A Psicanálise da Criança

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Em Psicanálise com crianças abordei o contexto histórico e alguns dos principais psicanalistas que contribuíram para a teorização da clínica infantil.

No texto seguinte, a criança em análise, explorei um pouco mais o trabalho com crianças e a condução do tratamento infantil.

Um pouco depois, tive a oportunidade de escrever o texto Demanda de ser mãe, desejo de ter filho, que fala um pouco do lugar que uma criança pode vir a ocupar na vida de uma mãe.

Além de outros trabalhos que abordam o Universo Infantil: A Magia dos Contos Infantis e Dos contos, em cantos.

Hoje, pretendo continuar a discussão sobre “A psicanálise da criança”. Confira:

A Psicanálise da criança

A humanidade mantém a ideia de uma infância dessexualizada e idealizada: uma infância redonda, sem faltas, sem desconfortos. Esta ideia causa cegueira diante das próprias questões.

Frente às frustrações da vida, o psiquismo humano tende a regredir para alguma fase anterior quando obteve alguma satisfação, bloqueando assim, a plasticidade e a flexibilidade para aprender a lidar com as diversidades e as mudanças da vida.

Falar de sexualidade infantil significa apontar para a forma de a criança lidar consigo e com o outro, incluindo afetos, pensamentos e fantasias. Significa também enxergar como ela se posiciona frente a suas questões e aos desejos dos pais.

Por que o “anjinho”, o “príncipe” ou a “princesa” da casa, por quem os pais fazem o que podem e por vezes o que não deveriam, faria uma análise?

As mais variadas manifestações do inconsciente permeiam a análise de cada criança.Cada criança é única na sua forma de sentir e expressar-se.

Os pais desejam que seus filhos cresçam, mas temem seu crescimento e sua independência.

Novas questões surgem a partir do momento em que se permite olhar para o que a criança em análise mobiliza nos adultos.

O que a análise de um filho mobilizaria nos pais?

A criança fala dos seus desejos e das suas defesas por meio dos seus sintomas. Sintomas como mutismo, constipação intestinal, enurese, asma, erotização precoce, alergias na pele, fobias, agressividade exacerbada, questões com a vida e com a morte são os mais apresentados na clínica.

Os sintomas são satisfações substitutivas de forças pulsionais, sexuais e agressivas, ou seja, o retorno do recalcado propriamente dito. Lacan afirmava que a doença fala a verdade do sujeito. Os sintomas, então, anunciam que algo não vai bem não apenas com a criança, mas também com o casal parental ou com um dos pais.

“O sintoma da criança acha-se em condição de responder ao que existe de sintomático na estrutura familiar” (Lacan) representando, em alguns casos, a verdade inconsciente do casal parental. Em outros casos, o sintoma da criança pode revelar a subjetividade da mãe; a criança fica, então, aprisionada nas capturas fantasmáticas deste Outro materno, tornando-se, dessa maneira, seu objeto.

Cabe ao analista escutar o que a criança fala durante o brincar, e ler o que se encontra latente numa realidade que vai além do comportamento manifesto observável – a realidade psíquica inconsciente.

Podem-se observar, em algumas sessões, jogos que se reduzem à mera repetição e fecham espaço para novas formas de relações.

O que me faz pensar que a criança repete, insistentemente, determinada brincadeira porque há algo que precisa ser elaborado por meio da brincadeira. Ao passo que, quando ela avança na elaboração, começa a escolher, ou melhor, começa a se permitir a novas maneiras de brincar.

O desenho e a modelagem são instrumentos cruciais para possibilitar à criança outra via de expressão quando elas não sabem o que dizer. A forma como as crianças disfarçavam sua angústia.

