PARA QUE SERVE A SOCIOLOGIA? VOCÊ NÃO PODE DEIXAR DE LER A ENTREVISTA DE ZYGMUNT BAUMAN PARA O SITE FRONTEIRAS DO PENSAMENTO

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O QUE É SOCIOLOGIA? POR QUE FAZER SOCIOLOGIA? COMO FAZER? QUAL O SEU ALCANCE? Essas quatro perguntas são respondidas por Zygmunt Bauman, em sua mais recente obra lançada no Brasil, Para que serve a sociologia?. Nesta série de conversas com Michael Hviid Jacobsen e Keith Tester, Bauman esclarece os princípios que regem seu próprio trabalho, sua vida e sua carreira. O sociólogo polonês reconhece as ideias que o influenciaram e explica como construiu um conjunto de conceitos para interpretar o mundo contemporâneo – como a ideia central de “liquidez” -, explicando o porquê de se afastar da corrente geral da sociologia, que caracteriza nossa época como “pós-moderna”. Leia abaixo o trecho inicial do livro Para que serve a sociologia?, lançado pela Editora Zahar:

Michael Hviid Jacobsen e Keith Tester: Olhando em retrospecto sua trajetória sociológica, vê-se que seu trabalho foi inspirado inicialmente pela sociologia polonesa das décadas de 1950 e 1960, após o que seu ambiente sociológico próximo tem sido a sociologia britânica. Como você diria – em retrospecto – que essas diferentes fontes de inspiração – a sociologia polonesa e a britânica – influenciaram e moldaram seu pensamento?
Zygmunt Bauman: “Olhando em retrospecto”, como vocês me pediram, dificilmente poderia identificar um divisor de águas ou um violento choque entre “fontes de inspiração”. Ao decolar da Polônia, eu já havia iniciado minhas viagens sociológicas, e pousar na Grã-Bretanha não provocou nenhuma mudança importante em meu itinerário. Separada por uma barreira linguística, a “sociologia polonesa” parecia um universo diferente, mas, por favor, tenham em mente que essa barreira era unilateral: o inglês era então a língua “oficial” no reino da sociologia, e os sociólogos poloneses liam os mesmos livros e seguiam os mesmos caprichos da moda e meandros de interesses que seus colegas do outro lado da Cortina de Ferro. Além disso, a sociologia britânica do início da década de 1970 não estava exatamente na linha de frente das tendências mundiais, e, para um recém-chegado da Universidade de Varsóvia, não havia muito com que se familiarizar; na verdade, as descobertas realizadas naquela época nas Ilhas Britânicas, em quase todos os aspectos, eram velhas e por vezes até antiquadas na área do Vístula.

A maior parte dos temas que, na minha presença, provocavam entusiasmo em meus colegas britânicos (tais como as descobertas de Gramsci, da Escola de Frankfurt, da “culturologia”, da hermenêutica, da insignificância do “funcionalismo estrutural” e da magnitude do estruturalismo etc.) eu já havia examinado na companhia de meus colegas poloneses muito antes de aportar na Grã-Bretanha. Para resumir uma longa história, minha primeira década neste país pode ter sido cheia de som e fúria, por uma série de razões (e realmente o foi, como confessei a Keith Tester muito tempo atrás), mas isso significou muito pouco em termos de minha visão acerca da vocação sociológica.

MHJ e KT: Você sempre definiu a sociologia como um “diálogo com a experiência humana”. Isso sugere duas questões. A primeira delas é: o que você quer dizer com “experiência humana”?
ZB: Para mim isso significa tanto Erfahrungen [experiências] quanto Erlebnisse [vivências]: os dois diferentes fenômenos gerados na interface pessoa/mundo, que os alemães distinguem e separam, mas os falantes de outras línguas, por falta de termos distintos, fundem na noção de “experiência”. Erfahrung é o que acontece comigo ao interagir com o mundo; Erlebnis é “o que eu vivencio” no curso desse encontro – o produto conjunto de minha percepção do(s) acontecimento(s) e meu esforço de absorvê-lo e torná-lo inteligível. Erfahrung pode almejar, e de fato almeja, o status de objetividade (supra ou interpersonalidade), enquanto Erlebnis é evidente, aberta e explicitamente subjetiva; e assim, com alguma simplificação, podemos traduzir esses conceitos como, respectivamente, aspectos objetivos e subjetivos da experiência; ou, acrescentando uma pitada de interpretação, a experiência elaborada e a experiência não elaborada pelo ator. A primeira pode ser apresentada como um relato proveniente do mundo externo ao ator. A segunda, como algo vindo “de dentro” do ator e concernente a pensamentos, impressões e emoções privados, só é disponível na forma de um relato feito por ele.

