Lacan e o Pensamento Chines

Escrito por André Nascimento

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Hoje, gostaria de começar este texto com um ensinamento essencial chinês, já que pretendo apresentar a cada um de vocês alguns recortes, extraídos do livro Lacan, o escrito, a imagem, que falam da prática psicanalítica, em especial, da prática psicanalítica lacaniana, e a filosofia chinesa.

O Segredo do Crescimento[*]

Um bom cozinheiro muda de faca uma vez por ano, porque sabe trinchar, enquanto um cozinheiro medíocre tem que mudar de faca cada mês, porque só sabe cortar. Pois eu já tenho esta minha faca há dezenove anos e trinchei milhares de bois com ela. E, no entanto, a lâmina está tão fresca como quando saiu da pedra de afiar. Há espaços entre as articulações. E a lâmina da faca, que quase não tem espessura, tem mais que espaço para passar através desses espaços. E é por isso que, passados dezenove anos, a minha lâmina está tão afiada como sempre.

É verdade que há articulações mais difíceis. Quando as sinto aproximar, avalio bem a articulação que surgiu e olho-a com cuidado, mantendo sempre os olhos no que faço e trabalhando devagar. E então, com um movimento muito suave da faca, trincho todo o boi em dois. E ele desmancha-se como um torrão de terra ao cair no chão. Aí, retiro a faca e fico parado, com a sensação de ter conseguido algo de muito importante. Depois, limpo a lâmina e pouso a faca.

— É isso!, disse o príncipe. O meu cozinheiro mostrou-me como devo viver a minha vida!

Comentário:

Há um modo natural de fazer as coisas, há soluções naturais para os problemas. Se agirmos de acordo com a natureza das coisas – o Tao -, conseguimos fazer tudo melhor e sem que isso nos crie nenhum problema. Continuaremos sempre frescos e afiados como a lâmina da faca do cozinheiro do príncipe Wen Hui.

Perante qualquer problema, devemos aceitar que as coisas sejam como são sem desejar que a situação fosse outra, diferente do que na realidade é. Porque isso só iria criar resistência e tensão. Devemos prestar atenção à ordem natural das coisas e trabalhar com ela em vez de contra ela. E veremos que o trabalho prossegue mais rápida e facilmente se pararmos de “tentar”, se pararmos de pôr demasiado esforço extra, se pararmos de procurar resultados rápidos. Há que simplesmente “dar uma ajuda” para que as soluções naturais ocorram.

Não sei ao certo dizer se Lacan teve a oportunidade de ler tal ensinamento mas, este foi um grande achado em minhas pesquisas a respeito de tal filosofia.

Sobre Lacan, destaco uma característica interessante:

Jacques Lacan se deixa interpretar pelos textos que ele interroga“[1].

Por isso, não poderia abordar tal tema sem trazer algum escrito chinês.

Outro ponto interessante sobre Lacan:

“Lacan atribuía grande importância a tudo o que dizia respeito às línguas em geral e, particularmente, à língua francesa. Para ele, a poesia e a prosa francesa tinham uma importância capital. (…) Lacan concebia que a língua tem seu próprio movimento, ou seja, a língua é geradora de pensamento“[2].

Quanto a isso, não há o que contestar….

Interessante a maneira como os que tiveram a oportunidade de conhecer, acompanhar de perto o seu trabalho ou mesmo ler as suas obras, falam da relação de Lacan com aqueles à sua volta. Como bem ilustra a fala de Milner:

Lacan se endereçava aos sujeitos tratando-os como sujeitos, e não como pacientes, como são geralmente chamados. O que vi nessas apresentações de doentes, diz, não era da ordem da piedade nem da simpatia, no sentido de experimentarmos as mesmas paixões que o outro; o que vi foi o que Descartes chamava de ‘generosidade’. Praticar a psicanálise, mas sem piedade ou crueldade, praticá-la sem que ela seja da ordem da compaixão, visto que isso implicaria a possibilidade do ódio. Que a psicanálise esteja do lado da generosidade, a única a poder barrar a compaixão e o seu avesso, a crueldade sem limites. Para mim, isso é uma espécie de baixo contínuo que acompanha a sinfonia lacaniana”[3].

Como é possível perceber no trecho destacado acima…

“…Lacan colocou no centro de suas interrogações a questão do caráter sagrado da dor humano. Para ele, a grandeza da psicanálise está no fato de nunca ter feito da dor humana um instrumento de poder, questão que está, aliás, no horizonte de toda a obra de Lacan” [4].

Não pretendo fazer uma análise minuciosa sobre os recortes aqui apresentados. Deixo esta tarefa a cargo daqueles que estão lendo ou ouvindo essas palavras. Vamos direto ao ponto:

Ora, mas o que teria haver a filosofia chinesa com a psicanálise?

