A Mãe Ideal

Escrito por André Nascimento

mae ideal

 

Apresentação

Recentemente, escrevi Demanda de ser mãe, desejo de ter filho, um texto que trás para a cena alguns dilemas da maternidade. E nos convida a refletir sobre “o que é a verdadeira mãe?”.

Hoje, pretendo dar continuidade a essa discussão, compartilhar com cada um de vocês alguns recortes históricos e associações que me foram possíveis sobre a maternidade, com enfoque na concepção de “Mãe Ideal”.

A Mãe Ideal

A construção social do ideal materno no ocidente advém da própria transformação dos conceitos e ideais de criança e família, transformação que se tem documentada desde início no século XVI e arrastou-se lentamente pelos séculos.

De reprodutora à responsável pela saúde da família, o papel da mulher como mãe assumiu uma configuração que perdura até hoje.

No início do século XX, com o advento da Psicanálise, das duas Grandes Guerras, da entrada cada vez maior da mulher no mercado de trabalho, mais uma vez os ideais de amor materno ideal se vêem abalados.

O ideal da mãe perfeita construído por cada sociedade em geral e por cada família, em particular, tem influências que podem ser positivas ou negativas tanto para a mulher, quanto para a criança.

Muitas mulheres se sentem atormentadas por pensamentos acerca de estarem, ou não, sendo “boas mães”. Afinal, é predominante a ideia de que uma mãe deve amar seu filho incondicionalmente. Entretanto, toda mãe sente, em algum momento, raiva de seus filhos, dúvidas em relação a maternidade.

Uma mulher pode conceber e não necessariamente sentir amor por uma criança, e outros imperativos podem fazê-la cuidar de sua criança. Valores morais e sociais também podem ser determinantes sobre o desejo e o dever de ser mãe.

O amor materno é essencialmente adquirido ao longo da evolução social no ocidente, um sentimento não inerente à condição da mulher.

Pouco a pouco, das vivencias pessoais articuladas ao discurso social vigente de épocas anteriores, resultou na concepção de que a mulher era possuidora de um “instinto materno”. Neste sentido, cabia a ela responsabilidade de zelar pela saúde da família.

Com o passar do tempo, o amor materno distanciou-se um pouco – mas não muito – do caráter biológico e passou a se configurar como um dever moral para com a sociedade. Um dever para com a educação de seus filhos, do qual a mãe não poderia se furtar, visto ser a única capaz de exercer tal papel.

Sobre as amas

Muitas pessoas desconhecem esse fato: na França dos séculos XVII e XVIII, as crianças eram entregues às amas, desde o nascimento, para que fossem criadas e garantida sua sobrevivência física. Esse cuidado envolvia seu deslocamento para a casa dessas amas e seu retorno para a família só acontecia depois dos cinco anos, quando sobreviviam, pois as condições de higiene em que sobreviviam eram precárias. A tarefa de amamentar não era nobre para uma dama.

Séculos atrás, as mães possuíam tanta indiferença com relação à perda dos filhos quanto os pais, sendo a morte da criança um acidente quase banal, que o nascimento de outro filho repararia. A entrega dos recém-nascidos as amas era um hábito corriqueiro, até mesmo obrigatório. Mas entregar os recém-nascidos as amas não eram privilégios apenas dos franceses. Este ato era comum em várias partes do mundo ocidental.

A criança era considerada um estorvo, “os cuidados, a atenção e a fadiga que um bebê representa no lar nem sempre parecem agradar os pais”[1].

Entregar um filho à ama era quase o mesmo que entregá-lo a morte, ainda assim preferível a suportar as dificuldades dos cuidados com a criança, já que “ocupar-se de uma criança não é divertido, nem elegante”.

No fim do século XVIII observa-se um início de sentido de alerta para as condições de vida das amas a quem se entregavam as crianças: mulheres em estado de miséria, vivendo em condições sub-humanas.

As crianças eram entregues às intermediárias muitas vezes sem saber seu nome, e a própria criança muitas vezes também não tinha nome: havia grande possibilidade de que essas crianças nunca mais fossem vistas. As mais frágeis eram devolvidas mortas alguns dias após saírem da casa dos pais.

