A PSICANÁLISE, O QUE É ISSO? – VII, E O SONHO?

Escrito por Darlene Tronquoy

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O que seriam estes esquisitos visitantes: imagens, impressões, sensações, sons, invasões que reconheço muitas vezes como estranhamente familiares, vindas como supostamente capazes de prever futuro ou, ainda, de me recordar o passado; que me trazem alegria ou me deixam um gosto amargo na boca quando desperto? O sonho, afinal, o que é isso?

Obra publicada em 1900, marco da fundação da psicanálise, Die Traumdeutung, A Interpretação dos Sonhos, em português, jamais deixou de ser, para o seu criador, Sigmund Freud, um texto de referência em sua clínica. Uma vez mais foi a clínica, a escuta de seus pacientes, que indicou a Freud a importância dos sonhos, não somente para a vida, mas para a cura no sentido analítico deste termo.

Sempre intrigado e se deixando atravessar pelas novidades trazias por aqueles que clamavam pela escuta de seu sofrimento, Freud considera seus sonhos como jamais alguém havia feito antes. Sua nova posição exigiu também inusitadas teorias a respeito do que seriam esses verdadeiros patchworks, colagens/montagens, que habitam, com frequência, queiramos ou não, nossos sono, nossas noites.

O homem se interessa pelos sonhos desde a Antiguidade. O filósofo Aristóteles talvez tenha sido o primeiro a considerá-los como objeto de estudos psicológicos, no entanto, ainda que não os tomasse como sendo de natureza divina, como acreditavam os gregos antigos, supunha que fossem “demoníacos”, porque demoníaca era, para ele, a natureza humana.

Mais adiante na História, a Idade Média manteve a crença em sua origem divina. Os, modernos, por sua vez, tomavam-no como um fenômeno psíquico, mas tão simplesmente como um apêndice dos estados da consciência.

Foi ainda na Modernidade que Freud deixou espantados seus contemporâneos ao estudar os sonhos como um produto da mente, mas não da consciência. Para ele, todo sonho “se revela como uma estrutura psíquica inconsciente que tem um significado e que pode ser inserido como um ponto designável nas atividades mentais da vida de vigília”. Isso dito e reconhecido, Freud esforçou-se, a partir de seus próprios sonhos, e de seus analisandos, para elucidar os processos responsáveis por sua estranheza e obscuridade. E foi assim, interpretando os sonhos, que Freud nos revelará as leis de funcionamento do próprio inconsciente e de suas outras formações tais como os sintomas, os chistes e os atos falhos.

O revelado, contudo, nada tinha de muito agradável. Os sonhos mostraram a Freud que nossa vida psíquica não é regida somente pelas leis da realidade, da moral e dos princípios. Muito ao contrário, nossa experiência subjetiva, inconsciente, descobre Freud, é plena de impulsos proibidos, de desejos incestuosos e de morte que a dita “educação” não faz mais que tentar limitar, ordenar, proibir; o que consegue, mas em parte, pois tais impulsos continuam ativos em nosso inconsciente buscando intensamente uma satisfação, quer dizer, continuam intentando uma ação, um agir que concretize sua realização.

O próprio Freud, aterrorizado com sua descoberta, foi levado a supor que tal como a cultura exerce um impedimento à satisfação destes impulsos proibidos, nosso psiquismo, tendo internalizado essa censura, nos impede de realizar plenamente nossos desejos proibidos, contudo, nos sonhos, tudo é possível, mas somente se tais desejos – isso: o sonho é a realização de um desejo! – forem, no entanto, deslocados, condensados, travestidos em fantásticas, angustiantes e maravilhosas imagens! Sonhar, pois, é preciso, diria talvez o poeta Fernando Passoa.

Notas de Rodapé

Este texto foi retirado integralmente do Jornal A Tribuna. Texto publicado hoje, 27/03/2016. Escrito por DARLENE TRONQUOY. Psicanalista Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória, Professora. E-mail: darlene_angelo@terra.com.br

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