ENIGMAS FRENTE A SEPARAÇÃO CONJUGAL

Escrito por André Nascimento

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Resumo: Este trabalho tem a pretensão de discutir algumas problemáticas decorrentes do rompimento do vínculo conjugal. Pais e filhos terão que elaborar inúmeras perdas e sentimentos que emergem, encontrando-se diante de um enigma que os convoca a inventar uma saída possível.

 Palavras-chave: Separação conjugal; Enigma; Psicanálise; Relação pais e filhos.

Introdução

A separação conjugal é um evento um tanto quanto delicado para os pais e para os filhos, já que inúmeras questões atravessam uma separação.

Pais e filhos encontram-se fragilizados e vulneráveis pelo rompimento, tendo que elaborar inúmeras perdas e sentimentos que emergem. Diante do real (vazio) que se abre com o fim da conjugalidade, cada um dos pais e cada um dos filhos deparam-se com um enigma, acompanhado por angústia, sendo convocados a inventar uma saída.

Embora muitas pessoas possam ter vivenciado uma separação conjugal, devemos ressaltar que cada sujeito passará por esse processo de modo singular.

Durante este percurso utilizaremos a teoria psicanalítica para dar corpo a essa discussão. Contudo, abrimos espaço para dialogar com outros campos de saber, com outros autores, o que possibilitou um maior aprofundamento sobre o tema.

Problemáticas que acometem o casal

A separação conjugal provoca um desequilíbrio de energia em nosso psiquismo onde toda a libido que era direcionada ao objeto amoroso deverá ser redirecionada a um novo destino (Nazio, citado por Ferreira, 2010). Entretanto, esse rompimento repercute em cada ex-parceiro de maneira diferenciada, podendo cada um deles vivenciar, com maior ou menor grau de intensidade, este período.

Vale lembrar que, somente no momento em que perdemos esse objeto amoroso ou somos  ameaçados de perdê-lo é que nos é “revelado”, de maneira bastante dolorosa, a intensidade dessa ligação (Ferreira, 2010).

Entretanto, para que os sujeitos possam seguir adiante, deverão elaborar uma série de perdas, a dor da separação, o luto do parceiro/relacionamento, cada um em seu tempo, podendo ou não apresentar dificuldades durante esse processo de elaboração do luto. Vejamos, brevemente, algumas problemáticas envolvidas nesse processo de elaboração.

Perdas

Os sujeitos são acometidos por perdas das mais variáveis, difíceis de metabolizar: perdas econômicas, de estabilidade, segurança. Tendo que lidar com a dissolução de vínculos e investimentos feitos no ex-parceiro… (Matioli, 2011). Podendo — ou não — serem acompanhadas de sentimentos de abandono, culpa, desamparo, falha, fracasso, frustração, impotência, remorso, solidão, entre outros (Losso, citado por Matioli, 2011).

A sensação vivenciada de perda da integridade de si, onde o sujeito sente-se mutilado, como se uma parte de si lhe tivesse sido dilacerada ou arrancada; devido ao rompimento da intensa identificação existente entre o apaixonado e seu objeto de amor (Ferreira, 2010).

A perda de uma pessoa amada também pode ocasionar, o afastamento, em menor ou maior grau, de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre o objeto perdido (Freud, citado por Ferreira, 2010).

A dor da separação (conjugal)

A dor psíquica pode ser compreendida como um [sentir no próprio corpo] difícil de definir. Numa separação conjugal, este afeto pode aparecer em diferentes momentos e intensidades, podendo chegar em seu ápice quando o sujeito depara-se com um rompimento inesperado do laço que o une ao ser que ama (Nazio, citado por Ferreira, 2010). Em outros termos, a intensidade da dor vai depender se a pessoa deseja e aceita (ou não) a separação conjugal, e como ela encara a separação: quando um dos parceiros é forçado a se separar contra o seu desejo, o que dói nem é tanto perder o amado, mas continuar a amá-lo mais do que nunca, mesmo sabendo-o irremediavelmente perdido (Nazio, citado por Ferreira, 2010).

