A PSICANÁLISE, O QUE É ISSO? – III

Escrito por  Darlene Tronquoy.

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Durante meio século, em Viena, Freud escutou seus pacientes com seu inconsciente, sua avidez pelo novo, com sua coragem em admitir o inadmissível e faz, assim, de sua invenção, o divã, um verdadeiro espaço-tempo de investigação a respeito daquilo sobre o que nada queremos saber em nossa vida.

Deixando-se interrogar pela fala de seus analisandos, formalizou-a em uma teoria que, certamente, pretendeu transmitir a outros. Porém, no início, pelo escândalo provocado por suas descobertas – por exemplo, a de que a sexualidade humana está presente desde a infância e que aí ela se estrutura – Freud fica absolutamente só. É abandonado mesmo por seu mestre e tutor Joseph Breuer.


A academia, pois, não aceita, repudia mesmo aquilo que considerou como afronta e disparate; e não perdoa Freud por ter questionado seu saber. Talvez por essa razão é que Freud decide fundar um outro lugar de transmissão para a psicanálise, criando, para tanto, um campo “fora” da universidade, à sua margem.

À sua margem quer dizer, contudo, que ele não se separa dela completamente, pois não rompe com o rigor que ela lhe ensinou. Entretanto, Freud não pôde deixar de se dar conta de que seria impossível que a psicanálise pudesse vigorar com sua força, sua virulência, no lugar onde fora recusada e onde havia forte preconceito e impossibilidade de se aceitar a hipótese do inconsciente com tudo o que isso implicava. Por essa razão é que, além do cuidado com sua clínica e com a construção de sua teoria, Freud cuidará da formação do psicanalista.


Após, então, um tempo de recolhimento e solidão, tendo construído o essencial de sua elaboração teórica, decide reunir um grupo de pessoas, médicos, mas também escritores, historiadores, enfim sujeitos com formações distintas e, desta forma, afirma o caráter leigo e à margem da psicanálise. Tratava-se da “Sociedade das quartas-feiras”, primeira associação freudiana cuja primeira reunião acontece em outubro de 1902.


Daí por diante o caminho tem sido árduo no que diz respeito à questão da formação dos analistas, animada que precisa ser pela questão: afinal, um psicanalista, o que é isso? Uma coisa é certa: não há psicanalista sem que aquele que deseja ocupar esse lugar para um outro leve às últimas consequências sua própria análise, e sem que se engaje em um trabalho permanente com a teoria.


Após Freud, Lacan sustentou firmemente esta questão e subverteu a lógica desta formação afirmando que um analista somente se autoriza de si mesmo. E ele tinha razão. Em seu caminho francamente freudiano, avança e afirma que não há possibilidade de haver uma garantia prévia para uma prática, ou seja, não é possível que haja alguém ou uma instituição que possa prometer que um sujeito possa a vir a ser psicanalista.

Aliás, não há “ser” do psicanalista.

Trocando em miúdos, não é possível que alguém tenha “carteirinha de psicanalista”; não é possível que um sindicato reúna psicanalistas, pois tudo isso faria parte desta garantia antecipada, autorizada por um outro, que é absolutamente anti-ética. Tudo isso, contudo, somente se torna possível quando é a lógica tão legalista quanto charlatã que orienta a ação de alguns grupos que se arrogam o título de “psicanalistas”.

Atenção! As Escolas que reúnem sujeitos que pagam de fato o preço de sua dívida simbólica com Freud e com Lacan, com a psicanálise, não se propagandeiam e vendem cursos em outdoors, não prometem títulos e diplomas, aparato que, na verdade, é um manto legal de uma prática imoral e perversa.

Freud tinha razão, a luta que ele iniciou não terminou, pois as resistências à psicanálise, ao inconsciente, são infindáveis!

 

Sobre este Artigo

Este artigo foi escrito por DARLENE TRONQUOY. Psicanalista Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória. Professora. E-mail: darlene_angelo@terra.com.br. E foi retirado integralmente do Jornal A TRIBUNA, 28/02/2016, Vitória,ES.

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escritos psiAndré Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Autor, editor e idealizador do Blog Eu Tava Aqui Pensando e Escritos Psicanalíticos. Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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