Algo não vai bem na minha vida, não caminha…

Escrito por André Nascimento[1]

“Repetir, repetir até ficar diferente. Repetir é um dom de estilo
Manoel de Barros

nicolasbruno -paralisia do sonoFotografia: Nicolas Bruno

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A Repetição é um dos quatro Conceitos Fundamentais propostos pelo psicanalista Jacques Lacan em seu Livro 5, intitulado “As Formações do Inconsciente”.

Este conceito pôde ser re-formulado por Lacan graças ao psicanalista Sigmund Freud, que mostrou, sem cair em obscurantismos, que “o homem existe onde não pensa”, uma vez que o inconsciente (esta outra cena que está para além da consciência e da razão), manifesta-se ali onde o pensamento falha: nos esquecimentos, nos chistes, nos lapsos, nos atos falhos e na linguagem enigmática dos Sonhos. Nascia, assim o Sujeito do Inconsciente! Um Sujeito desalojado de suas certezas, dividido entre a Verdade sobre sua existência e o Saber que ele produz (Andrade, 2011-20012).

Estas manifestações do inconsciente poderão ser endereçadas e escutadas por um psicanalista em sua prática clínica(?). Espera-se que sim! Entretanto, não há saber prévio que nos dê essa garantia.

O psicanalista é aquele encarregado de escutar, levar em conta o mal-entendido, o que ficou por dizer, presente no diálogo mais trivial. Seu interesse está no “descompasso” presente entre o que se diz e o que se intencionava dizer. É nesse desacordo, em que o pensamento desfalece e nossas convicções perdem o encanto, que o sujeito do inconsciente tem sua morada (Vescovi, 2008).  Vale dizer: é  com e a partir dos significantes destacados da fala/história do analisando, que o analista poderá fazer intervenções.

Os constantes estudos, os escritos e as experiências com cada um de seus pacientes, permitiram que Freud percebesse que havia algo que se repetia na vida de seus pacientes. O que lhe permitiu formular, tempos depois, o conceito de Repetição, tão importante para a Clínica Psicanalítica.

Por trás de uma queixa ou sofrimento, pode haver um ponto que insiste em se repetir, um ponto enigmático que anseia por uma leitura! Mas, como saber se aquilo do qual nos queixamos não é a nossa maior satisfação?

Algo não vai bem na minha vida, não caminha: me diz um paciente durante o seu atendimento, denunciando algum ponto de emperramento, encontrando-se “enrolado” em sua própria sintomática. O que lhe impede de caminhar, de ir atrás de seu próprio Desejo… ou Sustentá-lo(!?)

Graças a Freud, a repetição sintomática pôde ser percebida e (re)elaborada. Em seu texto intitulado “Recordar, repetir e elaborar”, ele menciona que “o paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas expressa-o pela atuação ou atua-o (acts it out). Ora, o paciente reproduz esses pontos não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber o que está repetindo! (Freud, 1914, p.196)”.

Não há como falar do conceito de repetição, sem abordar o conceito de Resistência. Freud percebeu que, em alguns momentos, os pacientes se calavam, interrompiam abruptamente as suas próprias associações. Esta é mais uma constatação clínica: trata-se de momentos em que as associações levam o paciente a “pontos primitivos” de sua constituição subjetiva. Freud menciona que em alguns momentos, esses “silêncios repentinos” aconteciam pois o paciente tinha se aproximado de algum “núcleo patógeno” ou que estava preocupado com um suposto julgamento moral por parte do analista.

Mas, afinal, o que repetimos?

“Repetimos tudo o que já avançamos a partir das fontes do reprimido de nossa personalidade manifesta — as inibições, as atitudes inúteis e os traços patológicos de caráter. Repetimos também, [não só no decorrer do tratamento, mas na vida] todos os nossos sintomas. Além disso, novos e mais profundos impulsos instintuais, que até não se haviam feito sentir, podem vir a ser repetidos” (Freud, 1914, p.198-9).

É importante dizer que uma pessoa nunca sofre exatamente do mesmo problema que sofre outra, embora à primeira vista possa parecer que duas pessoas sofram da mesma dificuldade. E que devemos tratar as manifestações sintomáticas de cada paciente não como algo do passado, mas como uma força atual. Assim como…

“…Deve-se dar ao paciente tempo para conhecer melhor esta resistência com a qual acabou de se familiarizar, para elaborá-la, para superá-la, com o auxílio a regra fundamental da análise. Só quando a resistência está em seu auge é que pode o analista, trabalhando em comum com o paciente, descobrir os impulsos instintuais reprimidos que estão alimentando a resistência; e é este tipo de experiência que convence o paciente da existência e do poder de tais impulsos. Essa elaboração da resistência pode, na prática, revelar-se uma tarefa árdua para o sujeito da análise e uma prova de paciência para o analista. Todavia, trata-se da parte do trabalho que efetua as maiores mudanças no paciente e que distingue [a experiência analítica] de qualquer tipo de tratamento” (Freud, 1914, pp.202-3).

Engana-se quem pensa que um sujeito vai para a análise para “se conhecer”. Entretanto, um percurso analítico pode ajudar um sujeito a inventar soluções a partir das verdades que se provam valiosas em sua trajetória.

Espera-se que uma análise, levada a suas últimas consequências, possibilite ao Sujeito se defrontar com o seu Desejo, e com o impossível de tudo saber e conseguir viver apesar disso!

O que é uma análise, senão, tornar visível o seu próprio mundo?

Referências Bibliográficas

Andrade, A. P. V. (2011-20012). Curso de Introdução à Psicanálise: O Inconsciente de Freud a Lacan. Boletim Anual. Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória. p.61.

Freud, S. (1980). Recordar, repetir e elaborar. Novas recomendações sobre a técnica da Psicanálise II. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. 12, pp. 191-203. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1914).

Vescovi, R. C. (2008). A Lei em Tempos Sombrios. A Lei em Tempos Sombrios.  Companhia de Freud: Rio de Janeiro, p. 18.

 

 

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SOBRE ESTE ARTIGO:

Escrito em 03 de Dezembro de 2015, por André Nascimento.


SOBRE O AUTOR/EDITOR/IDEALIZADOR DESTE BLOG:

escritos psiAndré Bassete do Nascimento. (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@gmail.com ou dreebn@yahoo.com.br

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