ARTIGO: RESILIÊNCIA EM FOCO: DA PSICOLOGIA POSITIVA A PROMOÇÃO DA RESILIÊNCIA EM ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE RISCO SOCIAL

Por André Bassete do Nascimento

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Resumo: O presente trabalho consiste em uma revisão de literatura sobre a promoção da resiliência em adolescentes em situação de risco social. Para a psicopatologia do desenvolvimento, o risco tem um potencial para predispor pessoas e populações a resultados negativos específicos. Todavia, os resilientes buscam através do autoconhecimento o equilíbrio necessário para aprender a transformar emoções e experiências negativas em positivas. Destacam-se as redes de apoio e as características individuais como os principais fatores de proteção e colaboradores no processo de resiliência. E a psicologia positiva como movimento de investigação de aspectos potencialmente saudáveis dos seres humanos.

Palavras-chave: Adolescência, Resiliência, Situação de Risco, Psicologia Positiva, Psicopatologia do Desenvolvimento.

1. Introdução

Porque não resiliência?

Esta deveria ser a pergunta primordial, quando falamos de períodos da vida que envolve situações intensas e adversas, sofrimentos, abandono, negligência e violência. Em síntese, risco social. Essa capacidade de superação e enfrentamento chamou atenção de pesquisadores e profissionais do campo científico e conseqüentemente, psicológico. E é com esse conceito, recente para a psicologia, que lhe convido lançar-se num caminho que possibilite um novo olhar para as questões que serão apresentadas neste trabalho. Partindo da psicologia positiva, como produtora de estudos e investigações de aspectos potencialmente saudáveis que regem os seres humanos, pretende-se, a partir de tal visão teórica, abordar como aspecto principal a resiliência, isto é, essa capacidade de sobreviver e superar situações adversas e conflitantes perante os mais diferentes contextos. Com foco no autoconhecimento adquirido no enfrentamento de tais situações e contextos diferenciados e no potencial positivo humano. Tais questões desafiam-nos, como profissionais da saúde, a sair das mesmices convencionais, que são referidas às situações de risco social.

Na primeira parte, será esclarecido, mais diretamente o conceito e suas características; posteriormente, serão destacados de forma genérica, a psicologia positiva, alguns elementos [fatores] de risco e vulnerabilidade e a promoção de resiliência para a formação humana. Destacando-se as redes de apoio e as características individuais como os principais fatores de proteção e colaboradores no processo de resiliência.

2. Revisão de Literatura

A partir da proposta de trabalho com adolescentes do sexo feminino em situação de risco social na Casa Lar Batista Aribiri, localizada no bairro Aribiri, Vila Velha, Espírito Santo (ES) da disciplina de Estágio Básico em Psicologia II ministrada pela psicóloga Profª Drª. Sabrine Mantuan dos Santos Coutinho da Universidade Vila Velha (UVV), nos meses de Setembro à Dezembro do ano de 2011, realizou-se uma revisão de literatura com artigos científicos publicados entre os anos de 2003 e 2009. Partindo do pressuposto da temática escolhida “Resiliência em foco: da Psicologia Positiva a promoção da Resiliência em adolescentes em situação de risco social” para o desenvolvimento deste artigo.

2.1 Resiliência: Origem, Conceitos e Características

Toda vez que duas ciências dialogam nasce, por assim dizer, algo novo. A Psicologia ao ‘conversar’ com a Física chegou a um conceito de características muito versáteis: a resiliência. O uso do termo resiliência ocorreu pela primeira vez em 1966, para descrever as forças psicológicas e biológicas necessárias para superar, com sucesso, as mudanças na vida (Pinheiro, 2004, citado por Sequeira, 2009, p.67). E para que entenda-se a amplitude do termo, faz-se necessário conhecer sua origem, conceitos, características e suas diferentes significações descritas por autores que se dedicaram a estudar tal fenômeno.

Segundo Monteiro et. al. (2001, citado por Ferreira e Leal, 2006), “o termo tem origem no latim resílio que significa retornar a um estado anterior”. (p.03).

