A gema, a clara e os recursos “internos”

Escrito por André Nascimento

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Vez e outra escuto ou leio por aí, algo do tipo: o ser humano possui recursos ‘internos’ para lidar com as dificuldades e frustrações da vida.

Como se “dentro” de cada humano houvesse “algo” similar a um baú, daqueles que guardamos os brinquedos das crianças ou uma série de outras coisas. E depois que tudo estiver muito selecionado, muito bem organizado, guardamos o tal “baú” embaixo da cama e só o pegamos novamente quando necessário.

Recursos “internos” que poderiam ser acessados, utilizados e depois guardados novamente dentro do baú, ou se preferir, dentro de nós mesmos.

Logo, também seria possível abraçar fortemente, como uma criança abraça a sua boneca favorita, quando gostamos de algum recurso “interno”, ou se “desfazer” facilmente daquilo que não gostamos ou não queremos mais. Algo semelhante à faxina que fazemos em nossa casa ou apartamento nos finais de semana…

Mas, a verdade é que não há nada dentro de nós semelhante a isto, não há um só “recurso” – ou melhor, não há nenhum recurso “interno” – ou baú, dentro de nós.

A única coisa que há dentro de todo humano são o aparelho digestivo, respiratório, reprodutor e etc. E olhe lá!

Eu sei. Não é nada agradável se dar conta que, dentro de nós, só existe um monte de tripas e, claro, um vazio. Um GRANDE vazio. Por isso cada humano precisa construir um sentido para sua ex-(s)istência.

Sim. Isso mesmo. O que há dentro do humano é um vazio.

Um vazio que, vez e outra, se faz sentir. Um vazio que, vez e outra, se mostra presente. Um vazio que, vez e outra, nos assola, nos assombra, nos incomoda.

Dentro de cada humano há um vazio que causa um enorme desconforto mas que, ao mesmo tempo, é uma enorme força criativa! Bem vindo à mais um paradoxo da humanidade!

É do vazio que a palavra pode vir a se fazer possível.

Mas, nem mesmo a palavra, mesmo com toda a sua força, pode tamponar o vazio completamente.

No máximo, a palavra pode contorná-lo. No máximo, o homem pode construir uma rede, uma ficção, mas não sem um furo, não sem um buraco, não sem um vazio. Como quiser chamá-lo.

Um vazio que garante (e demarca) a existência humana. Mas, não é só de um vazio que homem precisa para entrar na linguagem. É preciso que haja um outro semelhante, que o acolha, que o interprete, que lhe dê um lugar de sujeito, mas não sem antes fazê-lo de objeto. É preciso que haja um outro humano, que transmita ao humano que acabou de vir ao mundo, a linguagem, os valores, as palavras, os afetos e seus nomes, enfim, as regras e normas de uma sociedade. É fundamental que este humano que acolhe, interpreta e que da voz, não esteja ali, presente, o tempo inteiro. Pois os excessos, seja de falta ou de presença, podem ser perigosos, podem ter efeitos desastrosos e, por vezes, ser insuportável de lidar…

Metaforicamente, o vazio é a gema de um ovo, e as palavras são a clara. Nunca havia pensado antes numa definição tão clara! (e tão gostosa).

E toda essa construção da clara (palavras), só é possível pois existe uma gema (vazio), inerente ao ovo.

E com o humano não é diferente, já que é o vazio que o habita, também garante a existência humana.

Bem, salvo o fato de que nem todos os humanos são tão atraentes e saborosos quanto um ovo frito com pão de forma no café da manhã!

 

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André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Psicanalista. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog A Vida e a PsicanáliseEu Tava Aqui Pensando, Sala de Espera e da Revista Eletrônica Escritos Psicanalíticos. Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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