Demanda de ser mãe, desejo de ter filho

Escrito por André Nascimento

 
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Demanda de ser mãe, desejo de ter filho, é o primeiro texto da série Ensaios sobre o Feminino do Escritos Psicanalíticos

Apresentação

Histórias como a do personagem bíblico Rei Salomão, ou produções cinematográficas como Coincidências do Amor podem fornecer matéria fértil para discutir questões relacionadas a maternidade: demanda de ser mãe ou desejo de ter um filho? Abordar essas questões requer muita escuta, delicadeza, por parte dos profissionais Psi.

Re-des-cobrindo a História

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Desde que me conheço por gente, tenho um forte apreço por Histórias.

Suponho que tal interesse surgiu com e a partir da minha própria Mãe que, durante toda a minha infância, contava-me histórias.

O tempo passou, e aquele menino que escutava atendo as histórias pronunciadas por sua mãe, se transformou em um homem.

Um homem que percebeu que mais importante do que contar uma História, é re-des-cobrir as histórias por trás da História.

Para além de um contexto familiar e particular…

Hoje, defendo a ideia de que uma sociedade que não tem conhecimento de sua História não consegue entender a si própria, seu funcionamento, anseios e limitações. O que resulta num desconhecimento do porquê chegamos onde estamos, e onde desejamos estar num futuro próximo.

E para abordar o tema de hoje “Demanda de ser mãe, desejo de ter filho”, quero conta-lhes uma breve História.

A História de Salomão
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Essa é a História do personagem bíblico Salomão, filho de Davi, o grande rei de Israel.

Salomão foi aquele que, em uma de suas preces, pediu a Deus que lhe desse sabedoria para governar o seu povo.

E Deus atendeu a sua prece.

Certo dia, chegou a Salomão duas mulheres que disputavam por uma criança.

— “Esta mulher e eu moramos na mesma casa”, explicou uma.

Imediatamente, a outra retrucou:

— “Dei à luz um menino, e, dois dias depois, ela também deu à luz um menino. Daí, certa noite, o menino dela faleceu. Mas, enquanto eu dormia, ela pôs o bebê morto ao meu lado e tomou o meu. Quando acordei e vi o menino morto, sabia que não era meu”.

E a outra mulher disse:

—”Não! O vivo é meu e o morto é dela!”

A primeira, então, respondeu:

—”Não! O morto é seu e o vivo é meu!”

Vendo que as mulheres não chegavam a um consenso…

Salomão mandou trazer uma espada, e ordenou ao seu serviçal:

—”Cortem o bebê vivo em dois, e dêem metade a cada mulher!”.

—”NÃO!”, gritou a mãe verdadeira.

E continuou:

— “Por favor, não matem o bebê. Deem-no a ela!”

A outra, então, disse:

— “Não o deem a nenhuma de nós, meu Rei. Cortem-no em dois!”.

Salomão não teve dúvidas, e disse:

“Não matem o menino! Deem-no à primeira mulher. Ela é a mãe dele…”

Salomão sabia que a verdadeira mãe amava tanto o bebê que estava disposta a dá-lo à outra mulher, para que não fosse morto.

A história bíblica de Salomão, nos põe a refletir: o que é a verdadeira mãe?

Senão aquela que apressa-se a doar seu filho, para preservar-lhe a vida!

Em seu julgamento, “o que parece ter lhe interessado não foi descobrir qual mulher gerou a criança,  mas qual o lugar que cada uma dava à criança: à uma interessava-lhe a posse e o prazer de ter o filho; à outra, possibilitar à criança condições de se tornar um homem — a esta Salomão chamou de mãe”[2]

Demanda de ser mãe, desejo de ter filho

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O dilema no qual o Rei Salomão é encarregado a resolver, põe em pauta a diferença entre desejo de ter filho e demanda de ser mãe.

Fazer uma diferenciação entre os dois termos é difícil, delicado, pois esbarra em algo extremamente íntimo para algumas mulheres.

Como um profissional do campo Psi, atuante na clínica, vejo a importância de questionar estas mulheres que hoje são mães e, também, as que pretendem ser mãe um dia, do porque ser mãe?