É de suma importância que, aqueles que se interessam pela psicanálise lacaniana tenham acesso a seguinte passagem sobre Lacan e o pensamento chinês:

“À maneira segundo a qual os chineses conceberam a Criação e o curso do Universo, que designamos, em chinês, pela palavra Tao, que quer dizer o caminho. Acontece que, verbalmente, a palavra Tao, quer dizer também “falar”. De modo que, se nos permitirmos um jogo fônico em francês, podemos dizer que o Tao é dotado de um duplo sentido: o Caminho e a Voz. O Tao significa, portanto, uma ordem da fala. Vê-se, nesse ponto, o que pôde interessar a Lacan”[5].

Que nos debrucemos por mais este tema, que possamos ir em busca das respostas para as perguntas que, com sorte, aparecerão após a leitura desse texto. Que possamos construir o nosso próprio saber, o nosso próprio caminho.

E, por falar em caminho… Encerro este trabalho com outro ensinamento essencial chinês:

O Caminhar Feliz [*]

Cada pessoa é o que devia ser e pode viver com igual felicidade enquanto viver ajustada à sua própria natureza. Não há pessoas que sejam superiores e outras inferiores quanto a isso.

Há pessoas cuja natureza os torna aptos a assumir cargos de chefia, outras cuja natureza as faz serem bons negociantes, bons artesãos ou bons funcionários. Há quem tenha vocação para dedicar a sua vida a ajudar os outros e quem tenha jeito para pensar ou para investigar tudo.

Desde que respeitem a sua natureza, todas as pessoas podem fazer o que têm a fazer, com igual felicidade e sucesso no que fizerem.

Mas existe um limite próprio para cada uma a partir do qual tudo mais que possa ser desejado apenas levará a lamentações. Quem quer mais do que lhe é dado sofre inutilmente sem que ninguém o esteja a castigar. Quando nos prendemos demasiado às coisas, sentimos perdas e ganhos; e a alegria e o sofrimento são o resultado de perdas e ganhos. Só quem larga essas amarras se pode sentir verdadeiramente feliz. A única liberdade a que os homens podem aspirar tem que estar inserida dentro dos limites naturais da sua condição humana e da sua natureza. Só devemos tentar fazer o que podemos realmente fazer. A nossa liberdade de acção tem limites.

Quem não gosta do que tem, porque pensa que podia ter melhor, é desagradecido e é estúpido. Abdica da única liberdade que um Homem pode ter para optar em vez disso pela ansiedade constante de tentar ter o que nunca vai ter. Quem não gosta do que é, acabará por passar a sua vida frustrado, tentando ser o que nunca vai ser.

Aqueles que aceitam o curso natural das coisas ficam sempre tranquilos quer nas ocasiões alegres quer nas tristes. Quem apenas gosta da felicidade, sofrerá com a tristeza. Quem aceita com tranquilidade a inevitabilidade da morte, sabe tirar melhor proveito da vida. De que serve não a aceitar? Querer ter o que se não pode ter é ficar preso para sempre. Quem apenas gosta da vida, sofrerá com a morte. Quem apenas gosta do poder, sofrerá com a sua perda.

Referências Bibliográficas

Aubert, J. Cheng, F., Milner J-C, Regnault, F. e Wajcman, G. (2012). Lacan, o escrito, a imagem. Belo Horizonte: Autêntica Editora.

Notas de Rodapé

[1] Aubert, J. Cheng, F., Milner J-C, Regnault, F. e Wajcman, G. (2012). Lacan, o escrito, a imagem. Belo Horizonte: Autêntica Editora. p. 09.

[2] Aubert, J. Cheng, F., Milner J-C, Regnault, F. e Wajcman, G. (2012). Lacan, o escrito, a imagem. Belo Horizonte: Autêntica Editora. p. 11

[3] Aubert, J. Cheng, F., Milner J-C, Regnault, F. e Wajcman, G. (2012). Lacan, o escrito, a imagem. Belo Horizonte: Autêntica Editora. p. 12.

[4] Aubert, J. Cheng, F., Milner J-C, Regnault, F. e Wajcman, G. (2012). Lacan, o escrito, a imagem. Belo Horizonte: Autêntica Editora. p. 12.

[5] Aubert, J. Cheng, F., Milner J-C, Regnault, F. e Wajcman, G. (2012). Lacan, o escrito, a imagem. Belo Horizonte: Autêntica Editora. p. 165.

[*] Chuang Tzu foi um famoso filósofo e suposto poeta taoista (daoista) chinês do século IV a.C. Seu nome significa literalmente “Mestre Zhuang” e é usado também referindo-se a uma coletânea textos supostamente seus, que incluem prosa e poesia. Sua filosofia foi muito influente no desenvolvimento do budismo zen, que evoluiu incorporando seus ensinamentos.  Do livro: Chuang Tzu: ensinamentos essenciais. Traduzido e organizado por Sam Hamill e J. P. Seaton. São Paulo. Cultrix. 2005. p. 15. (retirado de https://pt.wikipedia.org/wiki/Chuang-Tzu#cite_note-5).

 

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Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog Eu Tava Aqui Pensando, Escritos Psicanalíticos e A Vida e a Psicanálise. Dúvidas, críticas, sugestões? Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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