Nos relatos da primeira categoria, ouvimos falar de eventos interpessoalmente verificáveis chamados “fatos”; os conteúdos do segundo tipo de relatos não são interpessoalmente verificáveis – as crenças relatadas pelo ator são, por assim dizer, as definitivas (e únicas) “verdades”. O status epistemológico de Erfahrungen e Erlebnisse difere, portanto, enormemente – circunstância responsável por muita confusão na prática da pesquisa sociológica e acima de tudo nas interpretações de suas descobertas. A confiabilidade e a relevância de evidências fornecidas por testemunhas mudam de acordo com o objeto do testemunho – e isso se aplica a ambos os parceiros no permanente “diálogo entre a sociologia e a experiência humana”.

MHJ e KT: A segunda questão: em que consiste esse diálogo? De que modo a sociologia nele se envolve e o que faz valer a pena esse envolvimento? Por que ele deveria ser lido por não sociólogos?
ZB: Como em todas as conversas, a sociologia se envolve no diálogo com a doxa laica – o senso comum ou o conhecimento do ator. Isso envolve transmitir mensagens que se transformam em estímulos, que evocam respostas, que, por sua vez, se transformam em estímulos – em princípio, ad infinitum. A transformação de mensagens em estímulos efetivos é mediada pela recepção, seguida pela compreensão, que envolve, como regra, uma interpretação (seletiva). Em sua variedade sociológica, o diálogo visa ao confronto entre Erfahrungen e Erlebnisse, “relativizando” assim esta última, ao mesmo tempo que busca ampliar, em vez de estreitar e limitar, o espectro de escolhas dos participantes do diálogo.

A meu ver, o objetivo crucial desse diálogo permanente é, a longo prazo, a ruptura do hábito generalizado, talvez mesmo quase universal, dos “não sociólogos” (também conhecidos como “pessoas comuns em suas vidas comuns”) de fugir da categoria explanatória “a fim de”, quando se trata de relatar sua conduta, empregando em vez disso um argumento do tipo “por causa de”. Por trás desse hábito se encontra o pressuposto tácito, ocasionalmente articulado, porém sobretudo inconsciente e dificilmente questionado, de que “as coisas são como são” e “natureza é natureza – ponto final”, assim como a convicção de que há pouco ou nada que os atores – sozinhos, em grupo ou coletivamente – possam mudar no que se refere aos veredictos da natureza.

O resultado disso é uma visão de mundo inerte, imune à argumentação. Ela acarreta uma mistura verdadeiramente mortal de duas crenças. Primeiro, a crença na inflexibilidade da ordem das coisas, da natureza humana ou da condição dos assuntos humanos. Segundo, a crença numa fraqueza humana beirando a impotência. Esse dueto de crenças estimula uma atitude que só pode ser descrita como uma “rendição antes de se travar a batalha”. Étienne de la Boétie, admiravelmente, deu a essa atitude o nome de “servidão voluntária”. Em Diário de um ano ruim, de J.M. Coetzee, o personagem C. discorda: “La Boétie está errado.” E prossegue mostrando o que estava faltando naquela observação de quatro séculos atrás, e que, não obstante, está ganhando importância em nossos dias: “As alternativas não são a servidão complacente de um lado e a revolta contra ela de outro. Há uma terceira via, escolhida por milhares e milhões de pessoas todos os dias. É o caminho do quietismo, da obscuridade voluntária, da emigração interna.” As pessoas seguem a correnteza, obedecendo às suas rotinas diárias e antecipadamente resignadas diante da impossibilidade de mudá-la, e acima de tudo convencidas da irrelevância e ineficácia de suas ações ou de sua recusa em agir.

Com o questionamento da visão de mundo que sustenta esse “quietismo”, a variedade sociológica do diálogo voltado para a expansão da liberdade individual e o potencial coletivo da humanidade dedica-se à tarefa de revelar e decifrar as características do mundo que, embora possam ser decepcionantes e ambíguas, fornecem, não obstante, algumas bases para uma espécie de visão de mundo que sustenta e galvaniza continuamente as atitudes quietistas. A “relativização” visa a ambos os lados do encontro entre Erfahrungen e Erlebnisse: é a dialética de sua interação que poderia ser chamada de objetivo último do diálogo.

MHJ e KT: Você pode dar um exemplo disso?
ZB: Permitam-me retornar por um momento ao alter ego de Coetzee; uma vez mais, ele acerta na mosca ao apontar que aquela popular e profundamente entranhada

imagem da atividade econômica como uma corrida ou competição de certo modo é vaga em suas especificidades, mas parece que, como corrida, ela não tem linha de chegada nem, portanto, um fim natural. O objetivo do corredor é chegar à frente e ali permanecer. A questão do motivo pelo qual a vida deve ser equiparada a uma corrida, ou por que as economias nacionais devem competir entre si em lugar de se exercitarem amigavelmente em conjunto, em nome da saúde, não é colocada. Uma corrida, uma competição: é assim que são as coisas. Por natureza, nós pertencemos a diferentes nações; por natureza, as nações competem com outras nações. Nós somos como a natureza nos fez.

