Relações Amorosas: a difícil arte de arrumar um namorado depois de muitos anos… longos anos

Escrito por André Nascimento

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Após ter inaugurado aqui no Escritos Psicanalíticos o Espaço Mulher — um espaço de diálogo constante com as mulheres, afim de compartilhar vivências, construir saberes, que possam ser úteis a outras mulheres — tive o privilégio de conversar com uma das leitoras do Blog que, não só pediu para que eu abordasse este tema mas, também, confidenciou a mim parte de sua vida amorosa. Aliás, a ela, em especial, dedico este texto.

Recortei alguns trechos de nossa conversa, para dar base a essa discussão.

— “(…) Era mais que um namoro…”, escreve. “Moramos juntos 6* anos. Depois que o nosso relacionamento chegou ao fim, nunca mais tive alguém sério. Só casinhos. Eu idealizei ele por anos. Depois, sempre desejei o que não podia ter… Meu professor de Matemática* e até um Padre!”.

“Porque você fica desejando o que não pode ter?”, perguntei.

“Boa pergunta. Para não ter! (…) Acha que amamos apenas uma vez? (…) Pode ser medo… Me fechei. Cheguei a ficar anos sozinha…”.

Poder ler essas palavras, me permitiu traçar 3 eixos que pretendo articular com as relações amorosas: a idealização, o desejo e o medo.

É fundamental dizer que todos que se dispõem a um relacionamento estão sujeitos a vivenciar, em menor ou maior grau, tais questões, em algum momento de suas vidas. Entretanto, nada garante que irão vivenciar e expressar tais dilemas da mesma maneira.

1. Idealização

Você conhece uma pessoa e, sem perceber, supervaloriza algumas características e nega as demais que lhe desagradam ou lhe causam desconforto. “Nesse jogo de extremos, o desprazeroso, o desconfortável, o estranho acabam por sucumbir…” [1].

Você diz estar apaixonado, projeta ou transfere, sobre a pessoa — alvo de sua paixão — as idealizações que construiu no decorrer da sua infância.

Mas, não é só isso. Você também tem a ilusão de que nesta pessoa, está o segredo de tudo o que falta à você, à sua vida.

Finalmente, você encontrou aquele ser que “arrebata o coração, o motivo do seu sorriso, da sua alegria”. Duas vidas que agora são uma.

Vive-se uma ilusão de completude. Tal ilusão é alimentada pela ideia de que o parceiro pode preencher o vazio da falta, que é constituinte de nossa existência.

“Que lindo, você é simplesmente fantástico. Alguém igual a você é, praticamente, impossível de encontrar, você chegou já me conquistando e me fez sentir como é doce o sabor da paixão, quando vem acompanhada com a verdade. À você entreguei meu coração, meu sorriso, minha felicidade.Com você, meu amor, é como se eu estivesse no paraíso a todo momento”.

Tudo passa ser motivo de “extrema alegria e felicidade”. E você até posta fotos no Facebook dizendo: “em casa, esperando o amor…”

No início de uma relação amorosa, acredita-se que com o parceiro, tudo se tem, sem ele, nada se tem e nada tem sentido.

Estamos no terreno do “amor”, do “meu príncipe”, “paixão”, “benzinho”, “meu bebê”…

Interessante essa expressão “meu bebê”… Na paixão amorosa, revive-se a ilusão da completude infantil, que fazia da mãe tudo para a criança, e da criança tudo para sua mãe.

“Estou muito feliz. Sinto uma felicidade sem tamanho… Você não sabe o que é ter você na minha vida! Eu só quero você”.

“As horas são eternas ao teu lado…”

“Eu poderia segurar mais as minhas emoções e minha vontade de gritar para o mundo todo ouvir… Mas não vou gritar, nem subir nos telhados, vou só escrever aqui: Eu te amo! Eu te amo e vou te provar isso todos os dias… Vou te trazer motivos para sorrir, vou cuidar de você com todo o amor e carinho que eu puder te oferecer, eu vou te fazer feliz!”.