De acordo com os dados pesquisados por Yunes (2003), “na língua portuguesa, a palavra resiliência, aplicada às ciências sociais e humanas, vem sendo utilizada há poucos anos”. (p.76). Por tratar-se de um conceito relativamente novo no campo psicológico, a resiliência ganha espaço e vem sendo bastante discutida do ponto de vista teórico e metodológico pela comunidade científica. Embora no Brasil ainda se restrinja a um grupo bastante limitado de pessoas de alguns círculos acadêmicos. Isto é, alguns profissionais da área da Psicologia, da Sociologia ou da Educação nunca tiveram contato com este termo e desconhecem seu uso formal ou até mesmo, informal, bem como sua aplicação em qualquer das áreas da ciência. Em contrapartida, profissionais das áreas de Engenharia, Ecologia e Física, e até mesmo de Odontologia, mostram certa familiaridade, quando ela refere-se à resistência de materiais. É interessante destacar que, nos diferentes países da Europa, nos Estados Unidos e no Canadá, a palavra resiliência vem sendo utilizada com freqüência, não só por profissionais das ciências sociais e humanas, mas também em referências da mídia a pessoas, lugares, ações e coisas em geral. (Dell‟Aglio, Koller e Yunes, 2006, p. 47).

A autora Yunes (2003), para melhor desenvolver a temática e explicar tal diferença cultural do termo resiliência nas prioridades de significado, recorreu a dicionários específicos e atualizados.

Segundo a autora, o dicionário de Língua Portuguesa de autoria de Ferreira (1999), conhecido como Novo Aurélio, diz que “na Física, resiliência é a propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão causadora duma deformação elástica”. (p.76). A autora também recorreu ao dicionário Longman Dictionary of Contemporary English (1995) de língua inglesa, que oferece duas definições e constatou que o termo resiliência significa “a habilidade de voltar rapidamente para o seu usual estado de saúde ou de espírito depois de passar por doenças, dificuldades etc.: resiliência de caráter [01]”. (p. 76). Já a segunda explicação para o termo encontrada no mesmo dicionário afirma que resiliência “é a habilidade de uma substância retornar à sua forma original quando a pressão é removida: flexibilidade [02]”.

(p.76). Em síntese, Yunes (2003) adverte que:

No dicionário de português a referência é feita apenas à resiliência de materiais, e mesmo no sentido figurado, nada é especificamente claro para a compreensão do que seja a resiliência quando se trata de pessoas. Já o dicionário de inglês confirma a prioridade ou maior familiaridade para o uso do termo em fenômenos humanos, apontando em primeiro plano a definição neste sentido. (p. 76).

De acordo com Yunes (2003) alguns estudiosos, como Masten (2001) reconhecem a resiliência como um fenômeno comum e presente no desenvolvimento de qualquer ser humano, e outros como, Martineau (1999) e Yunes (2001), enfatizam a necessidade de cautela no uso “naturalizado” do termo. Tais características foram observadas também presentes nos seres humanos. Pois certas pessoas apresentam, por assim dizer, uma grande capacidade de superar as piores situações e conflitos, já outras, ficam aprisionadas na infelicidade e na angústia que abatem-se sobre elas. (Ferreira e Leal, 2006, p.01).

Assis, Pesce & Avanci (2006, citado por Ferreira e Leal, 2006), apontam que:

“A prática educativa em contextos de pobreza e marginalidade faz surgir à necessidade de reflexões teóricas sobre a capacidade que certas pessoas têm de sobreviver diante de situações adversas, diante do sofrimento, abandono, negligência e violência. Trata-se da chamada ‘resiliência'”. (p.02).

A observação de tal fenômeno levou ao interesse e aprofundamento dos estudos sobre resiliência no campo científico psicológico. De acordo com Yunes (2003), “os precursores do termo resiliência na Psicologia são os termos invencibilidade ou invulnerabilidade, ainda bastante referidos na literatura”. (p.77).

Ferreira e Leal (2006) esclarecem o conceito de resiliência na Psicologia como:

“a capacidade concreta das pessoas de não só retornarem ao estado natural de excelência, superando situações críticas, mas também de utilizá-las em seus processos de desenvolvimento pessoal, sem se deixarem afetar negativamente, capitalizando as forças negativas de forma construtiva”. (p. 03).

Recentemente, o conceito de resiliência foi assimilado pelo campo da Saúde Pública, o que atribuiu uma conotação voltada à promoção da saúde, ao bem-estar e a qualidade de vida. (Ferreira e Leal, 2006, p. 03).

