Homossexual’ismo'(?), (a)normalidade e preconceito

Escrito por André Nascimento

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A última edição do Programa Silvio Santos, exibida neste último domingo, 08 de Maio de 2016, pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) – uma rede de televisão aberta brasileira, fundada em 19 de agosto de 1981 pelo consagrado empresário e apresentador de televisão Silvio Santos – gerou polêmica não só por parte dos telespectadores  mas, também, dentro e fora das Redes Sociais.

Durante o quadro Jogo dos Pontinhos, Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos, declarou:

“Não sou contra o homossexualismo, só não sou a favor de falar que é normal. Criança tem que ser criada como homem e mulher”.

Tal comentário chacoalhou a Rede! A “opinião” – se é que podemos chamar tal fala de opinião – de Patrícia relançou a discussão sobre HOMOSSEXUALIDADE, (A)NORMALIDADE e PRECONCEITO.

Milhares de pessoas se pronunciaram na Internet. Embora boa parte dos telespectadores e internautas tenham concordado, a maioria das pessoas declararam ser contra a “opinião” da filha do apresentador:

#Preconceitonãoéopinião #Anormaléoseupreconceito, foram algumas das hashtags mais utilizadas nos comentários e publicações nas Redes Sociais (Facebook, Twitter, Blogs, etc.) E até nos sites SuperprideCatracaLivreMdeMulher e Pheeno.

Certamente, ‪#‎PatríciaAbravanel perdeu a oportunidade de ficar calada – e de estudar mais sobre o assunto antes de sair por aí falando barbaridades.

Infelizmente, sabemos que ela não é única a pensar desta forma.

Patrícia só verbalizou o pensamento de milhares de brasileiros.

Antes de prosseguir, é preciso vamos esclarecer uma coisa: o termo correto é Homossexualidade e não homossexualismo. O sufixo ‘ismo’ foi abolido, uma vez que não se trata de um transtorno, deficit ou doença, e toda a comunidade médica e científica mundial atesta isso.

Enfim, o que me ocorreu sobre o preconceito foi que embora todo mundo tenha algum tipo de preconceito, ele deve ser trabalhado. Embora o preconceito esteja “entranhado” em nossas concepções, não podemos permitir que ele fale mais alto que a nossa humanidade. Não podemos permitir que os nossos preconceitos sejam maiores que o respeito à diferença. 

Seja rico ou pobre, preto ou branco, hétero ou homossexual, não é de hoje que assistimos nossa sociedade cada vez mais dividia.

Na internet, na televisão, nas ruas ou em praças públicas.

Trata-se de uma verdadeira guerra contra a diferença.

Sim. Tudo leva a crer que o preconceito faz parte da sociedade ocidental.

Enquanto alguns defendem o preconceito, tendo como base seus conceitos, pre-conceitos, pensamentos, valores, crenças e ideais, outros dizem que o preconceito é uma praga que precisa ser exterminada, de uma vez por todas, da sociedade.

Mas, será isso possível? Será que, um dia, num futuro não muito distante – assim espero – deixaremos de ser preconceituosos?

Desde que o mundo é mundo, o homem tenta fazer uma leitura de si mesmo e da sociedade da qual ele próprio produz e está inserido.

O homem busca, a todo o tempo, apreender o que o cerca e transformar aquilo que o toca e o concerne, em conceitos, concepções, crenças, pensamentos, padrões, modelos, normas de conduta, etc. Aliás, foi exatamente esse movimento que permitiu o surgimento do que hoje conhecemos como Ciência.

O homem também definiu, de acordo com o que aparecia diante de seus olhos, sempre curiosos mas nem sempre atentos e sensíveis,  o que era normal e o que era patológico, e criou determinados padrões, modelos, estatísticas, normas, etc. – como já foi dito. E os adotou como sendo o “normal” e o “esperado”, ‘dentro’ e ‘para’ uma determinada população. Mas, o que poucos tiveram consciência, discernimento, é que a linha que divide o normal e o patológico é tênue. E, talvez, o mais importante: a concepção do que é normal ‘para’ e ‘em’ uma sociedade, varia, conforme a época, história, crença, ideais, política, cultura e religião desta mesma sociedade.

Preciso mencionar que a sociedade ocidental, até pouco tempo atrás, era organizada fortemente pelo discurso religioso. Hoje, vemos que a nossa atual sociedade passa por uma ‘mutação no laço social’. Estamos saindo de uma sociedade que era organizada pelo discurso religioso e seus preceitos (culpa, pecado, inferno, sofrimento, etc.) para uma sociedade organizada pelo discurso do mercado não mais capitalistas, mas, sim, ultraliberal, cujo novo aforismo é ‘TUDO É POSSÍVEL’. Estamos diante de um novo discurso que nos impele a consumir tudo e todos, inclusive nós mesmos, e sem limites! E isto, pelo menos à meu ver, muda tudo! Novas concepções estão surgindo, o modo do homem perceber, reagir e construir a si mesmo e a sociedade do qual ele é produto e produtor também está em processo de mutação. E como toda mudança: há aqueles que a favor e desejosos pela mudança. Assim, como há aqueles que se mostram mais rígidos, resistentes, relutantes. Entretanto, a homossexualidade é  algo antigo, que já estava aí, muito antes dos registros que vieram a público sobre os modos de relações interpessoais na Grécia Antiga.

As construções sobre o normal e o patológico, passaram de geração à geração. Atravessaram fronteiras. Sendo a família, também, um agente construtor e receptor de tais concepções e, ao mesmo tempo, passadora dessas concepções, conceitos, ideais, crenças e pre-conceitos, etc. para os seus descendentes.  Sendo assim, é possível dizer que cada um recebe e (re)constrói suas concepções de ‘certo’ e ‘errado’ ou de ‘normal’ e ‘anormal’.

E, sim, “a televisão é uma educadora”. As pessoas que ali estão, são, sim, formadoras de opinião. Por isso, devem ter cautela no que declaram publicamente. Pois a fala delas pode vir a alterar a vida de muitas pessoas e deixar marcas, que nem sempre o tempo e o dinheiro apagam.

É preciso sublinhar, mais um vez, que homossexualidade não equivale a anormalidade.

Para (não) concluir

Encerro este texto com uma fala que escutei de uma pessoa, durante uma discussão acerca da declaração de Patrícia e, especialmente, da homossexualidade.

Fala, a meu ver, importantíssima! Fala que precisa ser posta a uma densa reflexão. O que não me é possível fazer neste momento. Infelizmente. Por hora, é meu dever torná-la pública.

Arrisco dizer que esta fala é o que há de mais precioso neste texto.

Fala que, talvez, nos dê pistas de como o discurso da religioso – ou pelo menos a interpretação que se constrói com e/ou partir dele – pode se entrelaçar e constituir as bases das principais crenças(?) concepções(?) conceitos(?)  personalidade(?) pensamentos(?) das pessoas que são contra a homossexualidade e, por assim ser, a definem como “errada”, “anormal”, “aberração”, “meio-termo”, e tantos outros nomes que ouvimos rotineiramente:

“Se eu acreditar nisso [que é normal um homem amar um homem ou uma mulher amar uma mulher], eu vou contra a Deus!”.

 

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Saiba mais

André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Psicanalista. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog A Vida e a PsicanáliseEu Tava Aqui Pensando, Sala de Espera e da Revista Eletrônica Escritos Psicanalíticos. Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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