A PSICANÁLISE, O QUE É ISSO? – XIV, O COMPLEXO DE ÉDIPO III

Escrito por Darlene Gaudio Angelo Tronquoy

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São muitos os “diagnósticos” com os quais se tem nomeado inúmeros aspectos da vida infantil que, até bem pouco tempo, ou eram considerados “coisas de criança” ou, se ultrapassavam o limite do suportável – as desobediências, as peraltices, as “artes”, etc. – era a família quem se interrogava a respeito. As dificuldades na escola ou de relacionamento, os exageros nas estrepolias, a inquietação ou a apatia, nada disso era visto como “doença”.

Há algumas décadas, porém, surgiram, no campo da ciência, diversas supostas respostas às inquietações e angústias que enfrentamos diante da dificuldade e mal-estar frente à educação dos filhos. Durante séculos, pois, os pais contavam com um saber elaborado durante sua educação que lhes fora transmitido, por sua vez, por seus próprios pais, pela família, e que se complementava com a educação escolar.

Hoje, vimos nascer as respostas da ciência que, no intuito de amparar, frente a suas angústias, mais aos pais que as crianças, ofertam “verdades” que supõe haver uma causa orgânica para o que chamam de “transtornos” como o “déficit de atenção” e a “hiperatividade”, ou a tão ressaltada “falta de limites”, designação que vem mais do campo da pedagogia.

O resultado disso é o que se tem denominado “medicalização da infância”. Com consequências desastrosas os excessos cometidos ao se colocar a responsabilidade do mal-estar, da angústia, em uma causalidade orgânica para aquilo que não anda bem, o que termina por acontecer é uma profunda desimplicação dos pais no destino dos filhos, uma não consideração sobre a possibilidade de que uma criança possa falar de si e de sua angústia.

Com a entrada, portanto, dos discursos que se pretendem dizer “a verdade” sobre o mal-estar na infância, a “tradição familiar” vai saindo da cena e os “especialistas”, com suas verdades quase inabaláveis, é que passam a ocupar o lugar daquele que detém um saber sem furos sobre a “adaptação” e o “bem-estar” dos pequenos que, de fato, estão é em sofrimento e em uma demanda de que se possa escutá-los. Assim sendo, tudo se passa como se esses pais nada soubessem a respeito de como educar de um filho ou que pudessem, com sua própria experiência, construir saídas frente aos inevitáveis conflitos que povoam, sempre, a relação pais e filhos.

Semana passada, domingo, foi dia das mães. No entanto, falei do pai.

Falei do pai porque sua função é aquela que está no centro do complexo de Édipo. Falei do pai porque se sua função vai vigorar ou não, depende em uma parcela importante, da mãe, mas da mãe como mulher, de seu desejo por um homem que pode ser o pai de seu filho. Falei do pai mas em homenagem às mães/mulheres porque, acreditem ou não, os “sintomas” apresentados hoje pelas crianças, têm uma relação nada fácil se detectar com o que se passa, no plano inconsciente, na vida de uma mulher que colocou no mundo uma criança.

O problema é que isso não basta para torná-la, de fato, mãe. Certo, uma criança, para que se torne um sujeito, depende desejo dela, de seu acolhimento. Sem o desejo de uma mulher, um desejo que, antes mesmo do filho, surge de suas entranhas, quer dizer, de sua fantasia inconsciente, uma criança não vem ao mundo. É, pois, do olhar, da voz, carinho e cuidados maternos, de seu amor, que um filho nasce. Entretanto, para além disso, para que uma mulher possa tornar-se efetivamente mãe, há uma outra função, essencial, que lhe cabe. Ela precisa consentir, verdadeiramente, que um outro possa intervir em seu idílio com seu rebento. E desse outro, desse terceiro, de sua intervenção, uma criança depende para não entrar nas estatísticas dos “défits” e transtornos. É, portanto, a mãe que “passa” o pai!

Notas de Rodapé

Este artigo foi retirado integralmente do jornal A Tribuna (versão impresso). Vitória-ES. Data: 15/05/16, domingo. Escrito por DARLENE TRONQUOY. Psicanalista Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória, Professora, email: darlene_angelo@terra.com.br

 

Leia também: A PSICANÁLISE, O QUE É ISSO? – XIII, O COMPLEXO DE ÉDIPO II

 

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André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Psicanalista. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog A Vida e a PsicanáliseEu Tava Aqui Pensando, Sala de Espera e da Revista Eletrônica Escritos Psicanalíticos. Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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