O amor líquido de Bauman

Escrito por Paulo Silas Filho

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Os laços humanos possuem uma base sólida? Há algo de concreto que sustente a condição humanitária na sociedade? Existe algo intrinsecamente palpável nos relacionamentos atuais? Os suportes das relações humanas são tangíveis?

Esses e vários outros questionamentos são feitos e explanados no decorrer de “Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos”, do sociólogo Zygmunt Bauman. A resposta é adiantada no próprio título e no subtítulo da obra, vez que na sociedade líquida atual os laços humanos estão cada vez mais frágeis.

“Líquido” é um termo que ganhou destaque dado o uso característico utilizado por Bauman em suas obras. Na sociedade atual, onde o dinamismo de todas as relações se encontra num nível absurdo de rapidez e fluidez, líquido é um termo que se adequa e se encaixa muito bem para definir a ausência de qualquer base mais profunda no sustentáculo daquilo que rege, envolve e é produzido pela sociedade. No amor, não sendo diferente, a liquidez também se faz presente atualmente.

No livro em que a análise da fragilidade dos laços humanos é realizada por Bauman, o autor conduz o leitor por um trilhar concatenado: parte do unitário, do amor por si mesmo, numa direção cada vez mais abrangente, o amor fraternal, pelo companheiro, pelo familiar, pelo vizinho, pelo próximo, para que assim, aos poucos, possa chegar ao nível da sociedade que vive num mundo fortemente globalizado – a atual. As rupturas de base em todos os níveis da relação do homem para com o próximo são expostas de uma forma amargamente magnífica por Bauman. O “relacionar-se com o outro” é dissecado pelo sociólogo, quanto este apresenta a inconsistência no suporte dos laços afetivos, seja em que nível for. O “apaixonar-se e desapaixonar-se” se tornou algo frívolo, sem um sentido, mesmo quando aparentemente o sentido se faz presente. E não se diz num discurso pró ou contra uma união estável e duradoura (no sentido da união pelo amor no viés da paixão), vez que a ausência de um pilar concreto sobre o qual se estabelece determinado vínculo acaba inexistindo em praticamente todo o tipo de relacionamento que ocorra pelo desejo. A ausência de sentido se faz presente mesmo quando se discursa que ele existe. Uma condição quebrantada mais profunda acaba sempre aparecendo.

Partindo de tal análise em “Amor Líquido”, Bauman segue demonstrando que em cada nível e em cada tipo de relação há essa frivolidade que paira sobre os envolvidos. O amor para Bauman, portanto, ganha um sentido amplo, aberto, aplicável às diversas formas de relação: a de desejo, a de paixão, a fraterna, a humanitária, a de vizinhança, a de agrupamento e várias outras. O mundo atual, líquido, reflete sua fragilidade de conceitos, de costumes, de ideais estabelecidos e de ausência de uma abstração em concreto que delimite a estrutura do corpo social nas relações humanas. Daí a insegurança e os conflitos que acarretam na frouxidão dos laços humanos.

O sociólogo dá diversos exemplos concretos dessa análise: o tratamento concedido aos estrangeiros refugiados (o outro sempre é um intruso, portanto, não é bem recebido), a ausência de um contato efetivo com os membros de uma mesma cidade (estranhos que são obrigados a conviver num mesmo espaço regional), a inexistência de uma ligação concreta entre dois indivíduos que se juntam dizendo apaixonados (não se consegue explicar o motivo da união), enfim, a dificuldade em amar o próximo é exposta por Bauman, resultando num convívio destruído.

“Amor Líquido” é um livro pontual que conversa com o leitor em uma linguagem aberta e ao mesmo tempo específica. A leitura flui. A mensagem transmitida convence, fazendo com que o leitor se veja parando para refletir sobre as exposições por diversas vezes. Vale a pena cada página lida.

Arrematando aqui como faz Bauman na mencionada obra, as palavras do próprio autor: “Na era da globalização, a causa e a política da humanidade compartilhada enfrentam a mais decisiva de todas as fases que já atravessaram em sua longa história”.

Notas de Rodapé

Esta resenha, escrita por  Paulo Silas Filho, em 28/03/2016, foi retirada integralmente do site Literatortura.

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André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog Eu Tava Aqui Pensando, Escritos Psicanalíticos e A Vida e a Psicanálise. Dúvidas, críticas, sugestões? Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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