Cada frio na barriga é único!

Escrito por André Nascimento

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“Olá André Nascimento, curto muito suas postagens sobre temas de psicologia. Estou quase me formando, e você sabe como é final de curso, vem aquele frio na barriga… Como foi seu final de curso”, escreveu uma das leitoras do Escritos Psicanalíticos.

Primeiramente, eu preciso dizer à esta amável leitora que, é  uma enorme satisfação ler que você gosta e acompanha os textos que, semanalmente, escrevo.

Segundo, eu preciso agradecer pelas suas palavras, e por ter me feito viajar, mais uma vez, a uma época marcada por desafios que eu sequer sonhei enfrentar, e emoções que jamais imaginei sentir.

Terceiro, eu tentei fazer uma resposta curta e pontal (eu juro que tentei). Mas, meus pensamentos me levaram longe… E quando me dei por mim, a resposta já não era mais uma simples resposta; eram memórias, lembranças, emoções, enfim, era um novo texto.

Bom, o que eu posso lhe dizer neste momento é: cada “frio na barriga” é único!

Encarar uma graduação foi um GRANDE desafio. Um desafio que eu nunca tive certeza se venceria, pois eu nunca tive certeza se eu chegaria a concluir o curso que me propus fazer. Afinal, eu nunca imaginei que eu viria a ser um psicólogo.

Por vezes, pensei em desistir, “entregar os pontos”. Tive vários momentos de estresse, acompanhado por uma série de medos, inseguranças, bloqueios e crises existenciais. Principalmente nos momentos que eu era colocado “à prova”! Tanto na vida quanto nas avaliações da faculdade: “será que eu vou conseguir?”, era mais que uma pergunta pessoal, era um inferno constante.

(Hoje, eu posso dizer que esse “à prova”, tem tudo haver com a saída do lugar de filho para a construção de um lugar, digamos, de “adulto”. E, como se não bastasse, de “profissional”. A faculdade, por vezes, pode ser – e, de fato, é – um dos momentos em que o jovem tem que mostrar para que veio ao mundo, sustentar uma posição, a sua própria posição, fazer e sustentar uma escolha e, minimamente, descobrir e sustentar um mísero fio que seja de seu desejo, o seu próprio desejo. Eu não fazia a menor ideia da complexidade disso na época).

Mas, eu continuei. Eu acordava com muita dificuldade todo dia de manhã e ia para a faculdade.

Eu fui (e acredito que ainda sou) um jovem de sorte. Meus pais conseguiram, não sem um pouco de esforço e, às vezes, lutando contra algumas dificuldades, pagar a minha faculdade, um ônibus escolar e, posteriormente, uma van para me deixar na porta da faculdade.

Da minha casa à faculdade, de transporte particular, demorava em torno de uns 40 minutos. No decorrer do caminho, eu assistia o jornal matinal, cochilava ou revisava a matéria da prova.

Sei que para muita gente, as coisas não funcionam assim…

Mas, quando eu saia após as 11h da manhã – que era o horário que a van passava nas portarias principais da faculdade – eu tinha que voltar para casa de transporte público. E, por incrível que pareça, de transporte público eu demorava quase 2h para chegar em casa.

O motorista da van ia na ida e na volta da faculdade por “atalhos”, entrava nos bairros em torno das vias principais. Já o transporte público… fazia o caminho pelas vias principais, tinha aquele sobe e desce de gente, aquele anda e para, e eu tinha que passar por quatro terminais para, enfim, pegar o ônibus para o meu bairro. Tinha dias que eu almoçava as 14h e pouco da tarde.

Sim. Era muito cansativo. Nem tanto o percurso, ou “a viagem”, como eu costumava dizer… O que cansava mais eram as pessoas… Sabe, as pessoas quando estão no transporte público, perdem a noção do: “o meu direito (e espaço) termina onde o do outro começa” ~ LIMITES. Então, acontecia de tudo (e mais um pouco) dentro do ônibus: de gente que pedia dinheiro, fazia oração à gente que falava aos berros ao celular… (Eu sei. Ninguém merece!!!).

Mas, voltando à faculdade… Muitos momentos marcaram essa minha passagem pelo campus universitário.

Lembro, como se fosse ontem, do primeiro dia de aula.

Atolado de inseguranças, eu cheguei na faculdade. Cheguei mas, até hoje, não faço ideia de como consegui chegar na sala de aula.

Me sentei na terceira cadeira no cantinho direito da sala, pois havia ali uma janela, que dava para apreciar a vista do pátio da faculdade e dos bairros vizinhos.

A “janela” tinha um significado especial para mim.