A separação do objeto ao qual amamos é vivenciada de maneira tão dolorosa por nós seres humanos, por se tratar de um retorno a uma separação primária originária: a separação dos nossos objetos amorosos da infância, isto é, os nossos pais, principalmente, a mãe. Idealizamos um objeto, atribuímos esse objeto valores e criamos a seu respeito à expectativa de que tal objeto poderia ocupar o lugar do objeto perdido na infância, e assim poderíamos então recuperar o nosso narcisismo infantil perdido. Porém quando percebemos que nossa falta não pode ser tamponada por este objeto ao qual tínhamos tantas esperanças de ser aquele que nos completaria, percebemos a nossa incompletude, e então surge o sofrimento e a desilusão, afinal de contas não perdemos apenas o objeto de amor, mas também a ilusão de que ele poderia nos proporcionar uma “felicidade completa” (Ferreira, 2010).

Luto

A ruptura de uma relação conjugal/amorosa demanda um trabalho psíquico, a travessia de um processo de luto, no qual questões referentes à subjetividade de cada parceiro precisam ser elaboradas (Cleavely, citado por Levy & Gomes, 2011) e dependem da maturidade emocional de cada sujeito: o luto das ilusões, expectativas e projetos desfeitos, entre outros (Matioli, 2011).

A pessoa que vivencia o luto desconhece o valor intrínseco do objeto de amor perdido. A pessoa enlutada sabe o que perdeu, mas não sabe o que perdeu ao perder o seu amado. Desse modo, o amado não é apenas uma pessoa, mas principalmente uma parte —inconsciente — de nós mesmos que desmoronará caso esse objeto seja perdido (Freud, citado por Ferreira, 2010).

Elaboração do Luto

Espera-se que o luto, pouco a pouco, seja superado. Todavia, para isso, será necessário que cada um faça um desinvestimento do objeto amoroso. É um período em que cada um dos ex-cônjuges terá que quebrar com a idealização do modelo fusional de relacionamento. Com isto, a energia libidinal poderá ser direcionada para novos objetos (Freud, citado por Levy & Gomes, 2011).

Dentre os muitos mecanismos de defesa inconscientes utilizados pelo ego para ultrapassar a separação e o luto do ex-parceiro — e da relação —, destacamos, um muito freqüente, a depreciação do objeto, como na fábula da “Raposa e as uvas”, cujo núcleo significante consiste no desejo insatisfeito da raposa, que, por não conseguir alcançar as uvas almejadas, as deprecia. Afinal, perder um objeto desvalorizado, rebaixado, atacado é menos doloroso do que a perda de um objeto valioso. Destruir a imagem do outro, que, por certo período de tempo, foi bastante significativo, torna o desinvestimento mais tolerável para muitas pessoas (Matioli, 2011).

Impasses no processo de Elaboração do Luto

A ferida narcísica decorrente do fim da relação dificulta que cada parceiro assuma sua parte de responsabilidade na história que vinha sendo conjuntamente escrita. A dor só pode ser vivida pela culpabilização — e acusação— do outro, cada um assumindo posições extremadas, preso a uma lógica binária na qual só existem o bom e o mau, o inocente e o culpado, a vítima e o algoz (Levy & Gomes, 2011).

A dor sentida pelos ex-parceiros após o fim da relação é derivada da desarticulação interna das fantasias criadas em torno do amado. Por tais razões, é que o luto pelo fim da relação torna-se um processo doloroso, traumático, e, por vezes, interminável para algumas pessoas (Nasio, citado por Matioli, 2011).

Dificuldades de elaboração do luto no divórcio, talvez, se deva também ao fato de que o objeto perdido se comporte como um morto-vivo, morto dentro de mim como par amoroso, e vivo no mundo real como par parental (Matioli, 2011).

Enigmas frente a Separação Conjugal

Frente ao real da separação, pais e filhos são acometidos por um número infindável de questões a serem respondidas, acompanhadas por angústia.

Do lado dos pais, além das perdas, a dor da separação e o luto das ilusões, também emergem diversos questionamentos: “porque ele(a) me deixou?”, “o que eu fiz de errado?”, “de quem é a culpa do fracasso da relação?”, “E se eu tivesse agido diferente?” (Matioli, 2011). Em última instância: o que ele(a) quer de mim?

Do lado dos filhos, a separação representa um mistério no qual não se tem conhecimento das causas, sendo necessário que esta seja explicada por ambos os pais com o máximo de transparência e objetividade (Bottoli, Antoniazzi, Denardi et. al., 2012). Assim, quando os motivos que levaram a separação não é verbalizada aos filhos, estes tendem a criar perguntas frente ao enigma da separação: “se meus pais deixaram de se amar, eles também podem deixar de me amar?”, “se meu pai abandonou minha mãe, ele também vai me abandonar?”, “será que eles se separaram por minha causa?. Em última instância: “perderei o amor dos meus pais?”. Frente a tais resíduos, os filhos podem apresentar sintomáticas diversas (Matioli, 2011).