Faz-se importante o esclarecimento de que, segundo Yunes (2003, citado por Paludo e Koller, 2005), “a definição de resiliência ainda não é clara e nem tão precisa quanto à da Física, uma vez que devem ser considerados os fatores e as variáveis que envolvem o seu principal objeto de estudo – os seres humanos”. (p. 187). E sustenta-se, segundo Kotliarenco, Alvarez e Cáceres (1995, citado por Dell‟Aglio, Koller e Yunes, 2006) “da compreensão das diferenças individuais existentes entre os indivíduos e como estas diferenças interagem, como por exemplo, a idade do indivíduo, o nível de desenvolvimento do sistema nervoso, o gênero, a genética, o contexto cultural e ambiental”. (p.24).

Sampaio (2005, citado por Ferreira e Leal, 2006) acredita que “os resilientes buscam no autoconhecimento o equilíbrio necessário para aprender a transformar emoções negativas em positivas”. (p.03).

Cyrulnik (2002, citado por Dell‟Aglio, Koller e Yunes, 2006), traz a compreensão de que “a resiliência é a capacidade do ser humano em responder a um trauma e de ser feliz apesar deste ter marcado sua vida”. (p26). Já para Azevedo (2000, citado por Ferreira e Leal, 2006), “a resiliência funda-se numa interação entre a pessoa, enquanto ser humano e o seu eu, enquanto produto de desenvolvimento”. (p. 05).

Martineau (1999, citado por Yunes, 2003, p.77) detectou três perspectivas distintas nos discursos vigentes sobre resiliência:

A primeira, o discurso dominante e bem-documentado dos especialistas – como resultado de elaborados estudos psicométricos e da análise estatística dos dados obtidos por medidas e em ambientes controlados através de escores de testes, notas de escola e perfis de personalidade ou temperamento (sendo estes alguns exemplos de instrumentos utilizados para se chegar a um conjunto de características e traços que identificam a “criança/pessoa resiliente”). Martineau (1999, citado por Yunes, 2003, p.77) sumariza que os principais traços vistos como características fixas da resiliência, que formam um consenso na opinião de diversos autores são: sociabilidade, criatividade na resolução de problemas e um senso de autonomia e de proposta. A segunda, o discurso experiencial, menos valorizado e subordinado ao discurso dos especialistas, cuja base são os estudos qualitativos, com dados obtidos a partir de histórias de vida de adultos relatadas a psicoterapeutas (e identificados por outras pessoas como “resilientes”), nas quais “estão embutidas as idiossincrasias de memória, narrativa, identidade, interpretação e subjetividade”. (Martineau, 1999, p. 73, citado por Yunes, 2003, pp. 77-8).

E finalmente, em terceiro, apresenta o discurso de pessoas que trabalham diretamente com crianças e adolescentes (educadores, psicólogos, assistentes sociais), uma perspectiva de resiliência ainda em construção, que sintetiza aspectos dos dois discursos, dos experts e do experiencial. Ao posicionar-se, afirma que reificar/replicar as características de uma determinada criança como “resiliente” (através da mensuração de um conjunto de traços) é negar que resiliência é contingente/provisória, imprevisível e dinâmica. (Yunes, 2003, p.78).

De acordo com (Grotberg, 1995, p. 07 citado por Yunes, 2003), “resiliência é uma capacidade universal que permite que uma pessoa, grupo ou comunidade previna, minimize ou supere os efeitos nocivos das adversidades”. (p.78)

Alguns autores como Cecconello & Koller (2000) e Grotberg (2005) acreditam que “a resiliência é a capacidade de adaptação adquirida nas relações que estabelecem vínculos afetivos e de confiança”. (Sequeira, 2009, p.68). Entretanto, para Cyrulnik (1999, citado por Sequeira, 2009), “a ideia não é de adaptação, mas sim de superação, que é algo mais sofisticado, como a construção de um novo trajeto pessoal, a partir de uma elaboração que marca a pessoa, mas não a impede de seguir o seu desenvolvimento”. (p.68). Cyrulnik (1999, citado por Sequeira, 2009, p.68) completa dizendo que a resiliência não é um processo estanque e/ou linear, porque podemos encontrar respostas diferentes do mesmo indivíduo em diversos momentos da vida, algumas mais saudáveis, outras menos, e nem por isso a pessoa deixaria de ser resiliente.

