A PSICANÁLISE, O QUE É ISSO? – XV, O COMPLEXO DE ÉDIPO IV

Escrito por Darlene Tronquoy

coraribeiro

Se tenho insistido em falar do complexo de Édipo, esse conceito que somente a genialidade de Sigmund Freud pôde forjar, é justo porque ele, Freud, o colocou no centro de nossa experiência como sujeitos. Isso quer dizer que é em torno desse mito que nosso psiquismo se formará. Mas, para isso, cada criança, diante de seu desamparo, de sua incompletude, terá que reinventá-lo à sua maneira, com sucesso ou no fracasso, na loucura.

Talvez o ponto essencial de onde partiu Freud tenha sido o fato de ele ter podido reconhecer, como ninguém, o quanto nós, humanos, somos incompletos e totalmente dependentes de um outro, e não somente para sobreviver, mas para nos tornarmos humanos, ou seja, seres que falam.

Freud, pois, se deu conta, como ninguém, de que carecemos do amor do outro: de uma mãe e de um pai, ainda que hoje, como nunca, uma questão se imponha: quem é o pai? Quem é a mãe? Que se diga: para além do gênero, é do pai e da mãe como funções simbólicas, nomeantes, que acolhem, limitam e que adotam o de que um humano depende.

Sem o amor de mãe, portanto, uma criança resta no abandono, no desamparo e corre risco de morte. Contudo, e aí vem algo desagradável, esse amor é sempre paradoxal, pois um filho é amado sempre, sem que o saibamos, como sujeito, mas também como objeto. Isso é necessário, porque sem que possamos supor um sujeito a advir, uma criança jamais será um adulto no sentido pleno do termo, e sem que ela, a criança, venha a preencher, obturar algo da nossa carência, se não obtemos com ela alguma satisfação, não suportaríamos um dia sequer sua total dependência de nós. Seria insuportável!

Mas o que se passa é que podemos exagerar: ou bem às vezes não nos dispomos o suficiente ou bem podemos tomar um filho apenas como um objeto de nossos caprichos. E que mãe sabe a medida se o que maneja as cordinhas é sua fantasia inconsciente? Isso, contudo, não deve nos impedir, muito ao contrário, de refletir e considerar o fato de que hoje, em nossa atualidade, esses extremos têm sido frequentes: ou nos agarramos aos filhos por demais, em função de nosso próprio abandono e solidão, ou abandonamos nossos rebentos em função, acima de tudo, de nossas precariedades simbólicas ou em nome das exigências de uma vida cada vez mais baseada no consumo, onde o que é essencial perde fácil seu sentido. E, nessa mesma lógica, a do consumo, as crianças têm vindo ao mundo muito menos por um verdadeiro desejo e mais por “um direito”, e, não raro, um desejo de possuir, onde ela perde seu estatuto de futuro sujeito de seu próprio desejo e se reduz a um mero objeto dos caprichos maternos.

Ora, uma criança que vem ao mundo apenas para satisfazer o outro jamais terá uma vida que se possa chamar de saudável e independente. Portanto, sem mais me alongar, é preciso ter discernimento para distinguir entre o que é amar uma criança como sujeito e o que é possuí-lo como objeto a ser consumido, devorado.

É preciso saber que o que de mais precioso se pode transmitir a um filho é que ele, um dia, apesar de todo amor que nos tenha e nós por ele, possa abandonar pai e mãe para fundar sua própria descendência, sem culpa, e sem dívida de gratidão para que caminhe sem ter que olhar para trás; mas se o fizer, que seja por um desejo que o faça reconhecer o desejo daqueles que lhe deram, um dia, origem.

E, ainda: é preciso que se tenha claro que um verdadeiro amor de mãe é aquele que, para tanto, para permitir que um filho um dia se vá, que ele precisa, e tem direito, a um pai cuja história possa fazer parte da construção da sua subjetividade, com todas as dificuldades que isso, em todos os casos, comporta.

Notas de Rodapé

Este artigo foi retirado integralmente do Jornal A Tribuna. Versão impressa. Escrito por DARLENE TRONQUOY, em 22/05/2016. Professora. Psicanalista. Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória. E-mail: darlene_angelo@terra.com.br

Leia também: A PSICANÁLISE, O QUE É ISSO? – XIV, O COMPLEXO DE ÉDIPO III | A PSICANÁLISE, O QUE É ISSO? – XIII, O COMPLEXO DE ÉDIPO II | A PSICANÁLISE, O QUE É ISSO? – VII, E O SONHO?

Curta, siga e compartilhe o Escritos Psicanalíticos também no Facebook FBlogo300(clique para abrir).

Conheça-me!

00eu3A.jpg

Saiba mais

André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Psicanalista. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog A Vida e a PsicanáliseEu Tava Aqui Pensando, Sala de Espera e da Revista Eletrônica Escritos Psicanalíticos. Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

 

Anúncios