta de esclarecimento a pais e acompanhantes. Universidade São Francisco. São Paulo.

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Gomes, A. L. H. (2011). A relação mãe-bebê na situação de prematuridade extrema: possibilidades de intervenção da equipe multidisciplinar. São Paulo.

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SOBRE ESTE ARTIGO:

Escrito em Jul./Set. 2011, por André Nascimento.


SOBRE O AUTOR/IDEALIZADOR DESTE BLOG:

escritos psiAndré Bassete do Nascimento. (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@gmail.com ou dreebn@yahoo.com.br

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