Semanas antes de escolher o tal curso, fazer e passar na prova, a minha terapeuta e coaching – sim, eu fazia programação neurolingüística na época –  me levou à janela que ficava no centro de sua sala e abriu as persianas.

Como o prédio dela era muito alto, dava para ver toda a cidade onde eu moro – Vitória, no Espírito Santo – e me disse, entre outras coisas, que eu poderia ajudar milhares de pessoas com a minha profissão e, quem sabe, algumas delas estivessem passando por ali, naquele momento.

(Hoje, eu posso dizer que, esse significante “janela” me permitiu ver além. E, posteriormente, ir além. Pela primeira vez, em toda a minha vida, eu havia me dado conta de que EXISTIA ALGO ALÉM – E PARA ALÉM – DAS PAREDES – DO MEU QUARTO E DA SALA DA TERAPEUTA – QUE ME CERCAVAM. A minha visão se expandiu. Afinal, havia uma imensidão de mundo, de coisas e de pessoas, bem diante dos meus olhos. Naquele momento, “a ficha caiu!”. O dia estava maravilhosamente lindo. O sol brilhava como nunca, e as nuvens pareciam algodão. O mar estava com uma cor linda. Sem dúvidas, aquele foi um momento mágico, transformador).

Deste dia em diante, muita coisa aconteceu… Os monstros que eu achava que estavam lá na infância, travestiam-se de aulas de metodologia de pesquisa, anatomia, morfologia, genética e da tão temida ESTATÍSTICA! (que, acredito eu, deve ser uma versão mais horrível, cruel e aterrorizante da Matemática. O que era aquele negócio de probabilidade!? Deus me livre!!).

Uma coisa que eu sempre gostei de fazer na faculdade, nos momentos de “aula vaga” ou intervalo, era me deitar nos bancos que ficavam sob as grandes árvores do pátio. Aquele era um local especial, o meu local especial: o vento batia no rosto, dava para ver os pássaros e os galhos e as folhas das árvores que contrastavam e, ao mesmo tempo, se integravam com o céu azul. Ali eu tinha um pouco de tranquilidade. Lembro que sempre tirava foto das árvores e do céu azul…

“Depois de tanto caminhar, depois de quase desistir…”, depois de 4 anos, chegamos ao último ano de curso. O que quer dizer que tínhamos que, mais uma vez, fazer escolhas: escolher o campo de estágio específico e do tema TÃO temido – por muitos alunos – Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).

Depois de passear por uns 4 temas diferentes: contos infantis, construção da fantasia, literatura e escrita e o que eu nomeei de “marcar corporais”… Finalmente, eu pude escolher e escrever sobre OS EFEITOS DA FUNÇÃO PATERNA NA ATUALIDADE.

Estudei o que é um pai, a importância de um pai numa família e na vida de uma criança, qual é a sua função e fiz um importante percurso na História, não só da nossa sociedade pós-moderna mas, também, na história das pessoas que passaram pela recepção da clínica-escola e da minha sala de atendimento, na da minha família e também na minha própria história. É claro!

“Uma mãe pode até por um filho no mundo, mas é o pai que lhe dá a vida!”, escrevi no TCC.

Um trabalho que exigiu muito de mim. Um trabalho que despertou uma série de conflitos e emoções, até, então, adormecidas. Um trabalho que mudou a minha posição diante da vida.

Só eu sei o que eu passei naquela época. Estar em análise foi de extrema importância para que eu pudesse atravessar as dificuldades, medos e bloqueios. E, principalmente, construir pontes que me levassem a terra firme, quando necessário.

No estágio específico, na clínica-escola da faculdade, eu aprendi tanta coisa com todas aquelas pessoas que passaram por aquela recepção, eu aprendi tanta coisa com todas as pessoas que passaram por aquela sala de atendimento, eu aprendi tanta coisa com todas as pessoas que passaram pela minha vida. Pessoas valiosas, que me ensinaram, direta ou indiretamente, muitas coisas. Minha dívida com elas será eterna!

Eu não poderia terminar esse texto de outra forma, senão trazendo trechos do texto que foi feito e lido por Galiléia Paula Silva, a aluna escolhida para ser a oradora da turma na colação de grau. E, à ela, eu também preciso dizer, obrigado, muito obrigado por essas palavras!

***

“Ainda lembro-me daquele primeiro dia de aula de Antropologia em que a professora pediu para que nos apresentássemos. Estávamos no prédio da biblioteca, em uma sala pequena e que estava TOTALMENTE cheia… Bem diferente dos dias atuais.

