Todas as perguntas do mundo

Escrito por Clarice Freire

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Ela carregava consigo todas as perguntas do mundo como se fosse fácil. Na verdade, fazia como se fosse possível, e todo mundo sabia que não era. Menos ela. Talvez até soubesse. Talvez apenas ignorasse o fato porque conseguia e os outros não; era a sua maneira de passar pelos dias. Não que isso fizesse também dos seus dias horas mais fáceis, sóis mais quentes.

Talvez fosse justamente o contrário.

Sua capacidade única de carregar todas as perguntas do mundo fazia com que as horas fossem longilíneas e os segundos, largos, gordos, obesos. Eles se arrastavam pesadamente pelos milésimos que se gabavam de, pelo menos, serem um tanto mais ligeiros.

É que por carregar tantas interrogações, era natural vê-la buscando, obviamente, respostas. Portanto, imagine o tamanho do espaço que era necessário… Precisava caber não só esse entulho de perguntas, mas também as respostas que ia colhendo ao longo do caminho. E o pior é que as tais respostas eram mutantes, indecisas. Mudavam de acordo com a dona, ela mesma. Assim como as suas perguntas. A moça por dentro era uma avenida movimentadíssima e, assim com estas, às vezes barulhenta, outras vezes deserta, silenciosa, dando espaço para as perguntas mais tímidas, menos permitidas, que gostam mais de se esconder e falam mais baixo. Ali tinham seus sussurros ouvidos.

Falando em cômodos, era neles onde ela conseguia dissipar um pouco do peso e da movimentação. Usava algumas gavetas da cômoda velha que herdou de Tia Nevinha, trazida num caminhão de Gravatá depois que ela, a tia, cedo demais, resolveu esconder suas risadas no saco das lembranças.

É, porém, no saco das lembranças boas e divertidas que as saudades gostam de morar. Uma boa dica sobre esses sacos: é necessário escolher bem a hora de abri-los, pois, apesar de guardarem boas lembranças, se abertos em momentos suspeitos ou quando os pensamentos esqueceram as armaduras do lado de fora, eles podem conter uma perigosa melancolia posterior. É preciso ter cuidado.

Voltando às gavetas da moça, era ali que ela dividia e catalogava as perguntas de acordo com a sua origem. Ou aos fins que ela julgava que poderiam ter. Era uma classificação complexa, mas acho que já percebemos que a moça nunca foi simples; era por demais complicada, cheia de vielas tortas dentro da sua cabeça, sem falar no coração. Esse, sim, era mais emaranhado de coisas e não coisas do que os mapas do metrô de duas cidades juntos e emaranhados. Mas voltando aos cômodos… Quer dizer, agora, mais especificamente, às gavetas: hoje era dia de abertura.

Gavetas abertas, sacolas desamarradas, um leve cheiro de mofo pairando no ar. Depois dele, um perfume de avó, da cama da avó; em seguida um cheiro de mato, madeira cortada, cabelo lavado, abraço abraçado, alga salgada e protetor solar. Eram as memórias aromatizadas. Já as respostas pairavam dobradinhas, divididas em setores. As respostas claras (muito metidas, sabiam o quanto eram desejadas) e as nebulosas, cheias de nuvens cinzentas pairando por cima. Havia também as respostas dúbias, que ocupavam os dois lados da gaveta e ainda mudavam de lado todo o tempo.

Em dias de abertura era tudo igual. A moça escolhia o desejo do dia. Um desejo esquecido, um cheiro banal. Fechava as gavetas, observava suas escolhas com olho analítico, via o que era igual e o diferente. Os passados normalmente ajudavam a mais decidida a seguir sempre em frente.

 

Notas de Rodapé

Este texto foi retirado integralmente do site Intrínseca. Escrito por Clarice Freire (Pó de Lua), em 4 / FEVEREIRO / 2016.

 

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André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog A Vida e a PsicanáliseEu Tava Aqui Pensando, e da Revista Eletrônica Escritos Psicanalíticos. Dúvidas, críticas, sugestões? Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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