ARTIGO: EM BUSCA DE UM ELO (PARA SEMPRE) PERDIDO

André Bassete do Nascimento

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Resumo

O autor discute como a escolha do par amoroso de um sujeito é guiada, inconscientemente, por um desejo de restaurar a ilusória sensação de completude vivenciada na infância.

Palavras-chave: Relação Mãe e filho. Separação. Separação amorosa. Ilusão de Completude. Repetição. Impossibilidade. Dor. Escolha do Par Amoroso.

A infância é um período crítico na vida do ser humano. As problemáticas que ocorrem ao longo da infância produzem efeitos não só neste período mas, também, em todo o decorrer da vida do sujeito.

Por isso, o modo como o “bicho homem” foi acolhido ao mundo é tão importante para que possamos nos constituir como humanos, como sujeitos.

Geralmente, em nossa cultura, é a mãe (ou seu substituto) quem faz a maternagem desse recém nascido. O importante é que alguém ocupe-se dessa criança, que veja, ali, naquele “pedaço de carne”, recém chegado ao mundo, um (futuro) sujeito. Por isso a ligação da mãe com o filho é algo forte pois, sem ela, o bebê não sobreviveria.

Mas, isso não basta, é preciso que haja um terceiro, que o pai interdite essa relação mãe e filho, que crie uma fenda e demarque uma impossibilidade dessa relação incestuosa se perpetuar: “não reintegrarás o teu produto”, “não retornarás ao ventre materno”, essa é a lei do pai. É uma lei que permite a criança sair do lugar do (suposto) objeto que completaria a mãe, e se dirija ao mundo, à sua geração, para constituir-se como sujeito.

Assim, o pai proíbe a criança de ficar com a mãe: “essa mulher é minha!”, sob a promessa de que um dia, o filho também poderá escolher uma mulher, na qual poderá se casar.

É na idade adulta que o filho “escolherá” seu par amoroso. Entretanto, esta escolha é guiada por uma tentativa de restabelecer um laço com uma figura que foi muito importante em sua vida, como veremos a seguir.

A “Escolha” do Par Amoroso

A escolha do par amoroso é uma atualização da relação primária que estabelecemos com aqueles que nos acolheram no mundo (Freud, citado por Ferreira, 2010). Isso significa que nossas escolhas amorosas contém traços de cada um dos nossos pais (ou seus substitutos) pois, foram essas figuras que estavam presentes nos primórdios da nossa constituição psíquica, na infância. Portanto, o redimensionamento dessas experiências infantis, exercerão um papel extremamente importante no que diz respeito às relações amorosas que serão estabelecidas ao longo da vida do sujeito (Ferreira, 2010).

Em busca de um elo (pra sempre) perdido

A busca pelo objeto de amor representa uma tentativa do indivíduo de recuperar seu narcisismo infantil perdido a fim retornar à sensação ilusória de onipotência e completude vivenciada em sua relação primitiva com seu cuidador (Freud, citado por Ferreira, 2010). Trata-se de uma tentativa de retornar a um ponto anterior, onde acreditamos ter sido tudo para o Outro.

De que separação se trata?

Com o fim de um relacionamento amoroso, por exemplo, o sujeito não entrará em contato somente com a dor da perda do atual par amoroso, o sujeito re-atualizará, também, o modo como se deu a sua separação primária, na infância, com a mãe. Ou seja, ele reeditará essa separação. Por isso, a dor da separação amorosa pode ser tão devastadora para algumas pessoas.

Da ordem de uma impossibilidade

Após uma separação amorosa, o sujeito terá que lidar não só com a queda dos ideais (forjados por ele mesmo) mas, também, com a ilusão de completude que (o próprio sujeito) atribuiu ao parceiro/relação amorosa.

O fim da relação, pode vir a ser experienciado pelo sujeito como um fracasso da conjugalidade. Se tomarmos a palavra “fracasso” como significante, veremos que há algo além de um simples fracasso de uma conjugalidade; há também um fracasso em dois seres fazerem um, ou seja, a sensação ilusória de estar completo, de habitar o desejo do Outro foi quebrada, “fracassou”. Mas, não se trata de um fracasso pois, isso é da ordem de um impossível: não há a possibilidade de dois seres fazerem um: “não há relação sexual”, nos lembra Lacan. Entretanto, o sujeito vivencia esse processo no corpo, com angústia e dor.

O ponto fundamental é que por meio de uma escolha amorosa, o sujeito visa, inconscientemente, resgatar uma suposta completude que se teve junto à mãe, nos primórdios da infância. Tempo este em que o neurótico supunha ter sido Tudo para o Outro; de ser o único desejo da mãe. Essa percepção de um dia ter sido Tudo para o Outro é sempre da ordem de uma ficção. Todavia, o sujeito busca, incessantemente, ao longo de sua vida, resgatar essa suposta satisfação completa.

Considerações Finais

O principal intuito desse escrito era destacar que o modo como nos relacionamos com a nossa mãe, na infância, influencia nossas escolhas amorosas, na vida adulta.  Sublinhando como, no decorrer da vida, tentamos re-estabelecer à sensação (ilusória) de onipotência e completude vivenciada nos primórdios da infância, com nossas mães, com o nosso par amoroso.

Referências Bibliográficas

Ferreira,  E. P. (2010). A separação amorosa: uma abordagem psicanalítica. Psicanálise & Barroco em revista v.8, n.1, jul. pp. 56-97.


SOBRE ESTE ARTIGO: 

Artigo escrito em Set./Nov. 2014.


SOBRE O AUTOR:

André Bassete do Nascimento. Pescritos psisicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@gmail.com ou dreebn@yahoo.com.br

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