Da Série “A Vida e a Psicanálise”

Escrito por André Nascimento

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Há momentos em que precisamos repensar alguns pontos de nossa Vida. Isso é preciso, é necessário, e faz parte do processo de amadurecimento.

Nessas idas e vindas, chega ser comum escutarmos falas que sugerem que “precisamos recomeçar”, e para que isso aconteça, a sugestão mais frequente, via senso comum, é “perdoar” ou “apagar as mágoas”.

Como se as coisas pudessem ser “apagadas”. Como se as situações, as ações, as palavras e até mesmo o tom de voz pudesse ser apagado ou banido do mapa!

Creio que não há essa possibilidade. Não podemos sair por aí selecionando o que queremos ou não “deletar” em nosso íntimo. Com sorte, o máximo que podemos, é “esquecer”. Claro, momentaneamente, pois é possível que algo insista em retornar.

O que podemos fazer é rever algumas coisas, fazer outro uso dos restos que ouvimos, que sentimos ou que fomos para alguém, isto é, transformá-los em outra coisa. E para que isso seja possível, não há fórmulas, nem regras, pois cada um tem o seu próprio tempo, o seu próprio modo de lidar com aquilo que o acomete.

Marcas são marcas. E cicatrizes não são apagadas, elas apenas deixam de doer, ou de sangrar nos dias frios e nublados.

Recentemente, ouvi uma fala que dizia mais ou menos assim: “Não tem Paz. Eu sempre lutei para que a paz reinasse em minha família. Mas, nunca reinou”. Que frase linda! Que frase ótima, e que talvez denuncie que a Paz, entre nós humanos, só é possível momentaneamente.

Onde há humanos não há possibilidade alguma de reinar a tão sonhada e prometida “Paz Eterna”. Não enquanto estivermos vivos!

Relacionar-se com o outro, com os nossos semelhantes é um eterno desafio. Somos atravessados por histórias (anteriores) que “moldam” o nosso modo de ser, pensar e agir, tanto com nós mesmos, quanto com os outros e com o mundo. Logo, cada um construirá, com as armas que lhe foram dadas, com aquilo que possuem, com suas próprias letras, um modo de interpretar e de lidar com as situações e com a vida. Talvez, aí seja o ponto de Conflito.

Há uma hiância (estrutural) que nos impossibilita de nos “encaixarmos” plenamente uns aos outros. Os discursos raramente se encaixam. A escuta é sempre no um a um, ou seja, no singular. Sempre interpretamos (e interpretaremos) as coisas a partir dos nossos referenciais, que estão intimamente ligados a nossa história social, cultural, religiosa e, principalmente, familiar:

Citando Freud, o psicanalista José Nazar, nos lembra: “governar é impossível!”, não existe possibilidade lógica de qualquer grupo ou País viver em eterna harmonia social. Sempre haverá “crises”. Mesmo que queiramos disciplinar o máximo as instituições — Empresas, Famílias, Escolas, Igrejas, etc. — há sempre um ponto intersticial que escapa, que foge ao controle. Há algo nas estruturas sociais que é indisciplinável e incurável! (Nazar, 2009)***.

Então, o que podemos fazer?

Só nos resta mudar aquilo que nos é possível, aceitar aquilo que escapa das nossas mãos e apostar, por mais difícil e desgastante que seja, no diálogo, pois este é a nossa única e melhor ferramenta para tocar as pessoas, construir autênticos laços sociais.

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Notas: *** Nazar, J. (2009). O Bom Político. A Lei em tempos sombrios. Companhia de Freud: Rio de Janeiro.

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SOBRE ESTE ARTIGO:

A Série “A Vida e a Psicanálise”, trás textos em um formato mais informal, articulando psicanálise com o dia a dia. Escrito em 17 de Maio de 2015, por André Nascimento.


SOBRE O AUTOR/IDEALIZADOR DESTE BLOG:

escritos psiAndré Bassete do Nascimento. (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@gmail.com ou dreebn@yahoo.com.br

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