Adolescência e seus dilemas  

 

Escrito por André Nascimento

adolescente.jpg

“O fim da adolescência, para mim, é verdadeiramente a aceitação do luto primeiro dos pais” (F. Dolto).

A adolescência é um momento em que vão se decidir algumas das principais orientações de vida de um sujeito, e seu lugar social.

Durante toda a adolescência, será preciso construir os trilhos que permitirão a passagem da infância à vida adulta.

Sim. A adolescência também é um período de construção. O corpo, antes, infantil, agora passa por uma série de transformações, que o psiquismo nem sempre acompanha.

E não é só a própria imagem que precisa ser reconstruída, será preciso, também, construir um outro lugar na história familiar e na sociedade.

A escolha da profissão, por exemplo, é uma das vias possíveis para o sujeito inserir-se na comunidade em que reside.

Mas, como escolher o que se quer Ser, que caminhos seguir  quando se está desalojado de seu lugar infantil mas ainda não atingiu o estatuto de um ser adulto?

“A especificidade do adolescente é não ser “nem uma coisa nem outra”, nem completamente criança, nem completamente adulto. Um período de indecisão subjetiva e de incerteza social“.

A adolescência introduz o sujeito numa outra lógica de tempo, é também um tempo de recapitulação da infância.

A adolescência é a idade das experiências, no sentido forte: tentar, experimentalmente, reconstruir um mundo cuja lógica é posta em causa.

O sujeito busca no grupo de sua geração, o grupo dos “irmãos”, um estatuto social que a sociedade não lhe outorga; mas, por outro lado, tenta afirmar sua individualidade, sua “originalidade”.

“A puberdade fisiológica perturba a imagem do corpo construída na infância”.

A adolescência é o momento em que, sob o olhar do outro, o sujeito vai ter que se reapropriar de uma imagem do corpo transformada; ao preço, eventualmente, de um novo sintoma, ou de uma modificação do sintoma.

A adolescência é um momento em que sujeito se apropria imaginariamente, de fato, do sintoma que ele era no discurso dos pais.

É muito comum vermos jovens passarem de sintoma a sintoma, devido sua impossibilidade de se apropriar de um sintoma.

A imagem do próprio corpo é afetada pela modificação de seus atributos (pilosidade, seios, silhueta), por seus funcionamentos (genitalidade, menstruação, mudança de voz, marcha, etc.), por sua semelhança com o corpo do adulto e, mais precisamente, do genitor do mesmo sexo, por sua importância para o olhar do adolescente ou do adulto do outro sexo.

“A imagem do corpo, a organização egoica, a função do sujeito estão confusas, pois, no plano psicológico, há primeiramente uma descontinuidade, uma ruptura de desenvolvimento”.

A adolescência é um tempo de soltura, de desamarração psíquica. “A estruturação da imagem do corpo, que já aconteceu, é agora posta à prova”.

É o outro que detém o poder de reconhecer neste corpo um corpo genitalmente maduro, desejável e desejante. Logo, é também sob o olhar múltiplo deste outro, que o corpo do adolescente muda de estatuto.

O portador do olhar, privilegiado, não é mais um dos pais, mas um semelhante cujo desejo está ele mesmo engajado.

O acesso à genitalidade, o diagnóstico de puberdade que lhe é associado não explicam, simplesmente, o que está em jogo para o adolescente.

“A adolescência também é o tempo de uma comparação e de uma confrontação com a imagem do genitor do sexo oposto”.

A “montagem” que a criança construiu sobre si, sobre o que ela acredita que o outro quer que ela seja, e o seu lugar no mito familiar, também é desarrumada.

Como o corpo se modifica totalmente, “a imagem do corpo, de si, na adolescência, está desarrumada”. É bonito ver como alguns jovens trazem esse “desarranjo”, no próprio corpo, são aqueles que, por vezes, mostram-se “desengonçados”, “atrapalhados”, algo semelhante a movimentação de um saco cheio de ossos.

“Para o adolescente, não se trata de fazer turismo, de dar uma volta antes de retornar ao ponto de partida, mas sim de partir sem prever retorno, de partir para a conquista de um outro lugar”.

Sem contar, a sua capacidade de desmontar discursos cotidianos e alienantes.

O corpo do adolescente também muda de estatuto e de valor.

Este corpo muda de estatuto essencialmente porque a genitalidade ocupa uma posição dominante para o sujeito.

