Após sucesso na web, Jout Jout lança livro sobre “momentos de crise”

Escrito por Gabriela Navalon

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HÁ DOIS ANOS, Julia Tolezano, 25 anos, soltou seu primeiro vídeo no YouTube. Ela ficou realmente famosa depois de um intitulado “Não Tira o Batom Vermelho”, que virou referência feminista ao falar sobre relacionamentos abusivos, além de outros tantos que mostravam o jeito leve e fluído de Jout Jout, como ficou conhecida. Hoje, ela acumula 822,417 inscritos e está prestes a lançar um livro. O “Tá Todo Mundo Mal”, que é recheado de crises, estará nas livrarias no final de maio. O intuito da publicação é mesmo mostrar que ninguém está sozinho, escrito com o jeitinho da pisciana de Niterói. Abaixo, você confere o papo que tivemos com a youtuber, que contou como se sente sendo feminista, como os vídeos mudaram sua vida e como enxerga certos estereótipos. “Tá bem? Então tá bem!”

Como foi o processo para escrever o livro?

Foi confuso, depois foi ótimo e aí depois ficou tenso, depois ficou ótimo de novo e entreguei e fiquei com saudade. Inicialmente era para ser minha história, mas depois me dei conta de que minha história tem só 25 anos. Muita coisa aconteceu mas nada que valha a pena para escrever um livro. Então pensei em escrever os momentos de crises. Isso dá uma acalmada em quem lê. Funciona como os vídeos, você fala “não sou só eu que estou na merda” e fica mais tranquilo.

Qual foi o livro que mudou a sua vida?

Pode ser um livro que me deixou muito mal? Aquele “O Remorso de Baltazar Serapião”, eu não conseguia ler de tanto que chorava. É do Valter Hugo Mãe e eu já tinha comprado todos dele mas não consegui ler porque ficava com medo de ficar mal.

Tem favoritos?

Os meus favoritos são “Como eu me tornei estúpido”, “A solidão dos números primos”, “Os reis malditos”, e “Harry Potter”, sou geração Harry Potter, não posso fingir que não.

E você trabalhou em uma editora de livros, né…

Sim e depois de trabalhar em uma editora eu não acompanho mais muitos autores. Eu comecei a trabalhar em editora porque eu gostava muito de livros, mas quando você trabalha com isso, não quer mais ver livros na sua frente.

O seu aborda uma série de crises. Qual é a sua crise atual?

Muitas pessoas estão esperando muita coisa de mim e às vezes são coisas que eu não posso dar para elas.

Uma das crises que você comenta no livro fala sobre encontrar um príncipe em uma festa quando você é criança. Como você aconselharia uma mãe nesse sentido?

Eu aconselharia para ela não citar um príncipe e só falar “dança bastante tá?”. Melhor não falar nada e não criar expectativas. Elas geralmente acertam no clima quando dizem para levarmos um casaco, então como a criança vai saber que ela não vai acertar no príncipe encantado? Acho que isso é criar uma expectativa que não necessariamente vai condizer com a realidade.

Percebemos que ainda hoje há muitos estereótipos de gênero em relação às crianças, o que acha disso?

Você é menininha e você tem que ficar calma, fazer as coisas com leveza, passar batom e ficar bonitinha… Isso de falar “coisa de menina” e “coisa de menino” é muito destrutivo. Você cresce e reproduz isso, mesmo sem entender. Se for parar para pensar: o que tem no rosa que só pode ser de menina e o azul só pode ser de menino? Nós somos uma máquina de reprodução e é complicado quando te colocam numa caixinha específica. Quando eu era pequena, não podia fazer capoeira, porque era coisa de menino.

Você também fala no livro da pressão de decidir a faculdade ainda no ensino médio. Como enxerga essa situação?

Você tem que decidir com 16 anos o que vai fazer para o resto da vida e nessa idade você pensa que seu namoradinho é com quem você vai casar. Na verdade, você não sabe o que vai acontecer porque seus princípios não estão formados direito. A gente tem a necessidade de estar na faculdade e ás vezes não é a faculdade que a gente tem que estar. Os pais estão sempre pensando em profissões que eles acham que paga bem. Mas como você vai saber que paga bem? Por que se você odiar não vai pagar bem porque você não vai trabalhar direito. De qualquer forma, nossa geração precisa passar por isso, para que as próximas não passem.

