Intervenções de um Psicanalista

Escrito por André Nascimento

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Escritos Psicanalíticos | Intervenções de um Psicanalista | André Nascimento

Em 19 de Janeiro de 2016, a partir do “contato” com alguns textos, entrevistas e vídeos disponíveis na internet, publiquei aqui no Escritos Psicanalíticos o post Por que você não sabe flertar (e eu também), onde a vlogueira Jout Jout Prazer, fala sobre sofrimento e rejeição.

Hoje, relanço o tema da “rejeição”.

Mas, de uma outra maneira:

Quem tem medo da rejeição?

Quem diria que essa pequena palavra pudesse representar (e, paradoxalmente, conter) para algumas pessoas um GRANDE temor.

Temor perceptível em frases do tipo: “tenho medo da rejeição” ou “tenho medo dele(a) não me achar interessante…”(como foi mencionado no vídeo do post anterior sobre rejeição e sofrimento).

Escuta-te!

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Embora frases como essas sejam ditas e ouvidas com frequência nos mais diversos contextos, dizer e ouvir não é suficiente para produzir mudanças significativas na vida de uma pessoa.

É necessário algo mais.

Poder escutar o que dizemos, para além do que intencionamos, requer um profissional que esteja disposto a acolher e escutar não só quem fala, mas, também, o discurso de quem fala, ou, ainda, os discursos que atravessam a fala do paciente.

Neste caso, o profissional no qual me refiro é um psicanalista.

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Se digo um psicanalista, e não outro profissional, é porque cabe ao psicanalista:

“em sua prática de escuta, levar em conta o mal-entendido, o que ficou por dizer, presente no diálogo mais trivial. Seu interesse está no “descompasso” presente entre o que se diz e o que se intencionava dizer, pois é nesse desacordo, em que o pensamento desfalece e nossas convicções perdem o encanto, que o sujeito do inconsciente[1] tem sua morada”[2]

Iniciar essa jornada só é possível quando alguém “aceita” e se permite aventurar na experiência analítica por meio da regra fundamental da psicanálise: a associação livre[3] (que de livre não tem nada, pois segue os ditames do inconsciente).

Em termos simples, a associação livre nada mais é do que começar a falar (do modo que puder) suas questões a um psicanalista.

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Numa análise, a partir da fala do paciente e da escuta e intervenções de um psicanalista, é possível (re)descobrir alguns  mecanismos e recursos que uma pessoa utiliza, sem se dar conta, para conseguir lidar com os seus semelhantes, com o mundo, enfim, quais mecanismos e recursos ela dispõe para lidar com a vida.

Uma dessas questões, pode ser, inclusive, a rejeição.

Por exemplo, num percurso analítico, o que de início era descrito como um “medo da rejeição”, pode se mostrar, palavras depois, intervenções depois, tempos depois, como um “rejeito antes que eu seja rejeitada(o)“.

Vale dizer que, tal lógica, não se aplica a todos.

Embora humanos, todos somos diferentes.

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Mas, se posso dizer algo comum a todos, é que todo ser humano trás algo único, particular.

Particularidade atravessada e constituída pela linguagem e diversos fatores (contexto histórico, cultural, político, social, familiar, genético, etc.).

Por levar em consideração a particularidade de cada pessoa, um psicanalista é aquele que toma cada caso como se fosse o primeiro.

E coloca a sua escuta, a frente de sua vivência pessoal, estudos teóricos ou compreensão.

“[…] a suspensão das certezas  instala a dúvida, motor de novas buscas e inquietações. A queixa é da ordem das certezas, das respostas, e quando buscamos “compreender” o queixoso, na verdade acabamos por abandoná-lo num mato sem cachorro e cercado de certezas de todos os lados [4]. A certeza é sempre enganosa, ela faz parte das ilusões da consciência que ao serem questionadas podem ser abandonadas [5].

A intervenção de um psicanalista, no discurso do paciente, não deixa de ser, também, uma aposta, uma insistência e, por que não dizer, um desejo de provocar desejo.

Trata-se de levar um sujeito a construir sua própria verdade e, acima de tudo, levá-lo a se defrontar com o seu desejo, se assim lhe for possível.

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As intervenções de um psicanalista caminham em direção de revirar o discurso, provocar no paciente (des)construções de sentidos, para que ele possa inventar caminhos, assumir a sua responsabilidade em parte dos eventos que ocorrem em sua vida, sem atribuir tanto a culpa de seus erros, fracassos e sofrimentos, aos que estão inseridos ou já fizeram parte de seu cotidiano, de sua vida (como fazia, frequentemente, no início do seu percurso).

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Em última instância: uma psicanálise possibilita (mas não garante) que uma pessoa assuma as rédeas da sua própria vida, re-signifique a sua própria história.

Esse reviramento, tanto de discurso quanto de posição, só é possível porque:

“a palavra não tem nunca um único sentido, o termo, um único emprego. Toda palavra tem sempre um mais-além, sustenta muitas funções, envolve muitos sentidos. Atrás do que diz um discurso, há o que ele quer dizer e, atrás do que quer dizer, há ainda um outro querer-dizer, e nada será nunca esgotado” (Lacan, J. Sem.1 ,1953-54).

Ora, quem foi que inventou essa história de que temos que ser aceitos, admirados e amados, por todos, e sempre?

Notas de Rodapé

[1] O termo “Sujeito do Inconsciente, também chamado de Sujeito do Desejo, revisto pelo psicanalista Jacques Lacan (leitor das obras do psicanalista Sigmund Freud), é distinto do ser biológico e do sujeito da consciência filosófica, e se constitui por sua inserção em uma ordem simbólica que o antecede, atravessado pela linguagem, tomado pelo desejo de um Outro e mediado por um terceiro”. Saiba mais em: O Sujeito da Psicanálise (arquivo disponível em PDF, clique para abrir/baixar).

[2] Renata Conde Vescovi (2009). A lei em tempos sombrios. A lei em tempos sombrios. Companhia de Freud: Rio de Janeiro. p.18.

[3] Técnica utilizada pelos psicanalistas, fundada pelo psicanalista S. Freud, que propõe que o paciente “comunique tudo o que lhe ocorre, sem crítica ou seleção”, nas sessões (Ler Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. (19212). Vol. XII. Capítulo “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise”. Imago. Rio de Janeiro, pp.147-59.

Referências Bibliográficas

[4] BASTOS, E. A. M. (2004). A escuta no chão de fábrica. São Bernardo do Campo, Faculdade de Psicologia e Fonoaudiologia da Universidade Metodista de São Paulo, p. 10.

[5] BASTOS, E. A. M. (2009). A escuta psicanalítica e a educação. inFormação, ano 13, n. 13, jan./dez.

 

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escritos psiAndré Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Autor, editor e idealizador do Blog Eu Tava Aqui Pensando e Escritos Psicanalíticos. Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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