UM DOS POSSÍVEIS LUGARES QUE UMA AUTORIDADE POLÍTICA PODE VIR A OCUPAR NA VIDA PSÍQUICA

André Bassete do Nascimento

            “A Política é a arte de Pensar as mudanças e torná-las efetivas”[2] (Milton Santos)

“O que nos leva a sempre criticar os Políticos?”[3] (José Nazar)

                                   “O Psicanalista é um simples passador de um discurso do qual ele não é o proprietário”[4] (Renata Conde Vescovi)

 

(Ilustração Roberto Negreiros)

Apresentação

Este trabalho tem como propósito discorrer sobre um dos possíveis lugares que uma autoridade política pode vir a ocupar em nossa vida psíquica.

Palavras-chave: Política. Governo. Autoridade. Psicanálise. Idealização. Inconsciente.

Introdução

Visto a dimensão que vem tomando algumas manifestações no Brasil e no Mundo, creio ser importante, e um grande desafio, tecer algumas considerações a respeito de um tema tão complexo: a Política.

Veremos adiante, alguns breves comentários sobre o que entendemos neste trabalho por Política, esta invenção humana que objetiva, entre outras coisas, organizar nossa Sociedade. Para que nos seja possível abordar, mais a frente, o que se espera daquele que se dispõe a ocupar um cargo político e um dos possíveis lugares que uma autoridade política pode vir a ocupar na vida psíquica de cada um de nós.

Breves comentários sobre o “conceito” de Política

A Política é, antes de tudo, uma invenção humana, que diz respeito às “atividades que fazem com que as comunidades humanas se organizem, se reconheçam e se governem” (Nogueira, citado por Hartung, 2008, p. 30).

A Política é o que torna os homens mais humanos, melhor preparados para conviver, dialogar e construir seu destino; é quem permite a passagem de um possível conflito para algo transformador. E porque não dizer um espaço privilegiado de negociação e diálogo entre Governo e Sociedade (Nogueira, citado por Hartung, 2008).

A Política põe em movimento o curso da história, considerando a multiplicidade de projetos e visões de mundo, conciliando desejos e possibilidades concretas, facilitando a necessária e contínua transformação da vida em coletividade (Hartung, 2008).

Sabemos que “a política surgiu como uma extraordinária invenção grega para corrigir as assimetrias do poder na sociedade” (Oliveira, citado por Hartung, 2008, p. 31). Entretanto, cabe refletir:  o que é a política, hoje? A serviço de que ela vem sendo utilizada?

Hoje, observamos que muitas pessoas servem-se da política em benefício próprio. Evidentemente, há ainda uma minoria que lutam para que estes “princípios” possam florescer em nossa sociedade.  Ora, é a Política em si, ou os políticos que estão com baixa credibilidade em nossa sociedade?

Precisamos reavivar a memória da “verdadeira” Política, uma Política de “boa qualidade”. É preciso retomar projetos que viabilizam a vida em coletividade. Talvez, seja interessante não perdermos de vista aquela política de base Democrática e Republicana que nos regia a algumas décadas, com sua capacidade de construir espaços de debate em busca de convergências que beneficiem os cidadãos. Afinal, o valor da política se afirma e se propaga com o debate de ideias, o diálogo entre diferentes e a união em torno do interesse comum que resultem em ações visando oferecer condições mais dignas de existência no mundo (Hartung, 2008). E mais do que isso, precisamos rever a Estrutura Política de nosso País. A pergunta que fica no ar é: Como? Que recursos e/ou meios dispomos HOJE para fazer isso? Sem ficarmos numa eterna lamuria, esperando o retorno de tempos que já se foram…

Porque elegemos pessoas que pensam e agem em benefício próprio e de seu partido político, invés de pessoas que pensem no bem comum, numa forma de gerir nossa sociedade com base na ética e no diálogo?

Ocupar um Cargo Político, representá-lo[5], com compromisso democrático e convicção republicana, não é tarefa fácil (Hartung, 2008). Como muito bem disse Hannah Arendt (citado por Hartung, 2008, p.34): “ao se optar por investir no processo de construção da história coletiva, há uma  renúncia ao eu, ao universo privado, e passa-se à preocupação com o mundo, com a vida pública”. Estes são os verdadeiros representantes da Política.

Passamos agora para uma “Outra cena”… Será que existe um “bom” Político?

Hoje, aquele que se nomeia e, ao mesmo tempo, é nomeado por alguns outros de “Político” já está de antemão “sentenciado”, “condenado” perpetuamente pelo imaginário social de “ladrão”, “alguém desprezível”, “que desperta sentimentos regidos pelo ódio e pela desconfiança”, entre outros. Daí, atribuímos a eles, a responsabilidade pelos sofrimentos, decepções, infortúnios e contrariedades que afligem e esmaecem os rumos de nossa vida cotidiana. Atribuímos aos Políticos as razões de nossas impotências e fracassos, além disso, esperamos e exigimos que realizem tarefas impossíveis (Nazar, 2009).