Qual é a diferença entre a Julia de 16 anos e a Julia de hoje?

A Julia aos 16 tinha certeza que sabia de tudo e a Julia de hoje olha para aquela Julia e fala “querida, não”. A Julia de agora não sabe de nada, mas sabe que a de 16 sabia menos ainda. A Julia de hoje é mais humilde.

Em outro texto você fala sobre vaidade. Como se sente sobre o seu próprio corpo atualmente?

Já passei por muitas crises sobre meu corpo. Nos últimos dois anos (acho que muito por causa do canal), eu parei de fazer projetos para mudar meu corpo. Não sei se é por que não tenho tempo ou porque estou muito satisfeita comigo. Acho que é a segunda opção.

Em um dos seus vídeos, você comenta sobre um vestido que comprou mesmo depois de ter notado que ele mostrava certas “gordurinhas”. Você nota uma evolução pessoal em relação a se libertar dos padrões de beleza?

Isso sempre foi uma questão para mim e eu comecei a me perguntar porque essas gordurinhas são incomôdas para mim. Não tem sentido isso. Se pensar racionalmente sobre, não faz sentido, então deixei para lá.

O que aprendeu ao longo desse tempo como youtuber?

Sabe quando falam que não dá para agradar todo mundo? Quando você tem um canal, entende realmente isso. Você recebe um comentário: esse é o pior vídeo que já vi em toda a minha vida e logo embaixo vem: esse é o melhor vídeo que eu já vi em toda a minha vida. E aí você pensa: de fato, não dá para agradar todo mundo. As pessoas são muito diferentes.

O que mudou em você desde que começou a fazer vídeos?

Comecei a prestar mais atenção e tentar julgar menos. Eu faço um vídeo e uma pessoa chega a uma conclusão que não é que eu queria ou você lê uma mensagem que recebeu e entende de uma forma que não é exatamente o que a pessoa queria passar. Eu presto mais atenção no que eu vou falar e tento ser mais compreensiva com pessoas, penso no que a pessoa passou para falar o que falou.

“Não Tira o Batom Vermelho” virou uma referência feminista, como se sente com a repercussão desse vídeo?

É empoderar as minas né. Também tem seu lado complicado, porque terminar um namoro é uma das coisas mais árduas que existem e eu sei disso porque já terminei namoros também. E você sofre, acha que vai morrer, a dor é horrível. Então imagina ver uma pessoa num vídeo e decidir terminar. As pessoas colocam muito na minha conta tipo “a Jout Jout disse isso, então preciso terminar”. Mas, no geral, eu vi pessoas estarem em relacionamentos muito pesados e saírem felizes. Depois desse vídeo eu vi de tudo. Todos os tipos de seres. Mulheres e homens que estavam sendo abusivos. Ou mulheres e homens que tinha relacionamentos abusivos com amigos ou pais. Eu vi pessoas assinando divórcio por causa do vídeo. Os brasileiros estão realmente em relacionamentos abusivos, percebi isso.

Hoje, como você se enxerga dentro do movimento feminista?

Me enxergo como parte integrante. Quando você é feminista, tem coisas na sua vida que são abaladas por isso, tem coisas que começam a te irritar mais e tem aspectos que são mais libertadores. Quando você é feminista você fica muito atenta a outras mulheres também. Quando você vê uma mulher numa posição que, no seu conceito está errado, você pensa em ajudar. Rola uma sororidade maior.

Vivemos um momento de crise no país, como enxerga o cenário atual? De que maneira se sente impactada por isso?

Não falo sobre isso nunca, jamais. Esse é o tipo de coisa que eu não vou saber falar sobre, então prefiro não falar.

Notas de Rodapé

Esta entrevista foi retirada integralmente do site: Revista Marie Claire. LIFESTYLE 18.05.2016 – 06h00 – ATUALIZADO ÀS 18.05.2016 15H58 | ESCRITO POR GABRIELA NAVALON.

 

 

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André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Psicanalista. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog A Vida e a PsicanáliseEu Tava Aqui Pensando, Sala de Espera e da Revista Eletrônica Escritos Psicanalíticos. Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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