Masten (2001, citado por Koller, 2003), relata que a resiliência “refere-se ao fenômeno caracterizado por resultados positivos na presença de sérias ameaças à adaptação ou ao desenvolvimento da pessoa”. (p. 227).

Para Rutter (1996, citado por Koller, 2003), “a resiliência está relacionada com variações individuais em resposta aos fatores de risco”. (p.19). Com ênfase na noção de processo, uma vez que a capacidade de adaptação depende tanto da intensidade do risco, quanto da sua interação com outros fatores.

Cowan e colaboradores (1996, citado por Koller, 2003), que dizem que “a resiliência refere-se ao processo que, embora opere na presença de fatores de risco, produz resultados positivos tão bons ou melhores do que os obtidos na ausência deles”. (p.19). No contexto familiar, em contrapartida, Walsh (1996, p. 262, citado por Koller, 2003), “define a resiliência familiar como uma „resiliência relacional‟”. (p.27). E para Hawley e DeHaan (1996, citado por Koller, 2003), “a resiliência familiar envolve a trajetória da família no sentido de sua adaptação e prosperidade diante de situações de estresse, tanto no presente quanto ao longo do tempo”. (p. 27). A resiliência pode ser descrita como o desenvolvimento de uma força interna, por meio de pensamentos, palavras e ações, de contribuem na vivência de mudanças, superando crises e estresse com o mínimo de comportamentos disfuncionais. Contribui, por assim dizer, para que certas pessoas resistam e lutem sem perder sua dignidade, sua capacidade de ser saudável. (Ferreira e Leal, 2006, p. 02). Todavia, o „ser resiliente‟ não significa conseguir resistir a todas as pressões que o meio impõe, já que, própria física explica que a resistência de um dado material tem limites. É importante que fique claro que o critério utilizado para definir essa adaptação nos estudos que sobre o conceito de resiliência determinará as variáveis a serem incluídas em pesquisas.

2.2 Da Psicologia Positiva a Resiliência

Afinal, o que é a psicologia positiva? E o que esta tem a haver com a resiliência? Uma breve apresentação desta perspectiva da psicologia será apresentada para que se possa desenvolver e esclarecer o objetivo deste trabalho. A fim de esclarecer esta relação do conceito de resiliência com a psicologia positiva. De acordo com Nunes (2007):

“Tendo por base a resiliência, a psicologia positiva pretende explicar como em situações benignas do dia-a-dia as pessoas usufruem do melhor da sua vida e de si mesmas. Este interesse não é, contudo, contemporâneo. Em 1902, William James escrevia sobre a „determinação da mente em ser saudável‟; em 1958, Allport manifestava interesse pelas características positivas que compunham o repertório humano; Maslow (1968) focou o estudo da pessoa saudável e, mais recentemente, refere-se como exemplo a investigação que Cowan (2000) tem desenvolvido na área da resiliência em crianças e adolescentes. Em termos de intervenção, a psicologia positiva preconiza que tratar „não é apenas arranjar o que está danificado; é também cuidar de algo ou alguém e fomentar o que temos de melhor‟. (Seligman & Csikszentmihalyi, 2000). Desta forma, amplificaram-se forças, em vez de se corrigirem fraquezas, o que tem sido um dos principais objectivos desta disciplina”. (p.02).

Martin Seligman (1998) considerado um importante pesquisador da ciência psicológica, faz uma crítica a Psicologia (com foco nas suas contribuições) destacando a necessidade de mudança, alegando que esta ainda centrava-se em uma prática historicamente orientada para a compreensão e tratamento de patologias. Segundo esse importante pesquisador, a ciência psicológica tem “esquecido” ou negligenciado a sua mais importante missão: a de construir uma visão de ser humano com ênfase em aspectos “virtuosos”. Em vista de tal perspectiva, busca-se através da ciência psicológica transformar antigas questões em novas possibilidades de entendimento de fenômenos psicológicos, estando entre eles: a felicidade, altruísmo, otimismo, esperança, satisfação, alegria e os demais temas humanos, tão importantes para a pesquisa quanto depressão, angústia, ansiedade e agressividade (Yunes, 2003, p.75).

