A Psicanálise, o que é isso? — V, A questão do Incesto

Escrito por Darlene Tronquoy

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Foi escutando seus pacientes em seu divã, sua genial e grandiosa invenção, que Freud pôde dizer muito a respeito dos enigmas que habitam a trágica experiência humana.

Ao se perguntar sobre a origem do sofrimento e dos sintomas que insistem em se repetir em nossas vidas — inclusive na dele próprio — Freud, mais interessado na estrutura dos fenômenos que em suas aparências, descobre que somos seres eminentemente desejantes, quer dizer, que não somos, como animais, orientados pela necessidade.

Certo, outros já haviam dito isso. O filósofo Espinoza, no século XVII, já afirmava que o desejo era a essência do homem. Mas somente Freud, mais tarde, relacionará o desejo ao inconsciente e suas leis. Não só isso como revelará alto tão inusitado quanto intragável para a humanidade, quer dizer, que o desejo humano tem sua origem, sua arqué, como diziam os gregos, em um desejo muito específico, que é o desejo que podemos chamar de incestuoso.

Não foi fácil para o jovem Freud admitir isso, mas a clínica, o relato de seus pacientes, de seus sonhos e queixas, deixavam entrever, nas entrelinhas ou confessadamente, que o primeiro objeto do amor humano são as primeiras figuras que o acolhem, e que a estas dirigimos nossos apelos, nossos impulsos que clamam por uma satisfação.

Uma criança muito pequena, por exemplo, pode assim exprimir esse desejo: “Mãe, você não vê que eu preciso do teu corpo para me acalmar?”.

Foi com dificuldade que Freud reconhece que o bebê não nasce com a marca da proibição das figuras parentais como objetos interditados, proibidos, e que esta interdição, portanto, dependerá da transmissão de uma lei tão antiga quanto a humanidade, aquela que proíbe o incesto, e sem a qual, aliás, não há humanidade, civilização. É no ponto, pois, onde o desejo incestuoso é proibido que um sujeito pode vir a desejar outra coisa.

Isso é o que está em jogo no chamado “Complexo de Édipo”. Assim Freud denominou o drama Familiar — seja lá como estiver constituída uma família — a partir do qual a criança, ao construir uma narrativa inconsciente, desenha o seu lugar e de seus objetos, mas à custa de precisar renunciar às figuras parentais como objetos desejados.

Mas o problema se coloca na medida em que a criança, ela também é, primordialmente, objeto no e do desejo dos pais. O que é necessário, inclusive, para que venha ao mundo. Contudo, os pais terão que fazer o luto desta criança como objeto amado, ou mesmo odiado, como objeto de seus caprichos para que em algum momento ela possa deles se separar efetivamente e viver sua própria vida com um mínimo de dignidade e independência.

A psicanálise, pois, revela que a vida humana depende dos laços entre as gerações, mas que estes somente se sustentam quando a possibilidade de uma separação se inscrever e faz efeito na realidade.

Entretanto, o que temos assistido em nossa atualidade sejam talvez os efeitos do fato de que nada, ou quase nada, no tecido social tem colaborado no sentido de que aí sejam reafirmadas as leis que impediriam que as relações incestuosas aconteçam nas famílias.

Ao contrário, o que se tem visto é que formas disfarçadas do incesto, hoje, são socialmente aceitas. Digo com isso que muitas famílias que se pode dizer incestuosas têm tomado consistência no seio de nossa sociedade contemporânea, simplesmente porque passamos de um tempo onde “tudo era proibido” a um outro onde “tudo é permitido”.

O que se perde assim é o meio termo que limitaria os excessos, os abusos responsáveis, sim, por verdadeiras patologias já presentes na infância. Mas ao invés de colocar-se em questão, a saída, melhor, o beco sem saída que busca hoje a sociedade é a assustadora medicalização da infância.

Leia também: A PSICANÁLISE, O QUE É ISSO? – III

Notas de Rodapé

*Este artigo foi escrito por DARLENE TRONQUOY. Psicanalista Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória. Professora. E-mail: darlene_angelo@terra.com.br. E foi retirado integralmente do Jornal A TRIBUNA, versão impressa, Coluna Cidades, p. 12, publicado em 13 de Março de 2016, Vitória, ES.

 

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