Carnaval: revolução festiva, criação brasileira, meu Olodum (escrito por André Nascimento)

Escrito Por André Nascimento

carnaval.jpg

Apresentação

História do Carnaval: sem academicismos, sem apresentar um catálogo de eventos e datas como os almanaques e artigos tradicionais.

Hoje, assumi a tarefa de retratar um pouco dos muitos Carnavais do Brasil.

 

Abre-alas

Vila_destaque_2011_2.jpg

O Carnaval — o Carnaval em toda parte, essa grande folia que contagia a todos — é algo relativamente recente na história das terras brasileiras, mesmo se pensarmos essa história apenas da chegada de Cabral para cá.

festa-divino-paraty.jpg

Até o século XIX, outras festas, como a Festa do Divino, tinham mais destaque no calendário folião nacional.

Mas, graças a invenção das marchinhas brasileiras, do samba, do frevo, tudo mudou de figura;

carvaval-2.jpgOlinda-Carnival.jpg

O carnaval levantou as massas e virou a festa nacional por excelência.

fantasma_da_opera.jpgtumblr_lmqol26N8J1qibffso1_500_large.jpg

As novidades populares foram tão sedutoras que forçaram as elites a abandonar seus bailes fechados para cair nas ruas, e usaram todas as novas mídias eletrônicas para propagar os seus sucessos.

olinda-carnaval.jpg

Em todos os cantos, os foliões se organizam para, como diz um dos clássicos do carnaval, “os três dias” – ou muitos, direi eu – “de folia e brincadeira”.

Papangus_no_Carnaval_de_Olinda_-_Olinda,_Pernambuco,_Brasil.jpg

A multiplicidade de gostos e de organizações socioculturais dos brasileiros faz com que o carnaval que acontece fora dos circuitos oficiais venha a legitimar, com brilho, criatividade e espontaneidade, o marketing do carnaval oficial.

carnaval-brasil-festa.png

A pipoca de Salvador, o folião do Bexiga, os blocos de sujos do Rio de Janeiro, Recife e de muitos outros locais do país fazem parte do chamado “pequeno carnaval”, base indispensável para o processo de construção do “grande carnaval” midiático.

Faraó, divindade do Egito

“Pelourinho/ Uma pequena comunidade/ Que porém Olodum um dia/ Em laço de confraternidade/ Despertai-vos/ Para cultura Egípcia/ No Brasil/ Em vez de cabelos trançados/ Veremos turbantes/ De Tutacamom/ E nas cabeças/Enchei-se de liberdade/ O povo negro pede igualdade/ Deixando de lado/ As separações”

olodum 3.jpgolodum4.jpg

Que música era aquela?

De onde surgira aquele ritmo incrível?

ile-aye-bloco-afro.jpgile56924.jpg

Quem, na época, como eu, nunca tinha ouvido falar de bloco afro, olhava para os foliões espantado!

A novidade espetacular deixava a folia ainda mais animada.

Olodum: “Faraó, divindade do Egito”.

corrida_dos_bonecos_3284379471_a47a09e0b3_b.jpg

A cidade estava absolutamente feliz.

0403-Carnaval-Encerramento-Fernão-Velho-PF-0050.jpg

Era como se cada dançarino soubesse que aquele era um momento entusiasmante de revolução festiva, para cair na história, quando o povo de um lugar inventa algo maior, brilhante, uma obra-prima, produto nobre da criatividade local.

Carnaval-de-Salvador.jpg

Era como se Salvador cantasse para si própria: olha só, quanta beleza e animação somos capazes!

Essa música é mais que a soma de nossas individualidades:

MAX_9809.jpg

É brincadeira popular com energia de sobra, fruto de muitos anos de tradição foliã, capaz de nos alegrar (e alegrar também quem mais quiser vir aqui brincar conosco) por muitos outros carnavais futuros, até outra novidade mais bacana surgir por aqui, deste mesmo modo sempre surpreendente.

Atrás do Trio Elétrico só não vai quem já morreu…

O Trio de Armandinho, Dodô e Osmar desfila no carnaval de 1978.

Poucos meses depois, desfilaria ao som de marchas fúnebres para acompanhar o enterro de Dodô, um dos criadores do trio elétrico.

Osmar era dono de uma oficina mecânica; Dodô era radiotécnico.

Ambos eram músicos amadores, cultores do choro.

São eles os pais do trio elétrico.

Tudo começou a um tempos atrás… Uma semana antes do Carnaval de 1950.

Osmar_e_Fobica.jpg

Convidado a se apresentar na Bahia e depois no Rio de Janeiro, o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas do Recife levou centenas de foliões à praça do Campo Grande, em Salvador.

Conforme o frevo ia sendo apresentado, o número de pessoas interessadas em ouvir o gênero pernambucano ia aumentado.

O desfile e o ritmo do frevo contagiaram também os amigos Dodô e Osmar, que decidiram fazer uma farra diferente no carnaval seguinte.

replica-feita-em-1975-para-celebrar-o-primeiro-carro-de-trio-eletrico-de-salvador-criado-por-dodo-e-osmar-em-1950-1422202628918_956x500.jpg

Montaram com Temístocles Aragão a famosa Fobica, um Ford 1929 com alto-falantes em que se apresentava o frevo novo, ou frevo baiano, um ritmo tocado por um instrumento também construído por eles, o “pau elétrico”, hoje conhecido como Guitarra Baiana.

