A CRIANÇA EM ANÁLISE

Escrito por André Nascimento.

analise

Resumo: Dando continuidade aos estudos sobre “Psicanálise com Crianças“, o autor expõem, ao longo de seus escritos, alguns dados relevantes sobre o trabalho analítico com crianças.

Palavras-chave: Criança. Pais. Psicanálise. Condução do Tratamento.

Introdução

O atendimento clínico de crianças, pode vir a despertar no analista algumas questões que considero importantes, que pretendo abordar a seguir.

A criança se comunica de forma diferenciada de um adulto, pois dependendo de sua faixa etária, nos coloca diante de outras formas de linguagem, para além do discurso. Esse, ao meu ver, é um dado importante que perpassa a clínica com este “tipo” de público.

No Setting Analítico, por exemplo, algumas crianças verbalizam pouco, quando muito, dizem uma ou duas frases durante as atividades, jogos e/ou brincadeiras, apagam e acendem as luzes da sala de atendimento, etc., como se solicitassem, ao analista, uma tradução, uma atribuição de sentido a suas ações: o que enuncie, talvez, que a criança está em um processo de construção, de si própria e de seu (próprio) discurso. Importante dizer, que o analista também se vê convocado a construir o seu próprio ‘estilo’, a sua própria posição como analista.

Algumas pessoas tendem a perguntar ao analista: “você atende crianças?”, o que — “para um bom entendedor” — faz ressoar a questão: “quem é “a criança” que precisa ser atendida?”.

Me foi possível, também, destacar algumas falas daqueles que se propõem a atender crianças: “(…) Às vezes, tenho a sensação de  não estar fazendo nenhum trabalho, digamos, ‘terapeutico’. Que só estou brincando ou, em alguns momentos, fingindo estar brincando”. Há aqueles que falam que atender criança produz um certo “cansaço”, já outros, sentem-se “incomodados com a ‘ausência’ ou ‘precariedade’ de sentido nas frases que as crianças empregam”.

O manejo e a duração das sessões também é algo que gera muitas dúvidas e questionamentos: “como fica o tal ‘tempo lógico’ que tanto nos falava Lacan?”. E, principalmente, “como finalizar a sessão quando o analisando é uma criança?”.

Alguns impasses com os pais, ou com um deles, também podem vir a dificultar a condução do tratamento.

Estas e outras questões, faz com que retomemos a teoria e que levemos alguns pontos do atendimento para a nossa própria análise pessoal, na esperança de ‘melhor’ conduzir um tratamento.

A partir da retomada de meus estudos, me foi possível destacar pontos importantes e, porque não dizer, essenciais para a prática analítica com crianças.

 

Sobre a Nomeação

No artigo “A criança, a palmeira e as letras fenícias”, de Jesper Svenbro[1], me foi possível extrair, segundo Proclo (citado por Svenbro, 1999, p.10) que “os nomes atribuídos às crianças por seus pais têm o objetivo de comemorar alguma coisa ou alguém, ou ainda de exprimir uma esperança ou coisa assim”(Svenbro, 1999).  O me faz pensar na importância da nomeação, e como somos afetados por um discurso que nos antecede.

O significante ‘comemorar’ me remeteu a um momento de felicidade, comemoração, pois acaba de chegar ao mundo alguém que dará continuidade a uma história, de toda uma família, que ainda não foi, até então, contada. O nome dado a uma criança irão transmitir “lembranças”, conferindo-lhe — por meio daquela descendência — uma posterioridade (Svenbro, 1999).

Os pais tendem a construir a imagem de um filho ou filha “Ideal”, aquele que vai realizar tudo aquilo que os pais não puderam realizar. Desta forma, os pais projetam desde a tenra infância os seus desejos, expectativas e sonhos em seus filhos. Este Ideal, quando em excesso, pode levar tanto a criança quanto os pais a algum grau de sofrimento psíquico.

Muitos pais esquecem que criar filhos supõem uma renúncia: não submeter os filhos aos seus desejos e, sim, ao contrário, respeitar o desejo dos filhos, condição para que eles tenham acesso à subjetividade própria (Checchinato, 2007).

Alguns pais encaram o distúrbio de seu filho como se o mesmo fosse dirigido contra eles: “ele me fez uma crise”, dizem (Porge, 1998).

O discurso fechado e/ou rígido de alguns pais também interferem na condução da cura, pois exige um trabalho ainda maior por parte do analista.

Transferência

Em “A transferência para os Bastidores”, Erik Porge[2] afirma que “os analistas abandonam a prática com crianças” (p.07). Penso que tal fato se deve, como já mencionamos, ao “tipo” de linguagem que a criança trás para a cena analítica. Digamos que o analista terá que, em alguns momentos, se permitir “ser criança”, no sentido de se autorizar a brincar e realizar as atividades e jogos junto da criança. Tarefa nem sempre fácil para alguns. Soma-se a isso, os encontros constantes com os pais ou responsáveis da criança, pois não é possível tomar uma criança em análise sem um diálogo constante com seus pais, ou, pelo menos, um deles.