A intermediária, muitas vezes responsável por muitas crianças ao mesmo tempo, por exemplo, poderia mesmo nem se dar conta da perda de um bebê, que caísse da carroça e morresse esmagado pela sua roda.

Nos casos em que o bebê sobrevivia até a casa da ama, enfrentava varias dificuldades, entre elas a alimentação.

As amas exauridas pelo trabalho e mal alimentadas tinham a oferecer à criança um leite de qualidade, digamos, questionável. Também acreditava-se que o caráter se passava pelo leite, se trocava, então, a amamentação do seio por uma alimentação grosseira, inadaptável ao estomago delicado do recém-nascido.

Muitas amas, para não terem aborrecimentos ou não serem incomodadas pelos choros do bebê, utilizavam-se de narcóticos para fazê-los dormir e muitos morriam por excesso desses medicamentos.

“Quando a alimentação não era fatal ao bebê, sua natureza tinha ainda de vencer um mal temível: a sujeira e a falta do mínimo de higiene”.

Relatos históricos constatam que muitas dessas crianças ficavam cobertas de fezes durante todo o dia, ou mesmo semanas com a mesma roupa, sua pele se inflamava e ficava coberta de úlceras. Eram enfaixadas, para evitar luxações na coluna, com os braços sobre o ventre e panos entre as pernas, o que impedia que os excrementos se afastassem do corpo e fazia com que este ficasse marcado e ferido. Tal bandagem pressionava as costelas e perturbava a digestão e a respiração. Muitas amas camponesas penduravam os bebês pela roupa, em um prego à parede, para evitar que fossem feridos ou servissem de comida dos animais das fazendas.

As crianças permaneciam em média quatro anos na casa das amas e muitas delas prolongavam o período de desmame interessadas em manter o contrato de serviço e os parcos honorários.

Os pais não pareciam se preocupar com a sorte dos filhos, sem visitá-los ou ao menos escrever demandando notícias.

As crianças, ao retornar para a casa dos pais, se deparavam com verdadeiros estranhos, que, muitas vezes, não desejavam o retorno deste filho.

“A verdade é que quando a criança volta ao lar paterno, quando volta, está freqüentemente estropiada, malformada, raquítica, enfermiça ou mesmo gravemente doente. Os pais queixam-se amargamente e talvez com mais alarido do que se o filho tivesse morrido. Sem contar que uma criança doente represente muitas despesas futuras e poucas vantagens a longo prazo”.

O desinteresse geral dos pais pela criança fazia com que elas morressem aos montes. Muitas eram abandonadas nas rodas dos expostos, recurso de acolhimento de crianças enjeitadas por instituições religiosas.

Mas a entrega à ama era um infanticídio disfarçado já que apenas um número muito pequeno de pais recuperava seus filhos algum dia. Somente quando essas perdas passaram a interessar ao Estado se procurou, digamos, “salvá-las da morte”.

“A verdade é que a criança, especialmente em fins do século XVIII, adquire um valor mercantil. Percebe-se que ela é, potencialmente, uma riqueza econômica”.

A partir daí, não demorou muito para surgir argumentos que convencessem as mulheres de que era sua vocação —  instintiva, imaculada e incondicional —  SER MÃE.

 

Efeitos do amor instintivo na maternidade

Afirmava-se que a necessidade de maternagem é uma característica universal feminina, fazendo-a parecer um dom, um sentimento instintivo e estritamente biológico que todas as mulheres vivenciariam independentemente da cultura ou da condição sócio-econômica:

Maternar, desde os primórdios da humanidade, foi considerado uma função principalmente feminina, o amor passa a ser o regente das relações entre pais e filhos,  a mais selvagem das feras amamenta seus filhos, a mulher também estaria submetida a esse instinto,  passou-se a conceber a mãe como alguém puro a quem se atribuem apenas sentimentos nobres de acolhimento, abrigo e continência. “Em nenhum caso ela deve se aborrecer ou mostrar a menor impaciência, pois a mãe […] ignora o principio do prazer e a agressividade”

Efeitos do amor imaculado na maternidade

Ainda hoje, a maternidade ainda é um tema ligado ao sagrado, ao místico. A mãe permanece, identificada a Maria, mãe do menino Jesus, símbolo do indefectível amor imaculado.

