Território do Brincar: um convite à aprofundar o olhar sobre a infância, a educação e o brincar

Escrito por André Nascimento

“Eu acho que eles pensam que a gente não sabe nada”  respondeu Carlinhos, quando Renata Meirelles pergunta porque os adultos vivem dizendo, hoje em dia, que criança não sabe mais brincar[1].

territorio do brincar carlinhosFotografia: Território do Brincar/ Renata Meirelles

Escritos Psicanalíticos | Território do Brincar | André Nascimento

 

O desejo de escrever este artigo nasceu após assistir o documentário “Território do Brincar – Diálogos com Escolas” [1], organizado pela cineasta Renata Meirelles.

O Território do Brincar é um projeto de pesquisa, registro e difusor da cultura infantil, que propõe “aprofundar o olhar sobre a infância, a educação e o brincar”, e dialogar sobre o brincar de tantas infâncias pelo Brasil.

Não poderia me debruçar nesta tarefa, de tecer algumas considerações sobre a criança e o brincar, sem re-lançar alguns questionamentos que são colocados no início do documentário:

  • “O que fazem as crianças fora da escola, nos seus momentos mais espontâneos?”
  • “O que elas tem a nos dizer atrás dos gestos, das brincadeiras?”
  • O que fazem nossas crianças para além dos muros das escolas e como esses gestos e ações ressoam na infância?”

Longe de responder essas questões, e fazendo um paralelo com a fala do menino Carlinhos (“Eu acho que eles pensam que a gente não sabe nada”), citada na epígrafe deste trabalho, é fundamental dizer que é possível, sim, por meio do brincar, a criança construir um saber.

A clínica psicanalítica nos ensina que a criança tem algo a dizer e, de fato, ela o diz, da sua própria maneira.

A questão é: quem escuta? Quem é capaz de suportar despir-se de seu conhecimento e escutar o que uma criança tem a dizer?

Quem é capaz de brincar, espontaneamente, com uma criança?

As crianças podem e nos ensinam muito, mas para isso precisamos estar dispostos a “pagar pra ver“, a entrar no jogo, na roda ou na dança e nos permitirmos aventurarmos no universo infantil.

O brincar é o que há de mais saudável e o que singulariza cada criança, pois cada criança brinca a sua maneira.

As crianças podem (e devem) transformar qualquer objeto em brincadeira, elas precisam do ócio e da ausência de brinquedos prontos para que possam inventar outros jogos e brinquedos, utilizando suas próprias letras, em nome próprio, com e partir dos recursos que dispõem, sejam eles simbólicos ou materiais, e no seu próprio tempo. Logo, permitir que a criança fantasie é fundamental para estimular a criatividade e a imaginação.

É possível ver, a partir de alguns relatos dos professores no documentário, como permitir que as crianças brincassem de forma não dirigida, “abriu uma janela”, para olhar as crianças e o brincar de um modo novo.

“Ainda há muito a conhecer…”

brincar

Uma professora aponta que o projeto lhe possibilitou refletir e desconstruir algumas  percepções acerca do brincar:

“Tendemos a ensinar brincadeiras as crianças, algumas tradicionais, o que é muito importante, há uma predominância das brincadeiras dirigidas, o que dificulta que as crianças brinquem e explorem as coisas que tem ao seu redor. Precisamos ver as necessidades das crianças”.

Mais importante que ver as necessidades das crianças, é poder olhar as necessidades de cada criança. Pois cada criança trás consigo algo de único, algo que não consta em nenhum livro ou método ensinado em cursinhos ou universidades.

Foi possível ver as crianças “brincando e produzindo novas brincadeiras, algumas aliadas a cultura da região da qual estão inseridas”, diz uma outra professora.

E complementa: as crianças “brincam, sim, e brincam muito. E é importante descobrir que brincadeira é essa que está sendo inventada a cada dia!”.

Foi interessante poder ver no documentário preocupações relacionadas à integridade física das crianças, entre elas, o medo de que alguma criança caia e se machuque ao subir, por exemplo, em algum brinquedo ou manusear um determinado objeto, também rondavam os pensamentos de alguns professores.

“Em muitos lugares a criança não tem nada, e com um simples pedaço de madeira, ela tem tudo”.

Por exemplo: “se eu pego tronquinhos (pequenos pedaços de madeira), tem que sair alguma coisa de dentro de mim, para que aquilo possa virar alguma coisa”.

O que difere muito, por exemplo, do “brinquedo industrializado, pois ele é igual, sempre”.

Interessante mencionar a fala de outra professor que diz:

“Serrote bem pertinho do dedão do pé, mexe um pouco com a gente, então, a gente vai cercando as crianças numa bolha: não pode isso, não pode subir na árvore porque é perigoso, não pode andar descalço porque está frio, não pode ficar sem blusa. Sim, pode acontecer tudo isso, ou não. Mas que bom quando permitimos que as crianças experimentem, errem, acertem”.