De acordo com Yunes (2003), “trata-se, portanto, de uma psicologia que almeja antes de tudo romper com o viés „negativo‟ e reducionista de algumas tradições epistemológicas que têm adotado o ceticismo diante de expressões salutogênicas de indivíduos, grupos ou comunidades”. (pp.75-6). Na esteira destas iniciativas, “alguns fenômenos indicativos de „vida saudável‟ têm sido referidos como sistemas de adaptação ao longo do desenvolvimento (Masten, 2001, citado por Yunes, 2003), dentre os quais destaco a resiliência”. (p.76).

2.3 Fatores de Risco

Dando continuidade serão apresentados inicialmente alguns fatores de riscos encontrados no processo de formação humana, posteriormente, pretende-se destacar alguns elementos de promoção da resiliência, em especial, o uso das estratégias para integrar mente/corpo e resgatar o sentido do espiritual como integralidade.

Dentro da Psicopatologia do Desenvolvimento, por exemplo, “o conceito de risco tem suas origens na epidemiologia, cujo foco consiste em estudar padrões de doença em determinadas populações e fatores que influenciam estes padrões” (Masten & Garmezy, 1985, citado por Koller, 2003, pp.19-20). O que presume, por assim dizer, a existência de uma probabilidade estatística em uma determinada população para o desenvolvimento de alguma desordem. Dentre os fatores de risco podem estar presentes características individuais, como, o sexo, os fatores genéticos, as habilidades sociais, intelectuais e características psicológicas. E fatores de risco ambientais, sendo destacados, o baixo nível sócio-econômico, eventos de vida estressantes, características familiares e ausência de apoio social. (Masten & Garmezy, 1985, citado por Koller, 2003, p.20). Deste modo, segundo estes dois autores, o risco tem um potencial para predispor pessoas e populações a resultados negativos específicos.

Entretanto, faz-se possível declarar que a resiliência é o processo final de mecanismos de proteção que não eliminam o risco e sim encorajam o indivíduo a se engajar na situação de risco efetivamente. (Rutter, 1987, citado por Dell‟Aglio, Koller e Yunes, 2006, p.31).

Masten (2001, citado por Koller, 2003), traz a concepção de que a “resiliência é um construto inferencial e contextual, que envolve duas dimensões: a presença dos processos de adaptação e dos fatores de risco” (p.18). Parece, por assim dizer, ser um fenômeno comum e simples, que em muitos casos, resulta da operação de sistemas básicos de adaptação humana. Se tais sistemas estão protegidos e em bom funcionamento conjunto, o desenvolvimento é considerado positivo, mesmo na presença de adversidades. Todavia, Master (2001) alerta que se tais sistemas são prejudicados em decorrência da exposição a um fator de risco, ou mesmo anteriormente à presença dele, o potencial para desenvolver problemas no desenvolvimento posterior é maior. Neste sentido, Koller (2003) afirma que a grande surpresa nas pesquisas sobre resiliência é „a simplicidade do fenômeno‟. (Koller, 2003, p. 227).

Luthar (1991, citado por Koller, 2003) afirma que “o baixo nível sócio-econômico é uma das variáveis sócio-demográficas mais investigadas em pesquisas sobre fatores de risco” (p.20).

Koller (2003) apresenta estudos sobre fatores de risco descritos por Garmezy & Masten (1994) e Rutter (1987, 1993 e 1996) que identificaram variáveis constituindo adversidades crônicas em nível familiar, cujos efeitos cumulativos demonstraram estar significativamente associados com o desenvolvimento de alguma patologia infantil, tais como: “a (1) discórdia conjugal severa; (2) baixo nível sócio-econômico; (3) famílias numerosas; (4) criminalidade paterna; (5) doença mental materna; (6) institucionalização da criança”. (p.21).

Entretanto, tais fatores não podem ser considerados como regra sem exceção, como demonstrou Sonn & Fisher (1998, citado por Dell‟ Aglio, Koller e Yunes, 2006, p.122), levando em consideração que alguns grupos desenvolvem processos e mecanismos que garantem sua sobrevivência, não só física, mas também dos valores de sua identidade cultural.