“Eu te amo hoje, amanhã e depois…. Eu hei de te amar por toda a minha vida… Antes de te encontrar, o mundo não tinha cor… “

“Essa música é pra emocionar um pouco mais alguém especial que desde que apareceu na minha vida, mudou tudo e tem me feito feliz desde então”.

“E você relembra as conversas das noites quando não estamos fisicamente juntos: você chegou na minha vida trazendo um felicidade incrível que desejo muito que dure para sempre. E o que mais desejo agora é te fazer muito feliz”.

O que ocorre na relação amorosa é uma tentativa ilusória de querer recuperar, em uma união fusional com a pessoa amada, aquele estado de bem-aventurança psíquica e de completude, para todo o sempre perdido — e que de fato nunca existiu senão nas fantasias das crianças.

O apaixonado quer, à todo custo, reconquistar o (suposto) paraíso perdido de sua infância.

Com a convivência, essas idealizações vão sendo atravessadas pela realidade, e passamos a ver a pessoa como ela realmente é.

Agora, o amante, vez e outra, queixa-se que o amado “está diferente”, “você mudou”, “mostrou quem realmente é”. Por vezes, sente-se “enganado”, “traído”.

É a hora que as crises, desentendimentos, brigas ficam mais constantes e intensas. O amado já não me completa mais como completava antes. Reivindica-se o investimento, todo o amor que foi dado e prometido.

Desfeita parte da ilusão, resta saber se é possível continuar “amando” esta pessoa, e aceitá-la do jeito que ela é, e não do que jeito que você achava que ela era. Ou, partir para outra!

A devastação, a sensação de buraco no peito ao acordar de manhã, que muitas pessoas sentem com o fim da relação, evidencia o real, a falta. “Há, literalmente, um buraco em mim, e ele é real. Ele existe!”.

Em resumo, podemos dizer que há três momentos no desenvolvimento de um amor maduro: paixão, desilusão e aceitação da realidade. No primeiro momento, o amado é alguém maravilhoso, não tem defeitos, ninguém é melhor do que ele, está terrivelmente idealizado, quase endeusado. O amado fica engrandecido e, em troca, a pessoa vai diminuindo, a ponto de não poder entender como alguém tão perfeito pode ter reparado nela. No segundo momento, começamos a perceber algumas imperfeições na pessoa amada. Vemos que em determinadas situações seu caráter não é o melhor, que em algumas coisas se engana, e esses traços, que já existiam, mas que a paixão nos impedia de perceber, geram dor e desilusão; O que seria então o Amor? [O verdadeiro amor?] O Amor seria um terceiro momento no qual vemos o outro como ele é. Desfrutamos de suas virtudes e aceitamos suas faltas. E, apesar delas, nós o aceitamos e podemos ser felizes ao seu lado. Só aí podemos falar de um amor maduro com possibilidades de se projetar no tempo de uma maneira saudável. A “chave” do amor está em reconhecer os defeitos do outro e perguntar-se sinceramente se podemos tolerá-los sem ficar o tempo todo reclamando, e ser feliz apesar deles (Gabriel Rolón)”.

2. Desejo

Você diz ter o desejo de encontrar um parceiro. E busca, sem perceber, por alguém que possua determinado caráter, traços físicos, e com hábitos de vida similares ao seu.

Para ser mais específico, lembro da fala de uma colega: “gosto de morenos, tem que ser alguém gostoso, carinhoso, macho, que goste de sexo, de mim, que não tenha muitos amigos, curta sertanejo, tenha uma boa educação e formação e paciência comigo…”.

O ser humano, às vezes, prega algumas peças em si mesmo.