DEOGB-003.jpg

No domingo de Carnaval de 1951, às quatro horas da tarde, aparecia no meio dos corsos que transitavam pela rua Chile o inusitado automóvel, acompanhado por um grupo de amigos que faziam a percussão e a animação.

Como o habitual era o povo apenas assistir aos desfiles, sem necessariamente participar deles, o aparecimento da Fobica acompanhada de foliões entusiasmou os passantes com a nova proposta de brincar o carnaval.

carro-alegc3b3rico.jpg

Osmar Macedo, relembra aquele dia que entrou para a história da música brasileira, e relata no Almanaque do Carnaval, o calor e a acolhida da multidão à novidade:

“O dado pitoresco dessa história foi que quando subíamos a rua Chile, ao passar diante da praça Castro Alves, pedi ao motorista, um amigo nosso, Olegário Muriçoca, que parasse o carro para tocarmos ali, onde o espaço é mais amplo. Pedimos várias vezes a Olegário que parasse e ele nada de fazer. Já furiosos, eu e Dodô esbravejamos, então Olegário respondeu que já havia tempo a Fobica estava quebrada, havia queimado o disco de embreagem, estava sem freio e com o motor desligado. O carro andava empurrado pelo povo. Este fato ilustra bem como essa maneira de brincar ao som do trio elétrico e de segui-lo é coisa mesmo do povo; não foi ninguém que orientou ou disse como fazer…”.

Com o tempo, a pequena Fobica transformou-se em grandes “Caminhões-shows” de alta potência sonora.

caetanave_pb_slide.jpg

Caetano Veloso, ardoroso defensor da musicalidade da Bahia em suas múltiplas formas, compôs em 1969 um frevo de tempero baiano que popularizou o formato do trio elétrico de Dodô e Osmar:

“Atrás do trio elétrico/ só não vai quem já morreu/ quem já botou pra rachar/ aprendeu, que é do outro lado/ do lado de lá do lado/ que é lá do lado de lá/…/ nem quero saber se o diabo nasceu/ foi na Bahia/ o trio elétrico/ o sol rompeu/ no meio-dia/ no meio-dia…”

É como se a festa de Carnaval fosse uma sucessão ininterrupta de intensas revoluções artísticas, que caem imediatamente no gosto popular de forma consagradora.

Invenção permanente é a história do carnaval.

Em outros ambientes, que cultivam de maneira triste e pesada a preservação mumificante das tradições, todas essas novidades seriam condenadas como altas traições, contra a “essência” das festas.

Bonecos_de_Olinda_-_Pernambuco,_Brasil.jpg

Mas o carnaval é realmente algo bem doido (tanto que é chamado de folia…):

Sua essência, contrariando as regras racionalistas, é mutante, e não pode deixar de mudar, pois sem mudança a brincadeira perde toda sua graça.

carnaval-2013-carnaval-olinda-20131.jpg

Feliz do país que sabe fazer um bom carnaval.

Cada carnaval, grande ou pequeno, exige longa preparação, planejamento, economia, produção.

Não é para qualquer um, não é qualquer bagunça.

blocos-carnaval-2016.jpg

A festa é um inegável talento brasileiro; sonho (um sonho certamente carnavalesco) que poderíamos nos especializar nisto: que vitória, um país com a economia baseada em festa, onde o mundo viria aqui afogar suas mágoas e voltar para casa revigorado…

“O Carnaval é por definição – se definições são válidas no território de Momo – uma obra aberta, voraz, em sua incansável vontade de carnavalizar o resto do mundo.

_expo12.jpg

Não é possível compreendê-lo em sua totalidade, em todos os seus detalhes.

Outros autores, outros foliões, teriam outras maneiras de penetrar na festa, de brincar seu Carnaval.

O Carnaval é uma folia, uma festa, uma manifestação ao som dos seus principais gêneros musicais: o samba, o frevo, a marchinha e o axé.

JRS_4040.JPG

O Pernambuco de “Vassourinhas”, a Bahia de “O canto da cidade” e o Rio de Janeiro de “Pelo telefone” e “Mamãe, eu quero” solo fértil,  criação das músicas de Carnaval.

leandro4.jpg

E o que dizer do Carnaval da Liga das Escolas de Samba do Espírito Santo, do Rio de Janeiro e de São Paulo, com todas aquelas deslumbrantes alegorias, aquele misto de cores, que encantam os olhos e o ritmo das batidas e sons, que ecoam na diversidade que ocupa as arquibancadas, e arrepia a pele?

Para cada gênero musical, há uma introdução sobre o local em que ele surgiu, realçando a sua formação cultural e histórica.

8771.JPG

Carnaval: revolução festiva, criação brasileira, meu Olodum.

Axé!

 

Referência Bibliográficas

Almanaque do Carnaval: a história do carnaval, o que ouvir, o que ler, onde curtir / André Diniz. (2008). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

Curta, siga e compartilhe o Escritos Psicanalíticos também no Facebook FBlogo300.


escritos psiAndré Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Autor, editor e idealizador do Blog Eu Tava Aqui Pensando e Escritos Psicanalíticos. Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

Anúncios