Traços de Sabedoria

Escrito por André Nascimento

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Recentemente, me veio durante uma sessão de análise a seguinte frase: “a nossa sociedade carece de pessoas sábias”. E quando percebi, lá estava eu, elaborando um saber a respeito da diferença entre conhecimento e sabedoria.

Sim. A nossa sociedade hoje está abarrotada de pessoas com uma grande bagagem de títulos, cursos, graduações, especializações, métodos e técnicas, etc.

Entretanto, a leitura que faço é a seguinte: a nossa sociedade vive hoje uma grande crise de sabedoria.

Numa sociedade do tipo neoliberal e ostentação, as pessoas se apresentam umas as outras, primeiro, por meio da exibição de sua profissão, do cargo que ocupam na empresa, pelos títulos, formações e certificados que coleciona. E só depois, e olhe lá, falam de si. Enquanto todo o circo é montado, os certificados estão lá, mofando no fundo de armários ou gavetas. E como se tudo isso não bastasse, ainda distribuem, a todos que cruzam o seu caminho, doses “generosas” de seu conhecimento acumulado.

Popularmente, ganham apelidos de “inteligentes”. Mas, ao meu ver, são os famosos chatos. Como papagaios tagarelas, repetem o que leram ou escutaram por aí, sem a menor implicação pessoal.

E aí, parafraseando a Língua Portuguesa, pergunto: onde está o sujeito na frase?

Pois é, não tem sujeito. Ora, o pobre sujeito está, completamente, fora de cena. E não há oração que dê jeito nisso!

Hoje, aqueles com média ou alta capacidade de adquirir, armazenar e recuperar informações (memória), seja ela de longo, médio ou curto prazo, é tido como “brilhante”, “inteligente”.

Mas, o mesmo não é dito, por exemplo, às crianças que fazem de uma lixeira, uma cesta de basquete, ou de um monte de papel amassado, uma bola. No melhor dos casos, usa-se o termo criatividade: “nossa, ‘fulano’ é criativo!”. Mas, nem todos tem essa sorte.

Sabedoria nem sempre vem com o passar dos anos: ou seja, nem todo adulto ou idoso é sábio. Aliás, tem uns por aí que são bem chatos ou rabugentos. E, a estes, eu preciso dizer: muito obrigado, pois sem vocês, eu jamais teria posto em questão, um terço dessas associações.

Sim. Um dia eu acreditei que sabedoria vinha com a idade, com os anos vividos. Um dia eu acreditei que a sabedoria era um direito e um dever de todos. Um dia eu acreditei que a sabedoria era universal. Nesta perspectiva, a sabedoria seria algo do tipo, vejamos, um resultado final de um longo caminho percorrido por alguém nas estradas da vida.

Porém, descobri que nem sempre é assim. Sabedoria é coisa rara! Cada um de nós pode até possuir o potencial para tirar algum traço de sabedoria dos muitos acontecimentos que nos acometem diariamente.

Mas, nada garante que iremos desenvolvê-lo. Nada garante que, um dia, seremos sábios. Nada garante que todo ser humano tem, ou um dia terá, o desejo de ofertar esses traços de sabedoria às próximas gerações.

Uma pessoa que diz a outra: “um dia, quando você tiver a minha idade, você vai entender…”. Está longe de ser sábia. Tal fala, no mínimo, me soa presunçoso. Pois não devemos reduzir vivências à idades. Há pessoas, por exemplo, de 30 ou 40 anos que nunca perderam um irmão ou uma mãe. E há crianças de 5 ou 8 anos ou adolescentes que já enfrentaram algum tipo de perda desta ordem. Então, será mesmo que idade e maturidade andam juntas? Defendo que há, sim, a possibilidade de um jovem compreender e aprender com os dilemas da vida, muito antes de envelhecer. Pois, a sabedoria vem, sim, com as “vivências na própria pele”, mas quem disse que escutar, observar o outro e “pensar sobre” também não é uma vivência? Obviamente, aprendemos muito na “própria carne”, mas, também aprendemos com os outros, em cada palavra, em cada silêncio, em cada história contata.

Por isso que há muitos adultos e idosos por aí, “mortos-vivos”, que já deixaram de viver a anos, longos anos. E, ainda bem, que também existe o contrário: pessoas que conseguiram construir alguma coisa, um saber próprio, não sem dificuldades, e que conseguiram manter-se, mesmo com a passar dos anos, radiantes.

Uma criança, um adolescente, um jovem, também podem ser sábios. Afinal, cada um de nós, vivencia diariamente momentos únicos.

Sabedoria não se ostenta. Sabedoria se (re)constrói. Sabedoria se transmite por meio de ditos e não-ditos.

E o que é a sabedoria, senão, ofertar uma palavra, um abraço, ou um silêncio a alguém?

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Conheça-me!

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Saiba mais

André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog A Vida e a PsicanáliseEu Tava Aqui Pensando, Sala de Espera e da Revista Eletrônica Escritos Psicanalíticos. Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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