Há quem seja marcado por uma insatisfação: nunca estão satisfeitos com nada. Logo, ninguém é capaz de se encaixar em suas exigências, em seu perfil ideal. Será uma busca de completude? Da cara-metade? É claro que fazem isso sem se darem conta.

Outras vezes, esta insatisfação pode ser um mecanismo que o mantêm desejando. Troca-se, incessantemente, de objeto para continuar a busca (pela completude?).

É claro que a fragilidade dos laços amorosos, que vivemos em nossa sociedade ocidental, também tem forte influência nas relações amorosas. Afinal, em terras neoliberais, você tem que ter só prazer, só alegria. Você precisa consumir (e se consumir), esconder qualquer tristeza e eliminar o desprazer. Logo, qualquer possibilidade de sofrimento, de DR, ou o mínimo de desconforto, é motivo para “partir para outra”. Como bem disse um amigo uma vez: “se não houver troca, troque”. E, por incrível que pareça, dias depois, foi ele que foi “trocado” por outro cara.

Há aqueles que adiam, não querem se comprometer, para continuar desejando: “um dia alguém entrará na sua vida e te fará entender por que nunca deu certo com ninguém antes…”.

Você quer o que deseja?

Às vezes, afastamos o que queremos para continuarmos a desejar…

Bem vindo à complexa (e paradoxal) humanidade!

3. Medo

— “Eu me apavorei. Desde que eu “voltei à vida”, eu não tive muita experiência com sentimentos. E quando ela me beijou…”.

— “Parecia que você foi beijada pela primeira vez…”.

— “Achei aterrorizante! É isso que é uma droga nos sentimentos, você percebe o quanto pode ferir alguém, ou ser ferido”.

Pois é, quando um relacionamento acaba, a gente morre. Parte de nós, morre. É como perder um braço ou uma perna. Mas, a outra parte fica, em frangalhos, mas fica. O horror da devastação. E você precisa de um tempo para se curar, se remendar, para então partir para outra. Investir sua energia novamente em uma relação a dois. Ou não. Você também pode se isolar, se fechar para mundo, para o amor. Por muitos anos… longos anos…

O encontro com o outro sexo é mesmo uma etapa aterrorizante. Você está, literalmente, nu, em frente a uma pessoa que não conhece direito. E precisa fazer alguma coisa. É por isso que a primeira relação sexual pode ser tão fantasiosa e, às vezes, difícil para algumas pessoas.

Tem que ter entrega, tem que ser bom e prazeroso para ambos. Mas, nem sempre é assim. Faz diferença a maneira como um toca o outro, pois é o toque, o olhar, a voz que constroem todo o erotismo. A começar pela relação da mãe com o bebê. Anos mais tarde, reeditamos esse Erotismo com o parceiro.

Defrontar-se com o outro sexo é, sem dúvida, deparar-se com a falta. Em ambos falta algo. O homem tem o pênis mas lhe falta um lugar para “aconchegá-lo”. A mulher tem, literalmente, um buraco que é o “receptáculo” do órgão masculino ereto. Um precisa do outro para a relação acontecer. Ninguém vive só de masturbação. Obviamente, que estou falando de uma relação heterossexual.

De modo amplo, a relação sexual só acontece se houver uma falta inscrita dos dois lados, psiquicamente, no próprio corpo.

Me ocorreu neste momento a lembrança de uma conversa com um colega, onde ele conta a sua dificuldade em ficar com pessoas, consideradas por ele, “bonitas” e “saradas”. Obviamente, são pessoas consideradas, por ele, perfeitas. Um ideal de corpo e beleza, inclusive para ele. O interessante é que no momento da relação sexual, ele não conseguia manter o pênis ereto. E por mais que a outra pessoa fizesse, “o pênis dele não subia, nem por reza!”. “Que vergonha”, me diz. Neste momento me ocorreu: “ora, se você está se relacionando com alguém que para você é perfeito, não há a menor chance de ocorrer uma relação sexual, pois onde há perfeição não há falta, não há espaço para você, literalmente, entrar…” Ele riu, ficou sem graça, muito sem graça, mas, também, ficou aliviado, e disse que essa era uma coisa que ele nunca havia pensado antes.