A prática com crianças também nos impõe a questão: será realmente análise? Vale lembrar: a psicanálise nos mostrou que a análise com adultos pôde beneficiar-se com elementos advindos da análise com crianças (Freud, citado por Porge, 1998).

A transferência desempenha, na criança, um papel diferente daquele que representa para o adulto. Mas, para quem, para o quê a criança dirige uma neurose de transferência? Para qualquer objeto parental próximo: o pai, a mãe, um irmão, uma irmã… A neurose de transferência eclode diante de quem não mais sustenta a transferência da criança. No desnorteamento dos pais, torna-se perceptível que eles não assumem mais um lugar de sujeito suposto saber (Porge, 1998).

Para quem fala a criança? A criança não fala para si, ela não se dirige a outro; não se dirigem a tal ou tal pessoa, elas falam, se vocês me permitem o termo, para lá, para bom entendedor… (Porge, 1998, p. 13).

O ponto de ruptura da transferência, em um dos pais, é esse ponto em que não se é mais bom entendedor, onde não se ouve mais a divisão do sujeito na sua mensagem, ali onde justamente seria importante que ele o ouvisse (Porge, 1998).

O analista chega, de fato, a encontrar um lugar na neurose de transferência da criança. Mas não será, como no adulto, uma neurose de transferência que substituirá a neurose comum, uma vez que essa neurose comum, para a criança, já é transferência (Porge, 1998).

O psicanalista vai permitir que a neurose de transferência da criança se desenvolva e que seja tolerada pelos que a rodeiam (Porge, 1998).

Em, “Histórico dos conceitos e das técnicas que contribuem para a psicanálise com crianças”, Jacqueline Poulain-Colombier esclarece que,  com a criança, a posição do analista na transferência é a de um pai ou mãe Ideal que se enuncia, por exemplo, assim: “O doutro disse que…” Esse plano da transferência é construído pela relação do analista com a família da criança. Um fato curioso: embora a criança venha por iniciativa dos pais, a ligação transferencial da criança com o analista provoca “ciúmes” das mães, que o analista nem sempre é capaz de contornar (Poulain-Colombier, 1998).

Algumas vezes, é necessário que o analista intervenha para separar a mãe da criança, levando a criança a renunciar a ajuda desta, e a pedir ela mesma à mãe que não a ajude mais, por exemplo, em alguma tarefa (Poulain-Colombier, 1998). Das intervenções mais simples consiste em fechar a porta do consultório.

Muitas vezes somos confrontados com a vontade de saber sobre as histórias das crianças, e por meio delas a causa possíveis de seus sofrimentos. Neste trabalho de construção, muitas vezes, devemos convocar os pais, ou aqueles que tenham a guarda da criança, tentando fazer surgir os afetos e os significantes que haviam presidido à espera daquela criança, à escolha de seu nome, a seu lugar nas duas linhagens (Poulain-Colombier, 1998).

É  essencial destacar que a criança traz consigo uma longa história com seus elementos de transmissão de inconsciente a inconsciente, durante diversas gerações. Uma história pode brilhar por sua ausência, o corpo da criança é a encenação desta história (Poulain-Colombier, 1998).

Uma criança nunca vem só. Ela desloca pessoas consigo, daí a necessidade, num primeiro momento, de por este coletivo para escutar. Como diz a canção: “eram seis na cama, e o pequeno disse cheguem pra lá, cheguem pra lá, eles todos chegaram e um caiu da cama. Eram cinco na cama, etc., até chegar a um, e o pequeno dizer: ufa, enfim, só (Poulain-Colombier, 1998).

Poulain-Colombier (1998) expressou muito bem o que ocorre na clínica com crianças: “uma criança nos põe para trabalhar na medida em que ela introduz o novo” (p.36). Ela desloca, pontua, perturba não só a conjuntura familiar, mas também o próprio analista: o lugar de cada um é remodelado. Vemos, ainda, que o que teria de permanecer secreto e escondido, cedo ou tarde, vem à luz, sintomaticamente, no corpo da criança. A mesma autora sublinha que a criança é o revelador de uma organização patológica familiar (Poulain-Colombier, 1998).

Uma criança desloca nossa utilização habitual do espaço, dos objetos, das posturas corporais; são esses distanciamentos de linguagem que uma criança introduz. Ela nos lembra que também nos comunicamos por todos os meios. Convida-nos a responder a sua maneira de se comunicar. Além disso, nos desloca do ‘silêncio analítico’ esperado, ou cômodo para o analista, em direção à tomada da palavra (Poulain-Colombier, 1998).

