Seja lá o que for o mar, finja que já conhece

Escrito por Clarice Freire

gaivotas das ondas

Dia desses conheci uma figura boa. Marido de uma amiga querida. Um homem que já viu e ouviu muita coisa na vida. Falávamos sobre o mundo, o tempo e as andanças por aí. De repente ele me conta, achando graça, uma história de dois conhecidos seus que moravam no interior há muitos anos e que nunca tinham visto o mar— e suas verdes cores azuis. Vieram juntos, o irmão mais velho e o mais novo. Ele me narrava os detalhes do nervosismo da dupla, crescente com o grau de aproximação do ônibus — que levava outros virgens de mar em estado de glória — à orla de Ipanema, se não me engano. O medo de parecer caipira a ponto de nunca ter visto o infinito de águas salgadas com aquela idade toma totalmente o irmão mais velho.

Ele agarra o mais novo pela gola da camisa, séria e nervosamente, apelando em tom de ameaça afobada:

— O que quer que seja o mar, finja que já conhece!

Esta frase bateu em mim como uma onda forte, daquelas que nos pegam desprevenidos enquanto julgamos nossas canelas firmes o suficiente para nos manterem de pé,. Mas percebemos, com litros de água descendo salgadamente pela garganta, que estávamos um tanto enganados.

A princípio achei graça e ri bastante da situação. E da frase. Mas depois, de volta para o meu canto, fiquei mastigando aquela cena e o tal do “que quer que seja o mar”.

Fiquei me imaginando mulher feita que nunca havia visto aquela imensidão desconhecida, sem fim aparente, sem horizonte. E mais: com as águas-vivas. Como uma criança que cresceu em uma cidade litorânea muito bem servida de praias nos verões, sempre me pareceu natural o movimento da água. Contudo, fiquei imaginando, caso não fosse acostumada, se não acharia mágico aquelas ondas se formando do nada, rebeldes, querendo se deslocar e pular fora do mar até cansarem, caírem, se espalhando de volta ao inevitável. Não é maravilhoso?

De repente, olhando a vida pela janela, vários oceanos desconhecidos se abriram diante dos meus olhos já crescidos e me vi uma caipira amedrontada em pleno quebra-mar. Eles — os oceanos nada pacíficos — se apresentam para mim assim imensos, assim intensos, assim densos e diários. Não é assim a vida? Que vergonha, meu Deus. Todo dia é uma nova agonia e alegria.

É tanto desconhecer que não me resta mais nada a não ser a sábia frase do irmão mais velho: “O que quer que seja o mar, finja que já conhece.” Eis o meu teatro constante, podem me aplaudir, dar prêmios e me levar para receber as pompas no festival de Cannes, por exemplo. A cada segundo, vejo uma nova onda se erguer misteriosamente e o assombro é inevitável. Dentro de mim, o pânico e o susto gritam alto, mas, por fora, ah, por fora, finjo que já conheço e me sento na areia da coragem — vulgo, cara de pau —, me lanço nas águas. Cada vez mais profundas.

Deve ser isso que chamam envelhecer. Ou amadurecer, para ser mais branda. Ou simplesmente viver, para ser mais sincera. É aquela decisão nunca tomada, é a situação embaraçosa, é a cabeça embaralhada. É aquele olhar sedento de você e de suas mãos vazias. É o ir ou o voltar, permanecer ou estar, perder ou amar e a vontade maluca de voltar.

Meus oceanos desconhecidos nunca foram pacíficos. Pelo menos não à primeira vista. Confesso que algumas vezes, depois de um tempo, se tornam quase piscinas naturais onde dá para caminhar descalça, aproveitando a água morna. Outras vezes são noites de tormenta, uma mais forte que a outra, e a caipira aqui precisa segurar os gritinhos assustados e, veja bem, fingir que já conhece.  Seja lá o que for o mar: se lança! E logo, que lá vem onda.

Notas de Rodapé

Este texto foi retirado integralmente do site Intríseca. Escrito por Clarice Freire (Pó de Lua), em 6 / AGOSTO / 2015.

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André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog A Vida e a PsicanáliseEu Tava Aqui Pensando, e da Revista Eletrônica Escritos Psicanalíticos. Dúvidas, críticas, sugestões? Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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