Discursos do Séc. XX-XXI e seus possíveis Efeitos

Escrito por André Nascimento

“De que é feito um ser humano?” foi essa pergunta inicial que disparou uma série de associações.

De fato, o corpo humano é composto por átomos, células, genes, nervos, músculos e pelos, etc. Entretanto, estes fatores isolados não bastam para que possamos entrar na categoria dos “Seres Humanos”. É necessário que algo mais aconteça.

O que precisa ocorrer?

É necessário que esse pequenino corpo, que acabou de chegar ao mundo, no ceio de uma família, seja banhado pela Linguagem, pois é por meio e a partir da Linguagem – em seu sentido mais amplo[1] – que nos tornamos Humanos.

E isso só é possível se houver um outro Ser Falante para nos acolher, nos transmitir a linguagem e nos ensinar a viver em Sociedade.

O “bicho-homem” nasce em total estado de prematuridade e dependência; se ele não for acolhido, alimentado e ensinado a viver no mundo, ele é incapaz de sobreviver.

Diferente, por exemplo, dos animais, que já trazem em sua carga genética, em seu instinto, as coordenadas de como sobreviver.

O homem não tem essa sorte, pois é um ser que rompeu com a Natureza. Com o passar dos milênios, assumiu uma outra postura, ereta, que o levou a uma série de ganhos, mas também de perdas, como por exemplo, a sua apurada capacidade olfativa.

O homem é um ser que ultrapassou a esfera da necessidade, alcançou a capacidade de pensar sobre o ambiente que o cerca e sobre si mesmo.

O Ser humano é marcado por uma falta,  sua origem é pura falta-a-ser. Isto quer dizer que no campo humano, falta um significante que diga o que ele é; se ele é homem ou mulher; isso deverá ser construído.Tal construção se dá, e só é possível, por meio e a partir da Linguagem.

É com e a partir destes discursos antecedentes, e também dos que ainda virão, que o acolheram e o atravessaram, desde a tenra infância, que o homem constituirá a sua sexualidade e sua forma de se posicionar no mundo.

O ser humano é fundador e efeito da Linguagem.

Por isso é necessário refletirmos e analisarmos, não só os discursos que regem as nossas famílias, ou os que nos constituem mas, também, os discursos prevalentes em nossa época, para que possamos assumir as rédias de nossa vida.

Vivemos em um tempo em que somos bombardeados por dizeres que afirmam que nossa felicidade encontra-se nos objetos de consumo, vendidos pelo mercado.

A publicidade faz ótimo uso do discurso do mercado neoliberal, que proclama em alto e bom tom que devemos CONSUMIR tudo e todos, SEM LIMITES!

Quem nunca deparou-se, por exemplo, com uma marca de refringente famosa que diz: “Abra a felicidade”?

Como se a felicidade pudesse ser engarrafada, vendida e comprada…

Ou,

Quem nunca assistiu uma certa companhia telefônica anunciando: “Você sem fronteiras”.

É necessário ter fronteiras, é necessários ter algo que nos delimite e nos contenha. Em sua ausência, caímos de “pára quedas” na loucura, na violência. Sem fronteiras, toda a existência humana corre perigo.

Enganam-se aqueles que acreditam que a Publicidade é a única via de transmissão desses discursos. Eles estão em toda parte, inclusive nas músicas mais tocadas nas principais Rádios das grandes e pequenas Cidades, no Brasil e no Mundo.

Recortei alguns trechos de algumas músicas:

“de copo sempre cheio coração vazio (…) antes embriagado do que iludido, acreditar no amor não faz mais sentido” (Até Você Voltar – Henrique e Juliano).

“Eu tava na balada bebendo água mineral, mas meus amigos não acharam normal, eles já botaram vodka pra eu tomar e a partir daí eu quis zoar. Tá todo mundo dançando o Moon Álcool. É o Moon Álcool, sucesso mundial” (Thiago Matheus – Moon Álcool).