A fim de identificar:

  1. qual o lugar que a criança habita no desejo do casal, na conjuntura familiar, no desejo de cada conjugue e, principalmente, no desejo materno;
  2. a que anseios essa criança veio responder;
  3. o que representa a maternidade para esta mulher;
  4. entre outras questões.

Tarefa árdua, que exige tempo. E que mostra que pode acontecer de a demanda de filho, de ser mãe, opor-se absolutamente ao desejo de ter filho.

1.Demanda de ser mãe

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“A demanda de ser mãe pode responder à carência de uma metáfora que possa nomear a mulher como tal”. Por exemplo, para ser mulher, tenho que ser mãe.

Na demanda de ser mãe, a mulher coloca, inconscientemente, o filho num lugar de objeto, fazendo dele mero instrumento de seus caprichos. Logo, pouco importa os desejos e vontades da criança.

Aqui, a mulher pode apresentar dificuldades em reconhecer a falta, que ela é faltosa. E usa o filho ou filha, sem se dar conta,  como um tampão, algo que irá por fim aos seus medos, inseguranças, enfim, as suas próprias questões. Por exemplo, ter uma criança para ser sua companhia, e não se sentir sozinha.

A demanda de ser mãe, pode encobrir a interrogação:

“Quem sou, o que é uma mulher ou o que tenho no ventre, por que não posso ter um filho?”

Pode, também, ter um filho, para atender uma demanda de seus pais ou uma demanda social…

Às vezes, pode apresentar infertilidade ou dificuldade de engravidar…

“Se historicamente, o filho tem sido capital econômico, atualmente é um capital afetivo e narcisista”.

“Em casos de infertilidade é sobrevalorizado como capital genético e genealógico”.

Mães, porque fazeis de teus filhos objetos de seus caprichos?

Mas, não é só nas Histórias que podemos colher material para discutir sobre a demanda de ser mãe…

Os filmes também podem conter elementos que nos possibilitam acalorar ainda mais esta discussão.

2.Coincidências do Amor  

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A comédia romântica Coincidências do Amor, dirigido por  Will Speck e Josh Gordon, lançado internacionalmente em 17 de setembro de 2010, conta a história de “Kassie (Jennifer Aniston), uma mulher madura e bem sucedida que sempre sonhou em ser mãe mas, infelizmente, o homem certo ainda não cruzou o seu caminho. A vida segue até que ela, enfim, decide fazer uma produção independente”.

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Kassie faz questão de dizer: “não preciso de um homem para ter um bebê!”

Sim, Kassie decide buscar ajuda médica e se submeter a uma inseminação artificial para poder ser mãe. E até decide fazer uma festa para a inseminação.

Uma festa para a inseminação? Isso mesmo!

Embora seu amigo Wally (Jason Bateman) tenha tentado lhe convencer que isso é loucura, ela faz questão de dizer que fará a inseminação para ser mãe.

Kassie inicia uma busca por um homem, pelo futuro doador do esperma, com base em uma série de traços e características que ela deseja/exige que um homem tenha, para que o seu futuro filho venha a ter esses traços também.

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Neste caso, vemos que trata-se de uma demanda de ser mãe, o filho ocupa um lugar de objeto. Kassie está disposta a fazer o que for preciso para conseguir o que quer.

A fala mencionada acima de Kassie (“não preciso de um homem para ter um bebê!”), não se restringe as tramas cinematográficas. Este é um discurso cada vez mais comum entre muitas mulheres.

Hoje, graças aos avanços da tecnologia e da ciência, é possível uma mulher, completamente sozinha, designar seu projeto de ter um filho, para fazer seu rastro, para indicar seu caminho.

Antigamente, era mais frequente as mulheres desejarem ter um filho como resultado do encontro com um homem, geralmente,  com o homem no qual amavam.

O amor tem um papel importante.

Independente do sexo dos pais, o desejável é que criança seja fruto de um amor.