Pretendo levantar uma das possíveis “razões” desta interpretação, digamos, tão negativa.

Para alcançar mais esse objetivo, tentarei discorrer, daqui em diante, sobre o lugar que uma autoridade política pode vir a ocupar na vida psíquica de cada um de nós.

Àquele que ocupa o lugar de autoridade política pode não ser bem visto. Trata-se de algo que remonta a séculos e que não, necessariamente, se dirige à pessoa que dará corpo a essa função. As razões destes sentimentos exacerbados devem-se, em grande parte, ao fato de que vivemos para com ele uma suposição, uma idealização que se dirige fundamentalmente ao lugar que ele ocupa na sustentação de uma organização social. Tendemos à atribuir a eles o lugar daquele que sabe; aquele que possui as todas respostas;  que sabe qual que é o “melhor” caminho; que direção devemos seguir… e que deve responder imediatamente aos nossos anseios, nossas faltas (Nazar, 2009).

Mas não queremos saber de nada disso! Continuamos a depositar neles esperanças exageradas. Depositamos naqueles que ocupam os cargos políticos uma contundente esperança, outorgamos a eles uma responsabilidade desmedida de resolução de nossas questões, que se traduz em algo que vem re-cobrir a fragilidade e a penúria que habita nossos ideais. Exigimos, daqueles que nos representam, tudo aquilo que serve para aplacar os desígnios cruéis que a realidade da vida nos impõe (Nazar, 2009).

Ao Votar, damos a alguém o Direito de ser o Representante de nossos Direitos de Cidadãos, legiferados na constituição de uma determinada sociedade (Nazar, 2009). É por isso que precisamos analisar, criteriosamente, a quem estamos dando o direito de “agir em nosso Nome”, pelo bem de nossa sociedade, de nossos semelhantes e de nós mesmos.

Qual o lugar que um Político pode vir a ocupar em nossas vidas? Evidentemente, pode vir a ocupar um lugar de autoridade que guarda alguma semelhança àquela do Pai, aquele ao qual nos referenciamos no que diz respeito ao futuro de nossos desejos, no qual nos apoiamos e a quem delegamos as responsabilidades de nossos fracassos e sucessos (Nazar, 2009).

Exigimos que os Políticos resolvam aquilo que não anda bem, de forma a nos eximirmos de nossa responsabilidade frente ao insuportável que habita o processo civilizatório. Interessante… Não desejamos ocupar um cargo político, mas queremos todas as possíveis benesses que circulam em torno dele! (Nazar, 2009).

Um Político é um ser humano como outro qualquer, que também porta qualidades e falhas do homem comum (Nazar, 2009).

Outro ponto importante: o Poder, implícito ao exercício da autoridade política, quando mal administrado, torna-se perigoso, podendo ofuscar a consciência política. Deve-se ficar atento para as ilusões que brotam deste lugar, construídas pelo sujeito e por alguns outros. Deve-se ter cautela para não se “embaraçar” a esta função e passar a se acreditar, aí, proprietário da mesma, sem conseguir manter nenhum distanciamento simbólico. Isto é, deve-se tomar cuidado para não se confundir com o lugar que lhe é dado a ocupar. É aprender, diariamente, a “deslizar” entre o privado e o público, sem se embaraçar. Não devendo se identificar com o poder que o lugar lhe outorga (Nazar, 2009).

A Política não está na origem da Natureza humana. A política é uma criação humana. O homem, em sua estrutura de sujeito falante, em sua razão de desejo, é avesso ao laço social que fundamenta uma sociedade política, porque esta pressupõe que cada um perca algo de si, algum pedaço fundamental de sua individualidade — processo essencial à instituição das sociedades (Nazar, 2009).

A Política dá suporte ao incurável do ser humano, que sofre de uma discórdia estrutural, que se traduz numa insatisfação fundamental consigo mesmo e com seus pares. A Política virá como uma suplência no sentido de “administrar” essa discordância originária. Logo, a presença da mesma impede que a vida seja um verdadeiro caos (Nazar, 2009).

Já nos dizia Freud: “governar é impossível!”, não existe possibilidade lógica de qualquer grupo ou País viver em eterna harmonia social. Sempre haverá “crises”. Mesmo que queiramos disciplinar o máximo as instituições — Empresas, Famílias, Escolas, Igrejas, etc. — há sempre um ponto intersticial que escapa, que foge ao controle. Há algo nas estruturas sociais que é indisciplinável e incurável! (Nazar, 2009).