Diante do real (vazio) que se abre com o fim da conjugalidade, cada ex-cônjuge deparam-se com um enigma, acompanhado por angústia, sendo convocados a inventar uma saída: seja pela via da culpabilização do outro, onde atribui-se o fim da relação ao ex-parceiro(a) ou, pela via da responsabilização, onde se assume sua parcela de responsabilidade e participação no fim da relação, para que se possa fazer um bom uso desse rompimento do vínculo conjugal.

Para finalizar, é importante dizer que as repercussões que uma separação conjugal causa são inúmeras. Uma das grandes dificuldades suscitadas neste momento, é o fato de um deles, ou o pai ou a mãe, quererem desvincular-se, desligar-se completamente, não só do ex-parceiro mas, também dos filhos. Assim é importante sublinhar que o que termina é a relação conjugal e não a relação parental (Bottoli, Antoniazzi, Denardi et. al., 2012).

Embora os filhos têm sido apontados como os membros da família que mais sentem a separação, mesmo quando esta é unanimemente reconhecida como a melhor escolha para um casal, há indicações de que a separação não causa só efeitos danosos. Existem indivíduos que conseguem superar as perdas em jogo nessa situação (Lopes, 2012).

Orientamos aos pais, mesmo separados, que tentem preservar a imagem um do outro, e que jamais coloquem o filho ou a filha no lugar do genitor ausente (Almeida, 2010).

Em última instância, o esperado é que cada um dos pais, apesar de seus possíveis conflitos e divergências, consigam se separar mantendo o respeito mútuo, e com isso, estabeleçam regras de funcionamento que privilegiem a qualidade de vida dos filhos, amenizando as perdas e o sofrimento decorrentes do processo de separação conjugal (Bottoli, Antoniazzi, Denardi et. al., 2012).

Considerações finais        

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Como vimos, a separação conjugal é um período de intensas problemáticas na vida de cada um dos ex-cônjuges, que serão superadas de acordo com a maturidade emocional de cada sujeito, cada um no seu tempo.

Frente ao real da separação, pais e filhos são acometidos por um número infindável de questões a serem respondidas, acompanhadas por angústia.

Em última instância, o esperado é que cada um dos pais, consiga passar por esse processo de separação conjugal da melhor maneira que lhe for possível, pensando também na saúde e integridade física e psíquica de seus filhos. Afinal, o que termina é a relação conjugal e não a relação parental.

Referências Bibliográficas

Almeida, L. E. S. (2010). A Criança Frente à Separação dos Pais. III Jornada De Psicanálise Do GPAL, Nov., pp. 38-43.

Bottoli, C. , Antoniazzi, M. P., Denardi, A. T. e Silva, L. M. (2012). Separação conjugal: suas implicações e os desafios para psicologia. 5º Interfaces no fazer psicológico: direitos humanos, diversidade e diferença. Psicologia Unifra. pp.01-10.

Ferreira,  E. P. (2010). A separação amorosa: uma abordagem psicanalítica. Psicanálise & Barroco em revista v.8, n.1, jul. pp. 56-97.

Levy,  L. e Gomes, I. C. (2011). Relações amorosas: rupturas e elaborações . Tempo psicanalítico, Rio de Janeiro, v.43.1, pp.45-57.

Lopes, R. G. (2012). De que sofrem os filhos de pais separados? Revista aSEPHallu, Rio de Janeiro, vol. VII, n. 13. Recuperado em http://www.isepol.com/asephallus/numero_13/artigo_04.html

Matioli, A. S. (2011). Um estudo psicanalítico da separação conjugal: as mensagens enigmáticas de pais separados dirigidas aos seus filhos. Dissertação. Mestrado em Psicologia – Universidade Estadual de Maringá. Maringá. pp. 01-28.


SOBRE ESTE ARTIGO: 

Artigo escrito em Outubro de 2014, por André Nascimento.


   

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escritos psiAndré Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Autor, editor e idealizador do Blog Eu Tava Aqui Pensando e Escritos Psicanalíticos. Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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