Aqui, a mãe não tem apenas uma função ‘animal’, como acreditava-se anteriormente, compete-lhe também “o dever de formar um bom cristão”.

A mãe é agora usualmente comparada a uma santa e se criará o hábito de pensar que toda boa mãe é uma ‘santa mulher’.

A mulher transbordante de caridade, doçura e resignação constante se torna o estandarte da religião, e por meio de imagens religiosas tem associadas a si características necessárias ao ideal de maternidade.

Nesta concepção, portadoras do “pecado original”, as mulheres atravessam seus dias a pagar por meio da dor a gloria dada por Deus de redimir seus pecados. Logo, “a mulher é feita tão somente para ser mãe e amar os sofrimentos que acompanham sua vocação […] Suas dores são a condição de sua purificação […] ela não deve esperar recompensas neste mundo”.

A igreja divulgava o discurso de que as mulheres não poderiam fugir do dever do aleitamento e da maternidade sem pecar e “o abandono do aleitamento materno era apresentado, sobretudo, como um pecado contra Deus, uma ação imoral”.

Efeitos do amor incondicional na maternidade

Aqui, o conceito de amor materno, como constituído, passa a organizar a família em torno da criança, principalmente pela mãe.

O desenvolvimento do culto ao amor materno teve seu apogeu nos séculos XIX e XX, nos quais, devido às condições econômicas e políticas, o homem foi levado a sair de casa e a entregar toda a responsabilidade desta à mulher: a dignificação da maternidade foi o que possibilitou às mulheres encontrar esta função determinada e desfrutar de um prestígio até então desconhecido.

Em decorrência destes e outros fatores, a mãe, anteriormente restrita a uma função geratriz, passou a assumir também o papel de educadora e passou a ter uma função social. Cabia à mulher a responsabilidade pela saúde e pelo bem-estar dos membros da família e ampliava-se sua responsabilidade como dona de casa.

Divinas e virtuosas, essas mães sentiam um enorme peso sobre si. E se todos concordavam em glorificar a mãe perfeita, também estavam dispostos a desqualificar as mulheres que “fracassavam” em sua função materna.

A mãe “perfeita e normal” devia se mostrar paciente e dedicada, atenta a todas as necessidades de seu filho, totalmente devotada e qualquer afastamento desse padrão acarretava sentimentos de culpa ou frustração.

A mãe ideal encarregava-se insistentemente de tudo, assumindo sozinha a educação completa dos filhos: não deveria ter um sono muito pesado, deveria não pensar no marido, o seu instinto era infalível e permitia que apenas ela soubesse a hora exata de misturar as batatas com a carne. Ser mãe quase não deixava tempo livre para a mulher.

Outro ponto interessante é que as responsabilidades da mãe não se restringiam à criança propriamente dita, mas desempenhavam um papel determinante no futuro de seu filho: se ele se tornasse um criminoso ou apresentasse qualquer tipo de deficiência física ou emocional, já se sabia quem deveria ser colocado no banco dos réus.

O exercício da maternidade possibilitou às mulheres encontrarem uma função determinada, de um prestígio até então desconhecido.

Feita para sofrer e gostando disso, a mulher não pode encontrar melhor ocasião de exercer seus dons do que na maternidade. […] É interessante como nas linhas (e entrelinhas) destes discursos eram vinculadas mensagens de que para que uma mulher cumprisse sua vocação, era preciso que fosse mãe, não como outrora, de maneira esporádica e irregular, mas constante, vinte quatro horas por dia.”

O discurso moralizador aconselhou a retirada das mulheres da fábrica e de outras atividades, onde se tornavam mais propensas a cair na prostituição, como as operárias, as costureiras, as criadas de servir e as empregadas no teatro.

Predominou, assim, uma representação simbólica ideal da mulher dedicada às tarefas do lar. Condenava-se o trabalho extra-doméstico como desperdício físico de energias femininas, da saúde e da capacidade de desempenho das funções maternais, além de elemento comprometedor da dignidade feminina.