Minutos depois, ele me narra uma outra cena íntima com esta mesma pessoa. Ela pediu para que ele introduzisse os dedos no ânus dela. Começando por um, e depois enfiando os demais, para ver “até onde ela aguentava”. O curioso desta cena, é o que ele me diz ter sentido depois da tal prática (esta modalidade de sexo é chamada fisting) “era como se ele estivesse cavando, procurando alguma coisa lá dentro. A sensação era estranha. Era gosmento. Nojento”. Quando ele disse, cavando, eu perguntei: o que você estava cavando? Ele não soube responder, porque para ele, ele só estava atendendo a um pedido. Mas, ficou claro, pelo menos para mim, que ele estava cavando uma falta, no real do corpo da pessoa com quem se deitara.

Olha que interessante: ele me conta ainda que, no “momento que ‘tava’ enfiando a mão ‘lá’, ele teve uma ereção muito intensa”. Obviamente, foi no momento em que a falta pôde comparecer, ou melhor, foi cavada por ele no real do corpo da outra pessoa, que o desejo emergiu, e o seu pênis se manteve ereto.

Às vezes, evitamos nos relacionar com alguém pois não suportamos os enigmas do sexo, ou mesmo a falta que está em jogo em toda relação sexual.

Aproximar-se intimamente de alguém, na cama ou fora dela, é mostrar-se como se é. É uma batalha contra si mesmo, onde você tem que mostrar que não sabe tudo, que não pode tudo, que não dá conta de tudo: você está suscetível a perder o desejo, o tesão, a ereção.

Você tem que por as cartas na mesa, se despir. Literalmente, chega um momento que você precisa ficar nu, e suportar isso. E entregar-se a alguém que você não sabe como está te lendo, interpretando os seus gestos e palavras.

A qualquer momento você pode sair ferido, ou ferir alguém.  Isto é inevitável.

O tempo passou e você ainda permanece fechado. O coração ainda está “em manutenção”. Você está cheio de fantasmas do relacionamento passado e está numa areia movediça de medo. Quaisquer sinais de sentimento, de carinho, já é motivo para você afastar as pessoas. Você não pode se apegar, não pode passar por todo aquele sofrimento novamente. Não pode abrir mão da sua vida de novo. Entretanto, você já naufragou, antes do barco sair, a relação terminou.

É um medo que serve para te preservar. Preservar o pouco do seu eu que ficou inteiro.

Sim. Uma parte foi perdida mas, ainda há restos que podem lhe servir de material para construir um novo eu. Um eu mais livre, mais leve.

Você não pode desistir de si mesmo, não pode se deixar desistir do amor. Permita-se construir um amor menos sofrido, menos endeusado, menos idealizado.

Precisamos, de uma vez por todas, banir esse “amor fantasioso”, pois só assim veremos o “amor” como ele realmente é. E poderemos amar, mesmo assim.

Mais cedo ou mais tarde, entre uma overdose e outra, você pode até andar por aí, vomitando amor. Mas, e daí!? Por mais que o amor tente obturar a falta e, de fato, ele a obtura por algum tempo, a falta persiste. E que bom que persiste, pois o desejo é a falta em função!

 


Referências Bibliográficas

Zeferino Rocha. (2012). O papel da ilusão na psicanálise freudiana. Ágora (Rio de Janeiro) v. XV n. 2 jul/dez, pp. 259-271. disponível em http://www.scielo.br/pdf/agora/v15n2/a04v15n2.pdf


Notas de Rodapé

[1] Entre o fascínio e o horror: um estranhamento na clínica mãe e bebê.Estilos clin. [online]. 2000, vol.5, n.8, pp. 64-79. ISSN 1415-7128.

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