“Quer tomar bomba? Pode aplicar. Mas eu nao garanto se vai inchar. Efeito estufa, ação, reação. Estria no corpo ai vai vacilão. Deca, winstrol, durateston, testex. A fórmula mágica pra você ficar mais sexy. Treze conto, quinze, sei lá paguei merreca. A deca incha, o dura estufa, a winstrol seca. (…) Caralho, os mano já tão tudo gigante, Genética? tá bom. Anabolizante. Ninguém ta puro não. 45 de braço, 95 de peso. Parece que eu sou de aço. Vagabunda me critica. Fala que faz mal, Mas quando passa um bombado, é a primeira a dar moral. Dizem que ela vai pro fígado, fode o coração, deixa brocha, extressado, mas também tem o lado bom. Mulher, dinheiro, oportunidade. Um ciclo de winstrol e você é celebridade. Barriga estilo tanque, pura definição. 2 horas de tensão não vacila vai pro chão. 3, 4, quanto mais repetição vai perder muito mais rápido, então vem sente a pressão. Zera a máquina cuzão vai, faz paralela. Quer beber? Quer morrer? Vai, não amarela. Sequela? haha é lógico que tem! Tem gente que prefere tomar whey protein. BCAA, albumina, sozinho não adianta. Da bola, da bola, você num é forte? Então levanta! Leventa, levanta, 3 séries de 8, num rouba ladrão, vai você tá muito afoito vai, 8, 7, 6, falta só 5 eu vo dá bola, então vamo embora falta 3. Ciclo pirâmede, a vaidade é foda. Fazer o que né não? Se tomar bomba tá na moda (…) Os mano lá da rua tão tirando mó onda. (…) Hoje eu comi 5 bananas com aveia, eu vo soca a carcaça, vai salta até as veias. Bebe água, descansa, vamo pro voador. Vai porra, fecha tudo, caralho ainda não acabo. Tá que nem moça. Vai grita que se foda! Que malha? Que cresce? Então zera a porra toda! Se concentra, estufa o peito, olha pra frente, faz devagar, solta o ar, as putas tão olhando pra gente. Se concentra em você. Agora não é hora. Engraçado né, mas agora elas olham. (…) Porra, eu to sem força. Xurriado sem produto. Pareço até uma moça. Sai daqui eu vo direto, vo pra uma farmácia. Aplico uma de leve pra ganhar mais uma massa. Estilo rotvailler vo lança mais uma raça. Depois vo tira onda na praia, ou la na praça. (…) Eu já falei demais, então vamo embora, continua na academia se fabrica o que você quer ver na rua. Ombro, peito, braço, tríceps, costas, Bunda empinada gostosa, panturilha, coxa grossa. Vam’bora não para. Vamo queima! Faltam duas pra acabar, falta um mês pra esculachar. Num falei que ia cresce! Olha o ombro saindo, camiseta rasgando, vagabunda sorrindo. Então levanta essa porra! Já tamo quase acabando. Você não tá puro, daqui um mês já tá bombando. Que eu tomei eu fico quieto. Não falo pra ninguém, Questão de ética. Não falo onde apliquei. Então me diga GH, me diga espelho meu. Se tem alguém no mundo mais rasgado do que eu? (…)” (Quer tomar bomba? – MAG).

Letras que retratam um consumismo exacerbado – não só de objetos, mas do próprio homem para com ele mesmo, o uso crescente de álcool e outras drogas entre os jovens, uma “perda de sentido”  para com a vida e com o amor? Ou será que o sentido agora é recorrer a essas substâncias frequentemente numa tentativa de suspender a existência e qualquer sinal de sofrimento?

Letras que  também fazerem um grande apelo ao Outro pela via do Olhar e um culto ao corpo, que tem que ser “perfeito” – geralmente musculoso para os homens, e magro para as mulheres…

Obviamente, uma série de outras associações, interpretações e articulações com nossa sociedade atual são possíveis, resta-nos aguardar para ver que tipo de efeitos estes e outros discursos terão sobre esta e sobre as próximas gerações.

Só me resta deixar em aberto: que outros discursos circulam diariamente em nossa sociedade? Que influências esses discursos tem sobre nós? Que tipo de jovens estamos formando? Como será e o que fazer daqui em diante para não ficarmos tão fixados e alienados nesses discursos, que de alguma forma regem os laços sociais e nos constituem?

*Notas

[1] A Linguagem é o sistema através do qual o homem comunica suas ideias e sentimentos, seja por meio da fala, da escrita ou de outros signos convencionais, verbais ou não-verbais.

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SOBRE ESTE ARTIGO:

Escrito em 30 de Maio de 2015, por André Nascimento.


SOBRE O AUTOR/EDITOR/IDEALIZADOR DESTE BLOG:

escritos psiAndré Bassete do Nascimento. (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@gmail.com ou dreebn@yahoo.com.br

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