Logo, a mulher que não desejasse exercer sua vocação materna era condenada por violar as leis da natureza, considerada uma desviante por negar o sentimento de amor inerente à condição feminina.

“Neste período, a falta de amor é portanto considerada como um crime imperdoável que não pode ser remido por nenhuma virtude. A mãe que experimenta tal sentimento é excluída da humanidade, pois perdeu sua especificidade feminina. Meio monstro, meio criminosa, tal mulher é o que poderíamos chamar de ‘erro da natureza’”.

“Recusar-se voluntariamente a restringir seu universo aos limites do lar, e circunscrever sua vida à maternidade e à casa, era considerado uma atitude monstruosa, e fonte de todos os flagelos sociais, pois se a mulher despreza suas funções naturais, disso só pode resultar a desordem para a sociedade“.

 

Efeitos do amor romântico na maternidade

O amor romântico foi o móvel de um movimento centrado no casamento por amor que transformou a esposa na companheira querida e eleita, o que conferiu um certo status à mulher doméstica.

A figura da mãe passou a desempenhar um papel mais importante dentro da família, e notadamente, na criação dos filhos.

O amor romântico criou o lar e recriou o papel da mãe, já que estes eram frutos da associação entre amor, casamento e maternidade.

A poesia romântica em muito contribuiu para popularizar e banalizar o discurso sobre o instinto materno.

A Construção Social do Ideal Materno no Brasil

O movimento higienista designa o pensamento dos médicos e especialistas do século XIX no Brasil que teve a maternidade e o aleitamento como principais focos de atuação.

Sob a condução inicial das mães de família desenvolveram-se três pilares básicos para a ação do movimento: a educação física, que criou o corpo saudável; a educação moral, gênese da figura do indivíduo contido e polido; e a educação sexual que na concepção higienista deveria transformar homens e mulheres em reprodutores e guardiões de seus filhos.

Contatou-se que a família era a grande responsável pela escandalosa mortalidade infantil que atingia o país. Dizia-se mesmo que os pais exerciam uma “funesta influência” aos seus filhos.

Diante deste cenário, era necessário, então, que esses pais se colocassem nas mãos daqueles que conheciam suficientemente bem os princípios de higiene, de assepsia, de prevenção de doenças, se quisessem manter vivos seus filhos. Era preciso introduzir em suas vidas a figura do médico, prescritor de regras e de normas de conduta, capaz de ditar os melhores modos de se alimentar e cuidar das crianças.

A família, é vista como incapaz de sozinha cuidar e dar a devida educação [higienizada] a seus filhos, precisava da intervenção de um outro agente educador, o médico.

É na família, centrada nas figuras do homem-pai e da mulher-mãe, que a higiene focaliza sua atenção. Seu discurso inclui e valoriza a criança em sua imaturidade e fragilidade e faz da família sua própria polícia: do seu corpo, do seu sexo e de sua vida social.

Este controle foi uma das formas encontradas para exterminar os velhos hábitos “anti-higiênicos”, criando-se paulatinamente o ideal de família dos nossos dias: a família burguesa.

As campanhas pelo aleitamento materno foram um dos pontos centrais dos escritos e das ações médicas, apresentando-se como um momento de estreitamento dos laços familiares e de manifestação do amor materno capaz de garantir o bom desenvolvimento físico e moral das crianças.

Seus porta-vozes se expressavam em exortações como: “a mulher nasceu para ser mãe, a mãe deverá viver para seu filho ‘completamente’, devendo acabar para ela os prazeres efêmeros desse mundo” [2]

A amamentação se tornou uma obrigação materna, a confirmação de um ato natural, inato, instintivo, biológico envolvendo o binômio mãe-filho, em que a mãe, mamífera, detém a responsabilidade sobre a saúde de sua cria.

Ora, […] se a ovelha, a cabra e outros animais o fazem sem que ninguém lhes tivesse aconselhado, porque será preciso que se diga a mulher, que tem a felicidade de possuir uma inteligência: não serás verdadeiramente Mãe, sem que aleites teu filho? […] É muito necessário que se use de todos os meios possíveis para lembrar a mulher onde está a sublimidade de seu papel no mundo”[3].