José Attal em, “Transferência e final de análise com a criança”[3], afirma que “Não há análise sem transferência” (p.51). Em seguida, destaca que as condições de engajamento de uma possível cura analítica com uma criança são diferentes daquelas habituais no adulto, essencialmente por causa do fato de ser outra pessoa, e não a própria criança, que se dirige inicialmente ao analista (Attal, 1998).

Attal (1998) salienta que “quando os analistas falam de criança histérica, obsessiva, psicótica ou perversa asseguram seu dizer unicamente a partir dos sintomas, pois não há estrutura na criança” (p. 55). Uma criança não é “gente grande”, as coisas não estão, nem completamente construídas, nem completamente elaboradas, elas estão em curso (Attal, 1998).

Sintoma da criança

O sintoma da criança é o representante, para os pais, de um suposto saber, que a criança esconde, não diz, e que o analista deveria descobrir (Porge, 1998).

O que a criança demanda é deixem-na construir sua neurose (Porge, 1998).

A criança nunca vai mais além daquilo que seus pais a autorizam (Attal, 1998).

Aquilo que ela é no lugar particular que se lhe atribui num mito familiar; lugar perfeitamente modificável na fantasia parental, a partir do momento em que os pais não são postos de lados e que alguma coisa se analisa também com eles, permitindo a criança dar um passo a mais… Esta ‘inclusão’ dos pais institui o analista um lugar de sujeito suposto saber para a criança, justamente por que assim o é para os pais da criança (Attal, 1998).

Final de análise

Como então terminar uma análise com uma criança, da qual se sabe que, por uma necessidade estrutural, permanecerá inacabada? O fim dos distúrbios não é, necessariamente, o fim da análise (Porge, 1998).

O final da cura com uma criança pode assumir diversas formas. A mais corrente é quando todos estimam que agora tudo vai mais ou menos bem. Acontece também que, quando as coisas se modificam na criança, isso acarreta uma tal vacilação em um dos pais, devido ao fato que o lugar que este fazia a criança ocupar vê de certa forma vago (Attal, 1998).

A partir do momento em que há, precisamente, estrutura observável num jovem sujeito, não estamos mais no “terreno” da psicanálise com uma criança (Attal, 1998).

Considerações finais

A criança se comunica de forma diferenciada de um adulto, pois dependendo de sua faixa etária, nos coloca diante de outras formas de linguagem, para além do discurso, o que implica um retorno a teoria para uma “melhor” sustentação da clínica.

Destacamos a importância da nomeação, e como somos afetados por um discurso que nos antecede, e que não é possível tomar uma criança em análise sem um diálogo constante com seus pais, ou, pelo menos, um deles. Afinal, a sintomática que a criança apresenta está articulada com o par parental. Cabe ao analista permitir que a neurose de transferência da criança se desenvolva, e que seja tolerada pelos que a rodeiam.

Vimos que a criança desloca, pontua, perturba não só a conjuntura familiar, mas também o próprio analista: o lugar de cada um é remodelado. E constatamos que o que permanecia secreto e escondido na história familiar — ou mesmo de um do pais — cedo ou tarde, vem à luz, sintomaticamente, no corpo da criança.

Referências Bibliográficas

Attal, J. (1998). Transferência e final de análise com a criança. Littoral: a criança e o psicanalista. Companhia de Freud: Rio de Janeiro. pp. 51-8.

Checchinato, D. (2007). Psicanálise de Pais: criança, sintoma dos pais. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Porge, E. (1998). A transferência para os bastidores. Littoral: a criança e o psicanalista. Rio de Janeiro: Companhia de Freud. pp.07-19.

Poulain-Colombier, J. (1998). Histórico dos conceitos e das técnicas que contribuem para a psicanálise com crianças. Littoral: a criança e o psicanalista. Rio de Janeiro: Companhia de Freud. pp.21-9.

Svenbro, J. (1999). A criança, a palmeira e as letras fenícias. Luto de Criança. Littoral. Rio de Janeiro: Companhia de Freud. pp.07-19.

Notas

[1]  Svenbro, J. (1999). Luto de Criança. A criança, a palmeira e as letras fenícias. Companhia de Freud: Rio de Janeiro.

[2] Porge, E. (1998). A transferência para os Bastidores. Littoral. Companhia de Freud: Rio de Janeiro.

[3]Attal, J. (1998). Transferência e final de análise com a criança. Littoral. Companhia de Freud: Rio de Janeiro.

 ***

Curta, siga e compartilhe os Escritos Psicanalíticos também no Facebook .FBlogo300


SOBRE ESTE ARTIGO:

Artigo escrito em Fevereiro de 2015. Revisado em Abril de 2015.


escritos psiAndré Bassete do Nascimento (André Nascimento). Autor, editor e idealizador do Blog Eu Tava Aqui Pensando e Escritos Psicanalíticos. Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@gmail.com ou dreebn@yahoo.com.br

.br

Anúncios