É importante que se abra um parêntese perante tais questões, na realidade, se tem pouco conhecimento dos processos e da dinâmica das famílias consideradas pobres. Já que alguns estudos brasileiros chegaram a demonstrar que algumas dessas famílias, mostram-se hábeis quando se trata de tomada de decisões e na superação de grandes desafios, evidenciando, por assim dizer, uma unidade familiar e um sistema moral considerado fortalecido diante da proporção das circunstâncias desfavoráveis de suas vidas. (Carvalho, 1995; Mello, 1995, Sarti, 1996; Szymanski, 1998, citado por Dell’Aglio, Koller e Yunes, 2006, p.121).

E faz-se importante ter a clareza de que tradicionalmente o risco era concebido unicamente em termos estáticos, como um fator que predispunha a um resultado negativo. Em vista disso, a simples presença de um fator de risco já era suficiente para se prever conseqüências indesejáveis. Como por exemplo, a pobreza, considerada um fator de risco relacionado com conseqüências negativas para famílias e para crianças. Recentemente, uma visão mais dinâmica sobre o risco emerge, atribuindo a ele uma conotação de processo (Cowan e cols., 1996, citado por Koller, 2003, p20).

2.4 Resiliência e Vulnerabilidade

Resiliência e vulnerabilidade. É importante antes de dar continuidade a este trabalho, se fazer o esclarecimento de que, conforme afirma Ferreira e Leal (2006), “à medida que se potencializa a resiliência, reduz-se a vulnerabilidade e vice-versa”. (p. 04). Sendo assim, alguns fatores agem como facilitadores da vulnerabilidade infanto-juvenil, enquanto outros agem proativamente, funcionando como mecanismos de proteção (Ver Quadro 01). Nota-se também, que, por exemplo, as chamadas redes sociais são fundamentais para a promoção da resiliência.

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De acordo com Sluzki (1997, pp. 41-2, citado por Ferreira e Leal, 2006): “Estas redes sociais podem ser definidas como: todas as relações que um indivíduo percebe como significativas ou define como diferenciadas da massa anônima da sociedade. Essa rede corresponde ao nicho interpessoal da pessoa e contribui substancialmente para seu próprio reconhecimento como indivíduo e para sua auto-imagem”. (p. 04).

Conclui-se a partir de tal afirmativa que, um dos fatores considerados necessários para o desenvolvimento da resiliência é o apoio e o acolhimento pelos membros da rede pessoal e social da qual o indivíduo faz parte. Tal fato se dá, conforme aponta Cyrulnik (2004) porque essas pessoas atuam como „tutores de resiliência‟, ou, segundo Bolwby (2002), como „figuras de apego‟. Isto é, a resiliência sintetiza, na verdade, o resultado de intervenções de apoio, de otimismo, de dedicação e amor que perpassam as relações intra e inter-humanas. Essa aceitação incondicional do indivíduo enquanto pessoa, principalmente pela família ou quem faz tal função, assim como a presença das redes sociais de apoio , permitem o desenvolvimento de condutas resilientes. Essa compreensão é fundamental para que haja vista que não se pode ser resiliente sozinho. (Ferreira e Leal, 2006, p.04-5).

2.5 Promoção da Resiliência

Quando descrevo fatores de promoção da resiliência, tais fatores correspondem às influencias que, de certa forma, causam a modificação, a melhoria ou chega a alterar respostas individuais a determinados riscos de desadaptação. Costa (1995, p.12, citado por Ferreira e Leal, 2006) enfatiza que a resiliência não é privilégio de alguns. De acordo com Monteiro (et. al., 2001, citado por Ferreira e Leal, 2006), pesquisadores estão investindo na capacidade de promoção da resiliência, obtendo resultados satisfatórios, sugerindo algumas estratégias centradas na pessoa, tais como:

“Redirecionamento do impacto de risco; Redirecionamento da reação, que se faria por uma trajetória negativa; Desenvolvimento da auto-estima e do poder de ações positivas, por meio de relações pessoais, de novas experiências e de aprendizagem para suplantar desafios, e, a Criação de oportunidades que permitam ao indivíduo ter acesso a recursos”. (p.04)

Vicente (1996, citado por Ferreira e Leal, 2006) também aponta a existência de três fatores que promovem a resiliência, entre eles:

“o modelo do desafio, os vínculos afetivos e o sentido de propósito no futuro. As características centrais encontradas nas pessoas resilientes são: o reconhecimento da verdadeira dimensão do problema; o reconhecimento das possibilidades de enfrentamento, e o estabelecimento de metas para sua resolução.” (p.05).