Prossegue ele: mas de fato “nada há de inelutável no que se refere à guerra. Se queremos a guerra, podemos escolher a guerra, se queremos a paz, podemos igualmente escolher a paz. Se queremos a competição, podemos escolher a competição; alternativamente, podemos tomar o rumo da cooperação cordial”.

Só para não deixar espaço a dúvidas quanto ao significado de sua observação, o C. de Coetzee assinala que certamente Deus não fez o mercado – nem Deus nem o espírito da História. Se nós, seres humanos, o fizemos, não poderíamos desfazê-lo e refazê-lo de um modo mais benigno? Por que o mundo tem de ser um anfiteatro de gladiadores do tipo matar ou morrer em vez de, digamos, uma colmeia ou um formigueiro vigorosamente sinergético?

Ora, isso é, sugiro eu, um motivo determinante pelo qual, como pergunta você, “os não sociólogos deveriam ler sociologia”.

MHJ e KT: Isso confere prontamente à sociologia um contorno político. Qual a relação da sociologia com a política?
ZB: Inevitavelmente, por ação ou omissão, a sociologia está muito interligada à política. Numa sociedade como a nossa, dominada pelo conflito, com seus conflitos de interesse e suas políticas antagônicas, ela também tende com muita frequência a se tornar tendenciosa. Seu tema, afinal, é a interação de Erfahrungen e Erlebnisse; as Erlebnisse são endemicamente tendenciosas, e assim é a tarefa de decompor a ilusória “objetividade” das Erfahrungen.

O que torna a sociologia uma atividade intrinsecamente política é, além disso, o próprio fato de oferecer uma fonte e uma legitimação de autoridade distintas, ao contrário da política institucionalizada. Em nossa sociedade multivocal e multicentrada, essa não é, contudo, a única fonte de autoridade envolvida na competição com o establishment político – para não dizer sua única alternativa. Com a política controlada pelo Estado, dele originada e por ele autorizada cronicamente afligida pela praga da ineficácia causada por um perpétuo déficit de poder – após um longo período em que ela foi o foco de uma condensação e de uma monopolização genuínas ou almejadas –, a tendência hoje é um espectro de aspirações existenciais em permanente ampliação a se espalhar por todo o corpo social (relembremos o conceito de “política da vida”, de Anthony Giddens, quando ela assume, ou é onerada com, um número sempre crescente de funções que costumavam ser abraçadas e ciumentamente protegidas pela política institucionalizada, centrada no Estado e/ou por ele orientada).

MHJ e KT: Seria a sociologia uma prática ética, e, em caso positivo, de que modo?
ZB: Tal como no caso do “político”, a sociologia não pode deixar de ser ética (“prática ética” é, em meu vocabulário, um pleonasmo; ética é prática – de articular, pregar, promover e/ou impor regras de conduta moral). A moral é uma questão de responsabilidade em relação ao Outro; e o mais poderoso argumento em favor de assumir essa responsabilidade é a dependência mútua dos seres humanos, a condição que a sociologia investiga, exibe e busca infatigavelmente fazer compreender. Uma lição que um leitor de tratados sociológicos não pode deixar de extrair é a relevância das ações e inações dos outros para sua própria condição e suas expectativas, assim como a relevância de suas próprias ações e inações para as condições e expectativas dos outros; afinal, a responsabilidade que recai sobre todos nós, conscientemente ou não, em relação às condições e expectativas de cada um.

No entanto, devemos deixar claro que essas responsabilidades, quer sejam ou não evidentes e inquestionáveis, podem ser (e na verdade são) tão frequentemente assumidas quanto ignoradas. O máximo que eu arriscaria dizer é que, enquanto executam seu trabalho profissional de maneira adequada, os sociólogos estão inevitavelmente, de forma consciente ou não, preparando o terreno em que a consciência moral pode crescer, e com ela as chances de as atitudes morais serem assumidas e de a responsabilidade pelos outros ser cada vez mais aceita. Isso, porém, é o máximo que podemos avançar. O caminho que leva a um mundo moral é longo, sinuoso e cheio de armadilhas – as quais, diga-se de passagem, é tarefa do sociólogo investigar e mapear.

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SOBRE ESTA MATÉRIA/ENTREVISTA:

As informações acima foram retiradas do site Fronteiras do Pensamento. Recuperado em 09 de Abril de 2015. Disponível em: http://www.fronteiras.com/entrevistas/zygmunt-bauman-para-que-serve-a-sociologia


SOBRE O AUTOR/EDITOR/IDEALIZADOR DESTE BLOG:

escritos psiAndré Bassete do Nascimento. (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@gmail.com ou dreebn@yahoo.com.br

 
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