A PSICANÁLISE, O QUE É ISSO? – XIII, O COMPLEXO DE ÉDIPO II

Escrito por Darlene Gaudio Angelo Tronquoy

papa

Em alguma tarde perdida entre os dias do ano de 2014, ligo a TV e – coisa rara – “pego” um clip que apenas se iniciava, portanto, a tempo de ler que se tratava de uma música composta pelo artista belga Stromae. Misto de “hip hop” e música eletrônica, “Papaoutai” era o nome da canção que, em um grande espetáculo, reunia centenas de jovens gritando, alucinados, junto com o cantor, um refrão: “où t’es papa? où t’es?, où t’es papa? où t’es?”.

Precisei de alguns segundos para me dar conta de que “papaoutai” é a escrita do som de “papa, où t’es”, em francês, que, em português, quer dizer: “onde estás, papai? onde estás?”, o que me questionou profundamente conduzindo-me a uma reflexão. Ora, os jovens de pouco tempo atrás, não estavam eles justamente gritando “slogans” e palavras de ordem que interrogavam, negavam, afrontavam a autoridade paterna? Por que razão estariam, hoje, clamando por ele, pelo pai?

Dia 6 de maio, sexta-feira passada, Sigmund Freud, o inventor do inconsciente, o pai da psicanálise, fez 160 anos. Sim, “fez”, pois que Freud está bem vivo não somente por sua genial invenção: por revelar à humanidade que os atos do homem são orientados por algo que ele mesmo ignora, mas também por ter colocado no centro de nossa experiência a função do pai como jamais alguém havia feito antes. É claro que, inegavelmente, já se sabia de sua importância. Já se sabia que foi em torno de um “chefe”, do culto ao pai morto, aliás, que se originaram, ao mesmo tempo, a religião e as primeiras famílias, como nos ensina Fustel de Coulanges em sua obra do século XVIII, “A cidade antiga”.

Certo, há muito se reconhece o papel social, cultural, antropológico e biológico, na procriação, de um pai. Entretanto, não se sabia, antes de Freud, qual seria a sua função na estruturação psíquica de um sujeito.

Esta foi uma das grandes descobertas de Freud: a de que o homem, em seu desamparo, em sua precariedade e incompletude, depende radicalmente de um outro não somente que o acolha, mas que faça um investimento psíquico, que o nomeie e, principalmente, que lhe castre! Isso mesmo: tal como nos ensina Freud, o que interessa, de fato, é que a função de um pai é aquela que se situa na problemática do complexo de Édipo. O que interessa é que o pai, como homem, intervenha na essencial relação do bebê com sua mãe, ou seja, com seu objeto primordial.

“Castrar”, então, uma criança, é a função simbólica do pai. E é uma função, antes de tudo, positiva. “Castrar” é não permitir que uma criança permaneça, para todo o sempre, “debaixo das saias” de uma mãe na medida em que introduz um interdito, uma proibição desta necessária situação, mas que é, a rigor, incestuosa. O pai, então, é aquele que vai introduzir a lei que proíbe o incesto, para o filho e para a mãe, ao mesmo tempo. Mas de que forma? Como, se o homem que está em posição de pai, jamais teve conhecimento, por exemplo, de seu enunciado: “à mãe, não reintegrarás o teu produto; e ao filho, não retornarás ao útero materno!”?

É que não é preciso mesmo sabê-la. O importante é que este pai, como homem, seja capaz de fazer com que, para além da existência de uma criança, a mãe, como mulher, possa desejá-lo, “salvando” a criança de sofrer as consequências do fato de ser concebida como sendo “tudo para ela”, minha mãe.

Ora, há muito pouco lugar para o que quer que seja que introduza uma lei, uma possibilidade de renúncia, na lógica do mundo contemporâneo. O pai, portanto, como o aquele que introduz a lei, a castração, a possibilidade de renunciar, para muitos, está “fora de moda”! Mas o que levaria, então, aqueles jovens todos a clamar “onde estás, papai?, onde estás”… que não respondes?

 

Notas de Rodapé

Este artigo foi retirado integralmente do jornal A Tribuna (versão impresso). Vitória (ES). Data: 08/05/16, domingo. Escrito por DARLENE TRONQUOY. Psicanalista Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória, Professora, email: darlene_angelo@terra.com.br

 

 

 

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André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Psicanalista. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog A Vida e a PsicanáliseEu Tava Aqui Pensando, Sala de Espera e da Revista Eletrônica Escritos Psicanalíticos. Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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