Elisabeth Roudinesco para compreender Sigmund Freud: em seu tempo e no nosso

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“Freud não inventou que os sonhos têm uma significação, não inventou nada de particular, mas, de repente, ele os interpreta de outra forma. A novidade é essa. Sobre a sexualidade, a mesma coisa. Ele não é preditivo, não é como o adivinho Artemidoro, não é como os tratados de neurologia… É, de saída, uma interpretação.”

Elisabeth Roudinesco, historiadora da psicanálise e psicanalista francesa, é professora na École Pratique des Hautes Études em Paris. Colaboradora do do jornal Le Monde, já publicou diversas obras, como A Família em Desordem e Dicionário de Psicanálise. Seu último trabalho é a biografia Sigmund Freud – em Seu Tempo e no Nosso, que será lançada no Brasil pela Zahar em agosto. Em entrevista à Folha, discute as críticas ao pensamento do pai da psicanálise e comenta como foi a pesquisa para compor a biografia de Freud.

Por que uma biografia de Freud?
Elizabeth Roudinesco: Não existia biografia séria de Freud desde a de Peter Gay, de 1988. Arquivos novos foram abertos em Washington, e eu achava necessária uma abordagem de Freud diferente da que os historiadores americanos fizeram.

Você ficou muito tempo em Washington?
Elizabeth Roudinesco: Uma semana. Quando a gente vai a Washington consultar os arquivos de Freud, precisa saber o que procurar. Se não, fica meses lá. Estamos numa época em que imperam a rejeição de Freud, os rumores, a sexualidade dele, sua vida dita escandalosa. Queria avaliar o que é verdade e o que não é.

Qual o papel da escrita na obra de Freud e na difusão dela?
Elizabeth Roudinesco: Freud escrevia magnificamente, mas nós esquecemos isso, por causa das más traduções. Por outro lado, atribuíram a ele um apego aos conceitos que até existem, mas esqueceram que, ao contrário de Lacan, cuja escrita é complexa, Freud escrevia de maneira muito simples. Trata-se de um literato.

Você o apresenta como um ser da luz e da sombra. A originalidade da obra de Freud está ligada a esse caráter paradoxal?
Elizabeth Roudinesco: No livro, falo de todas as luzes, as alemãs, as francesas e, depois, as luzes sombrias. Ao contrário dos pensadores reacionários, para os quais o homem é horrível e é preciso reprimir os maus instintos, Freud considera que é preciso sublimá-los e que a lei e a civilização têm papel importante na maneira de controlar as pulsões. Ele é também um homem da belle époque, acredita que a felicidade seria novamente possível na Terra.

E a relação de Freud com os sonhos?
Elizabeth Roudinesco: Tratados de neurologia sobre os sonhos existem desde a Antiguidade. Freud não inventou que os sonhos têm uma significação, não inventou nada de particular, mas, de repente, ele os interpreta de outra forma. A novidade é essa. Sobre a sexualidade, a mesma coisa. Ele não é preditivo, não é como o adivinho Artemidoro, não é como os tratados de neurologia… É, de saída, uma interpretação.

E o livro A Interpretação dos Sonhos [de 1900]?
Elizabeth Roudinesco: Trata-se de uma formidável ego-história. É um poema inspirado em Dante e Virgílio. Freud se debruça sobre a própria história e sobre a história da humanidade. Foi nessa época que ele teve uma ideia genial: a de que somos Édipo e Hamlet, os dois pivôs da tragédia ocidental. Édipo, o inconsciente, que faz e fala por nós; Hamlet, a consciência culpada. Freud diz: “(…) todos os doentes que eu trato, os neuróticos, são Édipo e Hamlet”. Para um neurótico comum, era ótimo se tornar Édipo, porque ele se inseria numa história. Se humanizava. Freud apaga progressivamente a clivagem entre os neuróticos e o terapeuta, entre a razão e a loucura. Depois, essa fronteira é restabelecida, mas a ideia de uma continuidade existe. Isso é importante.

E os casos descritos por ele em suas obras?
Elizabeth Roudinesco: Acho que não devemos mais abordar a história dos casos como ficção. Nós, hoje, conhecemos a grande diferença entre a escrita deles e a história pessoal desses pacientes, os fracassos Freud lhes dá uma existência, mas não tenho certeza de que ele chegasse a curar no sentido da medicina.

Mas a questão não era essa.
Elizabeth Roudinesco: Isso vai ser descoberto progressivamente. Freud quer curar, mas, a partir de 1914, de “A Introdução ao Narcisismo”, se dá conta de que certas pessoas não querem se curar. Ele fala então das patologias do narcisismo, do masoquismo e introduz a noção de pulsão de morte. Importante entender essa clínica. Ele fez o possível, queria muito ajudar.

Há quem diga que Freud é misógino. O que você acha?
Elizabeth Roudinesco: Acho que tudo o que se diz a respeito disso é anacronismo ou inexatidão. Devemos nos livrar desse anacronismo e nos perguntar: na sua época, Freud era ou não misógino? A resposta é não.

Mas o que, na obra dele, fez pensar em misoginia?
Elizabeth Roudinesco: Sua teoria da sexualidade feminina. Disseram que ela era misógina. Anacronismo. Freud considera que a mulher tem uma reivindicação fálica e que o clitóris é seu órgão erétil. Trata-se de uma teoria completamente falsa. O pressuposto da teoria de Freud sobre a sexualidade feminina é que não existe natureza feminina. Os kleinianos [seguidores da psicanalista Melanie Klein], as psicanalistas mulheres se opõem a essa teoria, dizendo que existem dois sexos e que o clitóris não é um pequeno pênis. Mas Freud não se enganou sobre tudo.

Como assim?
Elizabeth Roudinesco: O modelo de Freud é paternocentrista, mas ele tem uma concepção da ciência segundo a qual é a experiência que decide. Penso que é a mesma coisa com a homossexualidade. Ele não podia imaginar que os homossexuais saíssem do registro da perversão, mas Freud era a favor da despenalização, o que é importante na época. Como se pode pensar que Freud imaginaria o casamento de homossexuais e a educação de crianças por eles? A única coisa que podemos dizer é que, quando a filha de Freud quis viver com uma mulher e educar crianças, ele não se opôs. Disse que seria uma família a mais.

Notas de Rodapé

Esta entrevista foi retirada integralmente do site Fronteiras do Pensamento, por Betty Milan/Folha de S.Paulo – Publicado em 31.03.2016.

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André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog Eu Tava Aqui Pensando, Escritos Psicanalíticos e A Vida e a Psicanálise. Dúvidas, críticas, sugestões? Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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