Dos contos, em cantos

Escrito por André Nascimento

gato

O livro Dos contos, em cantos trás observações importantes a respeito dos contos e das cantigas infantis:

“Os artigos que compõem este volume refletem um legítimo interesse em indagar acerca do medo, do estranho, da surpresa, do suspense:  ingredientes dos contos infantis. Ao invés de autorizar a caça ao mal-estar, põem em relevo os elementos capazes de suscitá-lo para, então, verificar sua importância. Não duvidamos que o empenho dos autores tenha sido obra de alguma fada, pois que, segundo sua etimologia, é da fatus, discurso, que ela vem”1.

A leitura desse livro é importantíssima para todos aqueles que se interessam pelo universo infantil.

Assim como a leitura dos artigos Psicanálise com crianças e A criança em análise.

As cantigas infantis são fundamentais para a estruturação psíquica. Entretanto, não é de hoje que vivemos um tempo do “politicamente correto”:

“Um tempo de trevas para as bruxas e seus derivados”.

Esses seres fantásticos do imaginário infantil, dos contos infantis, encontram-se sob o perigo de uma segunda inquisição. Numa tentativa de excluir o “mau” até mesmo das canções infantis.

Um exemplo disso é a cantiga: Atirei o pau no gato.

Criou-se, então, uma nova versão na tentativa de “salvar” o bichano:  “não atire o pau no gato!”.

Com isso, o pobre gato é enterrado enquanto metáfora que é, com a justificativa de ensinar as crianças que “não se mata um ser vivo”: em nome do “bem”.

Como se as gerações formadas nessas tradições, que cantavam tais cantigas, fossem caçar felinos de “Donas Chicas” e, com “um pau a atirar”, cumprissem o VOTO PRESCRITO e se TORNASSEM, assassinos Ecológicos.

Pelo contrário!

É justamente a possibilidade de se acertar o gato na música, que salva o animal na realidade: entra a palavra, sai o gato. Salva-o!

Ou melhor: salva-se de ter que matá-lo de fato, sendo ali na canção, a possibilidade de acertá-lo.

Por meio de uma simples cantiga é possível dar vazão a parte dos impulsos agressivos que habita o homem, e que também estão presentes na infância.

A fala tem a peculiaridade de conter uma ação.

Que bom quando podemos atirar o pau no gato na canção, por meio da palavra, isso nos afasta da concretização desse ato na realidade.

 

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Dos contos, em cantos.
Jandyra K. Mengarelli (org.)
Editora: Ágalma
Ano: 1998
Coleção: Psicanálise da criança

 

 

Notas de Rodapé
*O título deste artigo foi inspirado no livro Dos contos, em cantos (1998) de Jandyra K. Menfgarelli.

 

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escritos psiAndré Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Autor, editor e idealizador do Blog Eu Tava Aqui Pensando e Escritos Psicanalíticos. Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

 

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