A comparação com as fêmeas de outras espécies causava grande impacto e incômodo sobre as mulheres uma vez que não amamentar consistia uma infração às leis naturais.

A concepção do instinto materno para cuidado e amamentação como próprio da espécie procurava orientar as ações da mulher, associada a informações sobre as vantagens em ofertar o seio a seu filho, responsabilizando-as pelos resultados futuros.

Apesar de sucessivamente ter-se tentado regulamentar essa ocupação, o que mais influenciou na gradativa diminuição da utilização das amas-de-leite foram às alterações nas relações familiares.

Propagou-se um modelo imaginário de família orientado para a intimidade do lar que conduziu a mulher ao território da vida doméstica, onde seriam privilegiados os seus talentos e reafirmada a importância da missão de mãe.

Desde que a criança vê a luz do dia, desde que ela dá o primeiro grito, o primeiro movimento da mãe é pedir seu filho para cobri-lo de caricias e beijos; e o seu segundo movimento profundamente espontâneo é de querer dar-lhe o seio.

Assim, o ideal de mãe vinculou-se às idéias higiênicas redentoras da maternidade e da proteção à infância, “a mãe com a consciência em paz, orgulhosa por ter sabido cumprir religiosamente seu dever materno , pôde então entregar-se a todas as outras distrações que lhe agradem, e todos admirarão sua coragem, dedicação e verdadeiro amor materno”.

Tal visão permitiu que durante um longo período, o casamento e a maternidade regulassem homens e mulheres, uma vez que “por meio da amamentação buscava-se depositar na mulher a responsabilidade pela unidade da família e dar ao homem maior disponibilidade para outras obrigações sociais”.[4]

O sexo, circunscrito à moral familiar e objeto de regulação médica foi classificado conforme princípios de normalidade e anormalidade. O propósito médico estatal era a exaltação da sexualidade conjugal baseada no “casamento modelo” e a regulação dos novos papéis de homens e mulheres dentro desse casamento. Para os médicos da higiene “ser pai e mãe passou a ser a finalidade última do homem e da mulher”[5].

O “instinto maternal” guiou a mãe a uma dedicação e amor sem limites uma vez que o devotamento era apontado como parte integral da “natureza” feminina e que nele estava a fonte mais segura de sua felicidade.

Nasce a ideia de que “o ato mais natural da vida da mulher e pelo qual ela se torna grande, sublime, isto é, pelo qual ela se torna mãe, é o parto”[6].

Glorificada a mulher-mãe, àquelas que não apresentassem naturalmente esse altruísmo aplicava-se o discurso moralizante, definidor do espírito do sacrifício não como natural, mas como obrigatório.

Insistia-se na idéia de que toda “boa mãe” é incondicionalmente terna e devotada, predominando uma interpretação mística das funções maternas.

Nesta concepção, a função da mãe era abdicar de si mesma para o bem dos filhos e da família.

Abordagens da maternidade ao final do século XX

As idéias psicanalíticas e as instruções de Freud e de seus sucessores atestaram “(…) ao mesmo tempo a desorientação dessas mães e a crença num ideal, que desmentem ambos a ideia de uma atitude materna instintivamente “boa”[7].

Hoje, temos cada vez acesso a relatos de mulheres que não se sentem preparadas ou não desejam ser mãe.

“Ser mãe hoje não é tão simples; recusar a sê-lo menos ainda”[8].

Muito dos conflitos ou dificuldades encontradas pelas mulheres tem origem numa representação consagrada de perfeição e abnegação, uma idealização que leva muitas delas ao sofrimento e à frustração por não possuírem os requisitos esperados, tanto por elas mesmas quanto pela sociedade do qual fazem parte, para ser mãe.

É importante se falar sobre maternidade em sua complexidade, tema naturalizado já que na sociedade esse assunto não é discutido nem ensinado, cujo silêncio acerca de condições e implicações pode levar muitas mulheres a engravidarem não para ter uma criança, mas para ter atenção, satisfazer sua própria mãe ou ainda para se ligar a um homem, dirigidas por um desejo infantil de posse.