Hoje, esse desejo em relação a um parceiro encontra-se, digamos, mais “diluído”…

As mulheres passaram a recorrer a outros métodos contraceptivos e recursos para poderem adiar, gerar ou ter um filho — preservativos, anticoncepcionais, inseminação artificial, bancos de espermas, barrigas de aluguel — às vezes, para suprir sua demanda de ser mãe, com ou sem o amor de um homem, com ou sem um parceiro, ou seja, sem estar referenciado ao homem, futuro pai da criança.

Embora haja exceções, o que ainda predomina é uma demanda de ser mãe.

E isso não é sem conseqüências para a criança.

Essa mudança, toca na origem, no “de onde viemos”, se somos ou não fruto do desejo de duas pessoas que se amam. Nem que seja por alguns segundos.

Faz diferença na vida de uma criança ser filho ou filha de um casal, do amor ou de um tubo de ensaio.

Diferença que logo, logo chegará aos consultórios (se é que já não chegaram) e colocarão novas questões aos psicanalistas.

Felizmente, no filme, um ato (inesperado para nós espectadores) de Wally muda o desfecho da história.

Mas, na vida real, nem sempre isso acontece…

3.Desejo de ter filho

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Como na História de Salomão, o desejo de ter filho comparece nos casos em que a mulher dá condições à criança, acima de tudo, viver!

Filho não completa ninguém! Pois eles irão crescer e fazer a sua própria vida.

E as questões que, até então, estavam mais ou menos cobertas, virão à tona.

E que bom quando os filhos tem sucesso nesta empreitada!

Como diz Philippe Julien, em A Feminilidade Velada, “honrar os pais é, quase sempre, virar-lhes as costas e ir embora, mostrando ter se tornado um ser humano capaz de se assumir”…

Mulheres nutridas por um desejo de ter um filho permitem que, pouco a pouco, a criança faça suas próprias escolhas, vá ao encontro do seu próprio desejo. E tenha a sua própria vida.

Preciso fazer uma ressalva, todos esses impasses em relação ao desejo de ter filho ou demanda de ser mãe, fazem parte da trama inconsciente de uma mulher ou de um casal.

Trama que se destacará e será trabalhada, não sem muita insistência e beirando certos limites, em um percurso de análise.

Culpabilizar ou rivalizar com as mães, os pais ou o casal, pode ter efeitos desastrosos e até levar a interrupção de um percurso de análise.

Questões relacionadas a maternidade, a origem, a conjugalidade, entre outras, são questões que atravessam gerações, o senso de moralidade, o discurso pautado na razão, na consciência.

Abordar os impasses da maternidade, dentre outras questões, requer muita escuta, delicadeza, por parte dos profissionais Psi.

“Em geral, as mulheres oscilam entre essas duas formas de encarar a maternidade. Da predominância de uma ou outra depende o lugar em que o filho vai ocupar em sua vida psíquica“.

Assista o Trailer Coincidências do Amor


Referências Bibliográficas

Rosa, M. D. (2009). Demanda de ser mãe; desejo de ter filho. in Os efeitos do Não-dito: distúrbios de desenvolvimento, aprendizagem e comportamento. Histórias que não se contam: o não dito na psicanálise com crianças e adolescentes. Casa do Psicólogo: São Paulo. p. 112.


Notas

[1] O título “Demanda de ser mãe, desejo de ter filho” é inspirado no capítulo Demanda de ser mãe; desejo de ter filho do livro “Histórias que não se contam: o não dito na psicanálise com crianças e adolescentes”, de Miriam Debieux Rosa. Casa do Psicólogo: São Paulo. 2009.

[2] Rosa, M. D. (2009). Demanda de ser mãe; desejo de ter filho. in Os efeitos do Não-dito: distúrbios de desenvolvimento, aprendizagem e comportamento. Histórias que não se contam: o não dito na psicanálise com crianças e adolescentes. Casa do Psicólogo: São Paulo. p. 112.

LEIA TAMBÉM Desejo de Mãe.

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escritos psiAndré Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Autor, editor e idealizador do Blog Eu Tava Aqui Pensando e Escritos Psicanalíticos. Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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