“O adolescente muda de posição na cadeia de gerações”. Deixa de ter um lugar privilegiado na família.

O adolescente se vê diante da busca de uma conformidade a um modelo social definido e a demanda de uma confirmação pelos outros, tanto por sua família como por seus amigos, de que o estatuto do seu corpo mudou.

O adolescente experiência que “falar não é simples, e que a voz é um objeto separado/destacado do corpo”. Não é raro apresentarem episódios de gagueira do tipo tônico.

“Comparar o adolescente ao adulto é muitas vezes negar o caráter transitório dos sintomas mais frequentes no adolescente, considerando-os como sinal de uma estrutura, quando eles não fazem, às vezes, senão experimentação da sintomatologia possível para o adulto, ou, pelo menos, para aquele que não é mais criança.

A adolescência é o momento privilegiado onde, encontrando a sexualidade não mais como o próprio de um adulto diferente, mas como o que organiza sua nova posição.

O que acontece, então, como os processos de identificação na adolescência?

As identificações feitas no decorrer da infância, sofrem um abalo, começam a ser revistas e rearranjadas.

É com e a partir das identificações que lhe foram possíveis, no decorrer de sua estruturação psíquica, que o adolescente irá construir a sua própria imagem de si.

A adolescência é um tempo de recapitulação de si mesmo.

O adolescente e o psicanalista

“Embora muitos pacientes de Freud fossem, se não adolescentes, pelo menos adultos muito jovens, os trabalhos sobre a adolescência permaneceram por muito tempo marginais, em prol particularmente das pesquisas sobre a primeira infância. Somente nos últimos anos, principalmente na França, é que livros e revistas dedicaram-se à adolescência”.

Sem dúvida, “o atendimento de adolescentes chacoalha a teoria psicanalítica, pois exige que ela seja, constantemente, reformulada”.

Faço minhas as palavras do psicanalista Jean-Jacques Rassial: “Como os adolescentes me obrigam a interrogar minha relação com a psicanálise, atrapalham meu saber, quer seja teórico ou prático?”. Esta pergunta, além dos analistas, diz respeito a todos aqueles que trabalham ou convivem em seu dia a dia com a “adolescência e seus dilemas”.

Certamente, para todo adolescente, a adolescência é um “passe” entre um estatuto de criança a um estatuto de adulto.

Entre os muitos dilemas que eclodem…“Como sair de casa? É certamente uma questão específica da adolescência.

Mas, e na análise?

O analista que se propõe a atender adolescentes, deve, antes de tudo, ser capaz de assumir os riscos de escutá-los.

“O adolescente interroga o psicanalista muito mais sobre o que ele é do que sobre o que faz” (Rassial, 1999, p.13).

No início de uma análise, por vezes, o adolescente pode rejeitar o analista, caso reconheça-o como um adulto qualquer, incapaz de entendê-lo. Pode, também apresentar mutismo, e recusar-se falar. Há, também, os que  colocam o analista no lugar de um cúmplice, parceiro. Ou, ainda, de um mestre, alguém que tudo sabe, que nunca se engana, e tentará fazer com que o analista responda suas demandas.

“O analista não deve ser aquele que, de antemão, tem respostas para tudo, mas aquele que abre questões e as deixa abertas”.

Vale dizer que “o analista aceita ser interrogado pelas questões do adolescente, porque são também as suas”.

Mas, o que pode mudar para o adolescente que se engaja numa cura analítica?

Uma questão que, por hora, quero deixar em aberto.

Logo, para (não) concluir…

“O adolescente, por sua vez, coloca imediatamente a questão do Ser e é para usá-lo que serve a análise, usar o “ser adulto”, o “ser no mundo”, o “ser só”, mas também o “ser analista”, até o ponto em que é questionado, não um desejo, o do sujeito, o do outro, mas o Desejo, este de perseverar – perseverar… no ser. Mas é este “no ser” que fica suspenso na adolescência –, de prosseguir e de viver no mundo”.

Referências Bibliográficas

Jean-Jacques Rassial. (1999). O adolescente e o psicanalista. Companhia de Freud: Rio de Janeiro.

Curta, siga e compartilhe o Escritos Psicanalíticos também no Facebook FBlogo300 (clique para abrir).

Conheça-me!

00eu3A.jpg

Saiba mais

André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog Eu Tava Aqui Pensando, Escritos Psicanalíticos e A Vida e a Psicanálise. Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

Anúncios