Há casos de mulheres que “querem ser mães para elas mesmas, bem antes de sê-lo para os filhos. E se esse desejo totalmente egoísta é tão compreensível quanto legitimo é também perigoso, se não for logo substituído por um desejo verdadeiro de dar vida”[9].

As mães contemporâneas e a sociedade em geral ainda encontram-se atadas a este mito, da mãe ideal, santa, devotada, que ama incondicionalmente seus rebentos, apesar de toda a evolução dos costumes.

Aliás, dizer que ela é devotada seria pouco: ela é toda dada, toda maternal, se esquece completamente dela mesma para só pensar nos filhos. É a abnegação, a generosidade encarnada. Está sempre presente quando preciso. Podemos dizer-lhe tudo e pedir lhe tudo. É o consolo, a doçura, a ternura, a alegria. Ela é o todo. Esse amor filial mítico (e cego) é a sobrevivência do reconhecimento carnal, instintivo do recém nascido, é o primeiro ‘objeto de amor’. Ela fornece o alimento, a ternura e os cuidados tudo vem dela. Essa pessoa onipresente, no inicio indiferenciada para o bebê é seu todo, sua coisa, sua vida […] desse sentimento de impotência e de dependência total da criança nasce, portanto – logicamente- uma ligação e um reconhecimento infinito para com aquela que a fez e a que faz viver sempre. ”[10]

A maioria das mães toma como farol e guia o mito da boa mãe devota e incondicional, e a maternidade não é ensinada nem mesmo discutida até a sua gravidez.

No dia-a-dia, a mulher acaba por descobrir a idealização e a impossibilidade de se ser essa mãe ideal.

A mãe do lar ideal seria aquela que além de ser uma exímia dona de casa é também uma eximia mãe, esposa, amiga, companheira.

No entanto, mesmo se dedicando exclusivamente à casa e à família, muitas mulheres não se sentem adequadas ao modelo, ideal, o que lhes acarretam sentimentos de culpa, buscam desesperadamente espelhar atitudes ideais, sacrificando-se na busca de uma realização humanamente impossível.

Sentem-se culpada, e de mil formas, por não ser a mãe perfeita dos mitos. Por não fazer tudo pelos filhos, por não saber evitar doenças, ou as notas baixas, por resmungar quando eles acordam a noite ou por reclamar de suas roupas estragadas… Culpada também hoje porque, com toda literatura que explica e aconselha, não se tem nem os direito de não se sair bem, não se tem nem o direito de sentir e endereçar sentimentos de ódio ou de raiva aos filhos.

 O amor materno não é inerente às mulheres. Ele é uma construção social e pessoal.

Nenhuma mãe é perfeita.

A maternidade é construída todos os dias.

 

Referências Bibliográficas

Julia Gama Tourinho. (s/d). A mãe perfeita: idealização e realidade – Algumas reflexões sobre a maternidade. UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs2/index.php/igtnarede/article/viewFile/1710/2343

Notas de Rodapé

[1] BADINTER, E. Um amor conquistado: O Mito do Amor Materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1985. p. 64

[2] COSTA, C. Palestra do medico IX. A Mãe de família: jornal scientífico litterário ilustrado, Rio de Janeiro, a.1, n. 9, p. 66, Maio. 1879.

[3] COSTA, C. Palestra do médico-hygiene da infância V. Mãe de família: jornal scientífico litterário ilustrado, Rio de Janeiro, a.10, n.5, p. 33-34, Mar. 1888.

[4] COSTA, J. F. – Ordem médica e norma familiar. 2ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983. p. 26.

[5] COSTA, J. F. – Ordem médica e norma familiar. 2ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983. p. 238

[6] COSTA, J. F. Palestra do medico LIII. A Mãe de família: jornal scientífico litterário ilustrado, Rio de Janeiro, a.3, n.6, p. 41, Mar. 1881.

[7] BADINTER, E. Um amor conquistado: O Mito do Amor Materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1985.

[8] SERRURIER, C.- Elogio às Mães Más. São Paulo: Summus, 1993. p. 8.

[9] SERRURIER, C.- Elogio às Mães Más. São Paulo: Summus, 1993. p. 19.

[10] SERRURIER, C.- Elogio às Mães Más. São Paulo: Summus, 1993. p. 64.

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