Um Político erra quando se identifica com aquilo que lhe pedem, caindo numa posição de se fazer amado (Nazar, 2009). Prometendo o Impossível: atender todos os nossos desejos e necessidades.

Um “bom” Político é aquele que sabe das limitações estruturais do ato de governar. É aquele que cria condições de convivência em sociedade, pautadas pelo Estado, pelas Leis em questão (Nazar, 2009).

É preciso dizer, ainda, que a Política é um assunto complexo e, como tal, merece ser discutida de forma abrangente, já que ela atinge todas as esferas sociais, os poderes executivo, legislativo, jurídico e os setores públicos e privados.

Em resumo, um Político deve fazer o máximo para preservar os Laços Sociais, respeitando, quando necessário e possível, a singularidade em cada caso e/ou situação, fazendo da Lei e a Ética suas verdadeiras guardiãs, suporte de sua autoridade (Nazar, 2009).

Considerações Finais

Neste trabalho procuramos destacar o que é a Política e alguns de seus “princípios”. E, posteriormente, diferenciá-la daquele que ocupa o cargo político, ou seja, do Político. Assim, defendemos que a Política e o político não são a mesma coisa, embora um precise do outro para “se fazer valer”.

A Política visa um espaço privilegiado de negociação e diálogo entre o Governo e os cidadãos, a fim de facilitar e construir condições mais dignas dos mesmos de existência no mundo. Logo, podemos apreender que a Política pauta-se na Ética, no Diálogo e articula-se com a Lei. Deste modo, quando um político pratica atos corruptos, ele não está fazendo “Política”, e sim, fazendo uso do “nome” Política em benefício próprio.

Um verdadeiro Político sabe que ele é apenas um representante da lei. Cabe a ele honrar e agir em conformidade  com os “princípios” e “diretrizes da Política de seu País.

Num segundo momento, demonstramos como idealizamos os políticos, e exigimos que eles atendam os nossos desejos e demandas, mesmos os mais impossíveis. Por isso, é sempre bom lembrar que “Político não é Deus!” É um ser humano como outro qualquer, que também possui qualidades e falhas do homem comum.

Destacamos, também, que ocupar um cargo político exige renunciar uma parcela de si próprio, de seus desejos pessoais, em prol de uma Sociedade. E que governar um País não é uma tarefa fácil, já que há um ponto intersticial que escapa, que foge ao controle do Humano. Como dissemos anteriormente, há algo nas estruturas sociais que é indisciplinável e incurável.

Assinalamos que há o risco do político identificar-se com o lugar de autoridade que ele ocupa, acreditando e ditando sua própria lei, isso ocorre quando ele “esquece” que ele é um mero representante da lei dos homens. Ele não deve se identificar com o poder que alguns outros lhe confere.

Um Político deve fazer o máximo para preservar os Laços Sociais, respeitando, quando necessário e possível, a singularidade em cada caso e/ou situação, fazendo da Lei e da Ética suas verdadeiras guardiãs, pilares de sua Autoridade. Deve agir com transparência para com a população, mostrando-se humano e, também, falho.

Em Tempos ditos, “Sobrios”, a Política é uma Eterna tentativa de dar Esperança ao homem frente a sua própria condição humana.

Referências Bibliográficas

Hartung, P. (2008). Política e civilização: valor, crise e desafios na contemporaneidade. A Lei em tempos sombrios. Companhia de Freud: Rio de Janeiro.

Nazar, J. (2009). O Bom Político. A Lei em tempos sombrios. Companhia de Freud: Rio de Janeiro.

Notas de Rodapé

[2] Santos, M. (2006). Por uma outra Globalização. Rio de Janeiro: Record.

[3] Nazar, J. (2009). O Bom Político. A Lei em tempos sombrios. Companhia de Freud: Rio de Janeiro.

[4] Vescovi, R. C. (2008). A Lei em tempos sombrios. A Lei em tempos sombrios. Companhia de Freud: Rio de Janeiro. p.28.

[5] É importantíssimo esclarecer que “O” político é, ou pelo menos deveria ser, um “representante” da Política, levando consigo os seus “princípios” à sociedade, visando a construção de um lugar melhor para vivermos. Na atualidade, vemos que muitas pessoas se dizem representantes da Política mas que  cometem corrupções. Esse comportamento, desviante, não refere-se a Política e, sim, a sua ausência. A Política está articulada com a Lei.

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SOBRE ESTE ARTIGO: 

Artigo escrito em Março de 2015, por André Nascimento.


SOBRE O AUTOR/IDEALIZADOR DESTE BLOG:

escritos psiAndré Bassete do Nascimento. (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@gmail.com ou dreebn@yahoo.com.br

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