As crianças transferem para o analista as formas de relações construídas com seus pais e outros familiares – as dificuldades e possibilidades. Elas resistem à análise evitando pensar nas suas questões; algumas vezes sentem culpa porque os pais pagam a análise e poderiam estar gastando o dinheiro em ‘outras coisas’; sentem medo da mudança e têm a fantasia de que desta maneira, perderão o amor dos pais. Estes, por sua vez, defendem-se alegando a falta de tempo e dinheiro; não se implicando no processo da análise da criança.

Intelectualizam a análise do filho ou fogem da possibilidade de uma análise para si mesmos. Aprisionados na culpa, os pais tornam-se impotentes frente aos filhos, tentando preencher-lhes os buracos, as faltas.

Aceitam, assim, a onipotência da criança que, na fantasia dos pais, não pode ter fraquezas. Os pais defendem-se, por fim, acirrando-se à sua própria onipotência infantil. E os analistas defendem-se tendo dificuldades de escutar as suas resistências, quando tomam para a sua pessoa a raiva que os clientes levam para a análise; não escutam os significantes que emergem, impedindo-se de pensar; defendem-se repetindo os pais na relação com a criança, por exemplo, rejeitando-a ou se encantando com ela; resistem quando não escutam os significantes que estão marcando a vida desta criança. O analista também resiste à sua análise pessoal e há que refletir sobre isto também em todo o processo da análise das crianças. Finalmente, os adultos reagem à análise da criança porque ela os remonta ao infantil recalcado.

“A psicanálise da criança remete os adultos às suas dores e medos. Impede-se a análise da criança porque existe esse horror ao que está esquecido e inconsciente. Enfrentar as feras esquecidas da erotização e da agressividade desgovernadas e destrutivas que agem silenciosamente a serviço da pulsão de morte, não é tarefa fácil” (Motta, 2010).

Não se quer saber do que causa incômodo e opõe-se primitivamente diante da possibilidade do novo e da oportunidade de mudar. Para isto, é preciso dar-se conta das questões edípicas, das marcas que denunciam as fixações sadomasoquistas. É preciso deparar-se com a angústia e com o horror à castração e aprender a lidar com o canibalzinho estagnado no gozo de devorar as tetas maternas, impossibilitando o sujeito do inconsciente de emergir, negando à criança a possibilidade de descolar-se do Corpo da Mãe em direção à realidade.

Uma vez levando o filho para análise a própria história é mobilizada. Abrese, então, a possibilidade de desatar alguns nós entre a criança interna e a criança que foi gerada.

Cuidar da criança interna para exercer melhor as funções do adulto, ajudando o filho a perceber também a sua responsabilidade na construção dos seus sintomas, na maneira como lida com a sua libido e com o desafio de crescer.

Fazer análise para canalizar a energia sexual e agressiva da criança, na busca de caminhos para ela pensar que lugar subjetivo ocupa na família, na fantasia da mãe, na fantasia do pai e na dela própria. Encontrar o que possui de singular, independente das suas identificações com os pais. Quem ela quer ser quando crescer?

“Ajudar a criança a fazer laços sociais, canalizar a sua agressividade e tornar-se sujeito da sua própria história é tarefa dos pais e do analista da criança” (Motta, 2010), mostrando-lhes que a vida não é apenas gozo, mas que existem leis.

O processo de análise mobiliza a todos os envolvidos e muitas vezes pergunta-se: “‘Vale a pena “acordar” os monstros?’ A análise não acorda monstros; ela lida com aqueles que já estão acordados, perturbando o sono, adoecendo o corpo, boicotando a realização dos desejos mais profundos e construtivos em direção à vida” (Motta, 2010).

Referências Bibliográficas

Motta, C. R., Silva, L. R. e H. Castro. A psicanálise da criança – um estudo de caso. R. Ci. méd. biol. 2010; 9 (Supl.1): 89-94.

 

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Saiba mais

André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Psicanalista. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog A Vida e a PsicanáliseEu Tava Aqui Pensando, Sala de Espera e da Revista Eletrônica Escritos Psicanalíticos. Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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