“Acorda!”: um relato clínico

Escrito por André Nascimento

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Mais um dia de trabalho estava prestes a começar. Assim como tantas outras vezes, peguei o telefone para ligar para uma das minhas pacientes para saber se ela compareceria ao consultório.

Ao atender o telefone, ela me diz: “estou morta, não sei o que fazer, cada dia estou pior. Não tenho voz, nem vez. Não tenho autoridade…”.

Pedi para que ela me contasse o que estava acontecendo, pelo telefone mesmo, afinal, eu jamais desligaria o telefone após ouvi-la dizer aquilo.

Então, ela continuou: “Cai 5 vezes ontem. Não aguento ficar em pé…”.

Para a minha surpresa, ela mesma se questiona: “porque estou caindo?”.

“Tenho andado ‘escorada’. Eu até quero fazer as coisas mas, estou sem vontade”.

De consultório em consultório médico, ela busca respostas para as suas perguntas. Os médicos não a entendem, a “expulsam da sala”, alguns chegam a dizer que “isso não é assunto para eles, é assunto de psicólogo”.

Médicos que não a acolhem, não a escutam (por não estarem interessados, por não poderem escutar por causa do curto tempo de um atendimento a outro, por não terem “estudado” pra isso, por não suportarem escutar algo que foge do grupo de sintomas descritos e listados alfabeticamente nos manuais de doenças e transtornos…).

Ora, e precisa de estudo para acolher e escutar alguém? Aonde entra a humanidade?

Pois é, não entra.

Médico e paciente não podem ter uma relação de proximidade. É preciso ter total clareza de que se está em um ambiente profissional. É preciso ter total clareza das distância que precisam ser respeitadas: o médico fica do lado de cá da mesa e você, paciente, do lado de lá. Como água e óleo, ninguém se mistura. Você tem os sintomas, o médico o saber…

Já está pra lá de comprovado, graças aos relatos de pessoas que já passaram por poucos bons médicos, que a relação que o paciente estabelece com o seu médico tem fortes efeitos no tratamento, na cura de algumas doenças.

Lindo isso! O amor e suas propriedades medicinais…

Mas, como tudo na vida tem dois lados (ou mais), nem tudo é amor. O paciente também poderá endereçar sentimentos de ódio e hostilidade a figura do médico.

Nossa conversa pelo telefone não parou por aí. Conta que um dos médicos que a atendeu, após lhe dar um novo medicamento em mãos, lhe diz: “Este comprimido vai te deixar ‘aliviada’ das dores. Mas, você vai dormir grande parte do dia”. E, de fato, ela fica “dopada” o dia todo, não consegue sequer pronunciar algumas palavras. Como já me disse diversas vezes, fica uma “morta-viva”.

“Diante de tudo isso, eu falo para mim mesma: não entre em desespero, não abaixe a cabeça, siga em frente. Isto tudo é uma ‘tortura’, André, a dor é tanta que tenho medo de ter um surto. Desses que leva a gente a si matar ou matar alguém. Leva a gente ao suicídio…”

“Estou cansada. Muito cansada. Cansada de tudo! O que me leva ao estado que eu estou é uma doença… Esqueci que tinha morrido e fui lá… [na consulta médica]. Estou sem forças”.

Foi estranho ouvir tudo aquilo. De alguma forma, eu também me sentia assim… “cansado”, de tudo, de todos. Eu também estava em busca de forças. Afinal, eu também sou um ser humano, também tenho minha vida, minhas questões, meus medos, inseguranças e pontos fracos, que trabalho semanalmente na minha análise pessoal. Eu queria dizer, “eu sei como é, eu também estou cansado de tanta coisa…” mas, eu não consegui dizer nada. Nada. E só a escutei.

“Preciso ‘acordar’…”, ela me disse.

Imediatamente, eu lhe disse: “Sim. Precisa!”.

Segundos depois, algo em mim me fez dizer: “Isso! Acorda! Acorda porque há corda. Acorda! Para conseguir ver a corda que vai te tirar do fundo do poço!”. Empolgado e, agora rindo, continuei: “Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima. Segura essa corda, mulher!“.

Ela também riu. Rimos juntos por alguns segundos. E mesmo rindo, ela me disse: “Mas, com que forças? Estou sem forças…”

“Sei como é…” (pensei). Afinal, eu também estava “sem forças”. Eu também estava “cansado”…

Ouvir ela dizer tudo aquilo, e pior, me ver fazendo intervenções para “acordá-la”, para que ela buscasse, onde lhe fosse possível, alguma “força” que a permitisse  se “levantar”, provocou em mim um sentimento de fraude. Me senti uma farsa. Senti como se eu estivesse falando palavras vazias…

Ora, mas o que eu poderia fazer? Escutei os significantes e precisava martelar em cima deles. Era a única chance de produzir um ‘abalo’ (por ausência de palavra melhor) naquela “tortura”. Tortura que a acompanha há anos…

Tudo isso aconteceu em aproximadamente 20 minutos.

Minutos antes de desligar o telefone, ela estava com um tom de voz um pouco melhor do que quando atendeu o meu telefonema.

Quando desligamos, eu estava com uma série de questões sobre o que havia se passado naquele telefonema.

Aquele “Acorda!” reverberou em mim. Eu também precisava acordar, me manter desperto. Eu também precisava ver a corda. Eu também precisava perceber que havia uma corda que me socorreria, que não me permitiria naufragar nas minhas próprias questões, mesmo eu estando com poucas forças para segurá-la.

Eu precisava acordar, me manter acordado, para poder ajudá-la, da maneira que me fosse possível, naquele momento.

E, de fato, eu acordei!

“Eu grito para eu acordar, porque eu to me deixando ir…” (Dercy Gonçalves).

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Conheça-me!

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Saiba mais

André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Psicanalista. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog A Vida e a PsicanáliseEu Tava Aqui Pensando, Sala de Espera e da Revista Eletrônica Escritos Psicanalíticos. Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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