Já havíamos feito este ritual, mas foi aquele que me marcou. Cada um foi aos poucos falando seu nome, idade e o porquê de estar no curso de psicologia. Foi o momento em que pude olhar, e porque não dizer, reparar em todos e tendo feito isto, hoje posso dizer: QUANTA DIFERENÇA! 

Lembro-me do que alguns disseram e hoje percebo que aquele medo de mostrar quem era, eu não vejo mais, aquele receio de reprovação, de não fazer amigos, de não conquistar um sonho, hoje não existe mais. Também, depois de tudo o que passamos…

Pois é pais, aqui nós aprendemos que vocês não poderiam nos defender e nem interceder por nós (e como sentimos falta disso), mas aqui estamos. Batalhamos muito para estarmos aqui hoje. E nestes 5 anos posso dizer que gritamos, xingamos, reclamamos, choramos, brigamos, mas rimos, e rimos muito.

Quase tudo era uma luta, todo dia um leão novo aparecia nesta selva de pedra que apelidamos de UVV. E quem foram os leões? Ônibus, professores, escadas, rampas e nós mesmos, pois é, precisávamos nos superar a cada dia para que pudéssemos sobreviver.

Sobreviver literalmente, já que um dia fomos quase 40 e hoje somos menos de 20.

Naquela aula de Antropologia, alguns disseram ter entrado aqui por achar lindo o curso de psicologia, outros porque tinham problemas pessoais que queriam entender, outros porque passaram neste curso, outros porque gostariam de experimentar, outros porque os pais mandaram estudar, outros porque sempre tiveram este sonho e assim por diante.

Descobrimos com o tempo que: o sonho por si só não bastava, que papai e mamãe não podiam dar conta do nosso lugar, (…) que passar no vestibular não te define e que os nossos problemas devem ser trabalhados em psicoterapia ou análise.

Também percebemos que precisávamos amar a Psicologia, e hoje posso certamente dizer: AMAMOS e como amamos!

Precisávamos aprender o que era uma Universidade e o que era ser estudante de Psicologia.

Logo descobrimos que ser estudante de Psicologia é acordar no primeiro dia de aula pensando na primeira semana de prova, é subir a rampa sem acreditar que ela tem um final, é correr o dia inteiro atrás de um professor pedindo socorro, é ficar desesperado porque ainda não saiu a nota da prova no blog, é ligar para um colega diversas vezes pedindo socorro, é não dormir durante 8 semanas no ano, já que são 4 semanas de prova por semestre, é pedir um 0,1 décimo, é implorar para que o professor diminua os textos que vão cair na prova…

Mas por todo este “sofrimento” aprendemos que: o estudo é gratificante, que ir bem em uma prova te deixa em êxtase, mas que um resultado inferior não te desqualifica, apenas te mostra que você deveria ter estudado mais, ou que, como sujeitos únicos, aquele não foi um bom dia para você, descobrimos que receber um elogio é tudo de bom, que fazer um fichamento pode salvar vidas, que receber um parabéns de um professor durante uma apresentação é o máximo, (…) que olhar no espelho te da o imenso prazer de dizer: você será um excelente psicólogo, você fará a diferença na vida de inúmeras pessoas, na verdade, queridos amigos, vocês já fazem….

Turma maravilhosa, turma que evolui mesmo tendo diminuído. Ficaram as pessoas que certamente deveriam ter ficado.

Hoje posso dizer que estive durante 5 anos no lugar certo, um lugar em que a satisfação é indescritível, ajudar o outro é uma sensação única, escutar o silêncio também, NÃO, EU NÃO FALEI ERRADO, o silêncio é algo revelador… Somos um grupo seleto que sempre que alguém descobre que fazemos psicologia contam toda sua história, em qualquer lugar (em qualquer lugar mesmo). Isso é indescritível.

E é isso que escolhemos fazer, e após 5 anos, hoje profissionais apaixonados por Freud, Lacan, Skinner, Maslow, Rogers, dentre outros, somos loucos…  definitivamente loucos… loucos pelo nosso fazer… apaixonados por um fazer, por um bem estar subjetivo, por algo que pode estar em mim, mas não em você. Somos absurdamente apaixonados por um EU que deve ser descoberto, por um EU que só você pode vir a encontrar. Estamos aqui para fazer a diferença e queremos ser notados pela excelência no ouvir, pela habilidade no falar, e pela qualidade no executar.

Parabéns colegas, as contingências permitiram que o nosso inconsciente chegasse no aqui e agora e hoje posso dizer: SOMOS PSICÓLOGOS”.

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Conheça-me!

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Saiba mais

André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog A Vida e a PsicanáliseEu Tava Aqui Pensando, Sala de Espera e da Revista Eletrônica Escritos Psicanalíticos. Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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