A mesma professora, conclui: “quando eu era criança não corria pois tinha medo me machucar. Tudo bem, não me machuquei, mas, também, não sei correr”.

Um ponto importante no documentário é que, o contato não dirigido com as crianças, possibilita aos professores questionar sua prático profissional e a si próprios.

“As crianças se organizam, os conflitos são resolvidos por elas mesmas”. O que lhes possibilita aprender a conviver e lidar com as diferenças.

Segmentamos o brincar de acordo com cada faixa etária.

Sem perceber, segregamos, isolamos.

Em prol de uma suposta “proteção”. Entretanto, esse excesso de proteção, também impede que as crianças de aprender umas com as outras.

Mas, “será que não protegemos muito as nossas crianças?”

Cada criança aprender e se coloca de uma forma, dentro das suas possibilidades, do seu próprio tempo.

Por isso, é importante se deixar tomar pela brincadeira. Só assim, podemos perceber “o que a criança fala sem falar”.

O posicionamento da criança frente a brincadeira, nos dá as coordenadas do modo como ela se coloca na relação com o outro.

No documentário, vemos que os adultos começam a re-lembrar de momentos de sua infância, e se identificar com as crianças. O que lhes possibilita, construir um saber inédito e um outro olhar para a infância:

“Era, exatamente, isso que eu fazia. Voltei mesmo aquela fase de ser criança… que eu tinha perdido”: voltar a ser criança, deixa eu pensar nos meus primos, pensar em quando eu brincava disso, como que era? Vem isso a tona. Resultando uma maior sensibilidade, ao olhar a brincadeira”.

Sem dúvida, a infância é o tempo de construir: si mesmo, o mundo, o mundo de cada um.

Por isso, é de suma importância olhar para o nosso território, para as nossas crianças, o que elas estão nos dizendo.

Resta-me perguntar:

“Será que você está deixando o ser criança, ser como ele esta aí para ser?”

“Com toda a sua força e potencial… Ou dentro da sua pedagogia existe um modelo bem definido…?”

Sim, eu sei. “é difícil conseguir observar e ser neutro”. É um desafio. É se colocar na condição de mediador e não de dono do conhecimento”.

Afinal, como diz uma professora, sobre a graduação…: “o duro é a gente (professor) aguentar, porque a gente foi formado para responder”.

Pois “o educador é treinado nas formações de faculdade de pedagogia. Sempre intervir”.

Enquanto o território do brincar diz: “Se recolha!” (e isso vale para todos. Independe de ser ou não professor, de estar ou não inserido no dia-a-dia de uma escola).

A vida também ensina. E muito!

Na “Escola da Vida”, você irá descobrir que “tem escola lá fora, na praça, na beira do mar, embaixo árvore…”

“A escola é maior que um monte de muros e professores…”

E “o território é um só…”

Referências Bibliográficas

  1. Meirelles, R. (s/a). Eles pensam que a gente não sabe de nada. Disponível em http://territoriodobrincar.com.br/biblioteca-cat/olhares-brasil/a-escola-da-vida/eles-pensam-que-a-gente-nao-sabe-de-nada/
  2. Meirelles, R. (2012/2013). Território do Brincar – Diálogos com Escolas. Documentário. Disponível em http://territoriodobrincar.com.br/videos/documentario-territorio-do-brincar-dialogos-com-escolas/ 

Notas de Rodapé

[1] “O projeto Território do Brincar é um trabalho de escuta, intercâmbio de saberes, registro e difusão da cultura infantil. Entre abril de 2012 e dezembro de 2013, os documentaristas Renata Meirelles e David Reeks, acompanhados de seus filhos, percorreram o Brasil. Eles visitaram comunidades rurais, indígenas, quilombolas, grandes metrópoles, sertão e litoral, revelando o país através dos olhos de nossas crianças. Renata e David registraram as sutilezas da espontaneidade do brincar. O trabalho do Território do Brincar se amplia ainda mais pela parceria firmada com o Instituto Alana, que é o correalizador do projeto”. Você pode ter acesso a estas e outras informações no Site do Território do Brincar (http://territoriodobrincar.com.br/).

 [1] Meirelles, R. (s/a). Eles pensam que a gente não sabe de nada. Disponível em http://territoriodobrincar.com.br/biblioteca-cat/olhares-brasil/a-escola-da-vida/eles-pensam-que-a-gente-nao-sabe-de-nada/

Assista ao documentário Território do Brincar – Diálogos com Escolas:

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escritos psiAndré Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Autor, editor e idealizador do Blog Eu Tava Aqui Pensando e Escritos Psicanalíticos. Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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