Ferreira e Leal (2006) que atestam que “a resiliência, portanto, é um fenômeno que pode ser promovido/aprendido”. (p. 05).

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) realizou publicações onde defende a promoção de resiliência em crianças e adolescentes. Baseados no modelo nomeado PCAP (People, Contribuitions, Activities, Place), os pontos principais dos programas de intervenção estão buscam elencar pontos de apoio para a intervenção. Como primeiro ponto, as pessoas que estão em contato com a criança servem de referência e de apoio, devendo estar efetivamente comprometidas com o seu desenvolvimento. Ao oferecerem-se atividades as crianças, estas devem privilegiar e proporcionar sua autonomia, o desenvolvimento de sua capacidade de ação no mundo e sua autoconfiança. Deve-se estender o contato da criança com um maior número de pessoas (sempre que possível); envolvendo a família, amigos, professores e a comunidade nos cuidados com ela. Oferecer espaços de sua interação com outras pessoas, desde agrupamento com seus pares até projetos na comunidade (Munist et al, 1998, citado por Sequeira, 2009, p.72).

3. Considerações finais

A resiliência, genericamente falando, é a capacidade de superar as piores situações e conflitos e adversidades. Tendo por base este versátil conceito a psicologia positiva pretende explicar como em situações benignas do dia-a-dia as pessoas usufruem do melhor da sua vida e de si mesmas. As redes sociais mostram-se como os principais fatores de proteção e colaboradores no processo de resiliência. Como aponta diversos autores e alguns estudos sistemáticos sobre o tema resiliência com foco nas pessoas e nas organizações, revelou-se que a resiliência não é, digamos, uma qualidade única e extraordinária, característica intransferível de um grupo especial de pessoas. Nota-se que a resiliência é antes de tudo a resultante das qualidades comuns que a maioria das pessoas já possui, mas que precisam estar corretamente articuladas e suficientemente desenvolvidas. (Costa, 1995, p.12, citado por Ferreira e Leal, 2006, p. 05). A resiliência, portanto, é um fenômeno que pode ser promovido/aprendido.

Referências Bibliográficas

Cecconello, S. M. (2003). Resiliência e vulnerabilidade em famílias em situação de risco. Tese de Doutorado, UFRGS. Programa de Pós-graduação em Psicologia do Desenvolvimento. pp. 18-30.

Dell‟Aglio, D. D., Koller, S. H. e Yunes, M. A. M. (2006). Resiliência e Psicologia Positiva: interfaces do risco à proteção. 1ª ed. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Ferreira, A. L. e Leal, A. L. (2006). Formação humana e adolescência: a espiritualidade como fator de promoção da resiliência. pp. 01-13.

Nunes, P. (2007). Psicologia Positiva. Trabalho de Licenciatura, UC. Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação. Portugal. pp. 01-49. Disponível em <http://www.psicologia.pt/artigos/textos/TL0115.pdf&gt;.

Paludo, S. S., Koller, S. H. (2005). Resiliência na rua: um estudo de caso. Psicologia: teoria e pesquisa. Porto Alegre, vol. 21, n. 2, pp. 187-195.

Sequeira, V. C. (2009). Resiliência e abrigos. Boletim Academia Paulista de Psicologia – Ano XXIX, nº 01/09, pp. 65-80.

Yunes, M. A. M. (2003). Psicologia positiva e resiliência: o foco no indivíduo e na família. Psicologia em estudo, Maringá, vol.8, pp.75-84.

 

NOTA

Este artigo também foi publicado no site Psicologado.com, na categoria de Desenvolvimento Humano.  Para conferi-lo no Site, (Clique Aqui)

 


SOBRE ESTE ARTIGO:

Trabalho direcionado à Disciplina de Estágio Básico em Psicologia II. Orientado pela Profª. Drª. Sabrine Mantuan dos Santos Coutinho. Universidade Vila Velha (UVV), Boa Vista – Vila Velha (ES). Artigo escrito em Set./Nov. 2011.


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André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Psicanalista. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog A Vida e a PsicanáliseEu Tava Aqui Pensando, Sala de Espera e da Revista Eletrônica Escritos Psicanalíticos. Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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