A Função reguladora do Lúdico: Representação. Afeto. Laço Social

Escrito por André Nascimento

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O lúdico é uma “manifestação que tem intrigado diversos pensadores desde a mais remota civilização” (CASTRO, 2010, p.17).

O jogo pode “representar uma luta, ou, então, se torna uma luta para melhor representação de alguma coisa” (HUIZINGA, 1993, p. 16-7).

Quanto à função de representar ou sua dimensão simbólica, diversos estudos enfatizam o lúdico como “instrumento de aprendizagem, recurso de processos de aculturação do sujeito, meio de aquisição de conhecimento do mundo” (CASTRO, 2010, p. 18).

A possibilidade de reviver situações da vida cotidiana por meio da brincadeira, além de proporcionar satisfação e redução de tensões aquele que brinca, favorecer os processos de criação de sentido e de organização das experiências emocionais do sujeito” (CASTRO, 2010, p. 19).

Entretanto, não é possível garantir que toda prática lúdica seja favorável ao desenvolvimento do sujeito. Afirmar o contrário, seria o mesmo que negar a existência do “jogo compulsivo, o exercício do fantasiar que não redunda em ações concretas na realidade”, etc. (CAMARGO, 1988; JERUSALINSKY, 1999, apud CASTRO, 2010, p. 19).

A definição da atividade lúdica se encontra em um quadro de referências plurais e até mesmo divergentes entre si. Isto se explica devido à complexidade de fenômenos humanos envolvidos no ludismo, bem como às diferentes perspectivas por mio das quais o mesmo é observado e compreendido. Logo, pluralidade e dissimilitude relativas às definições e concepções do fenômeno ludismo impactam inicialmente os interessados no assunto.

Tentar definir o jogo não é tarefa fácil. Quando se pronuncia a palavra jogo cada um pode entendê-la de modo diferente: jogo político, futebol, amarelinha, jogos de adultos, quebra-cabeças, etc. (KISHIMOTO, 1997, apud CASTRO, 2010, p. 24).

Embora os jogos recebam uma denominação, cada um deles têm suas especificidades. Por exemplo, no faz de conta, há forte presença da situação imaginária; no jogo de xadrez, há regras padronizadas; brincar na areia, pode vir proporcionar prazer ao sentir a areia escorrer pelas mãos, encher e esvaziar copinhos com areia requer a satisfação com a manipulação do objeto. Já a construção de um barquinho, exige a representação mental do objeto a ser construído e a habilidade manual para operacionalizá-lo (KISHIMOTO, 1997, apud CASTRO, 2010, p. 24-5).

A complexidade da tarefa de delimitar as especificações do ludismo implica na consideração de que uma mesma ação pode ser vista “como jogo e como não-jogo”: para uns pode ser um jogo, para outros pode ser um trabalho, o cumprimento de uma tarefa ou uma responsabilidade.

Em decorrência desta complexidade, é preciso considerar a “conduta, a intenção e, principalmente, a atitude mental, como critérios de definição entre lúdico e não-lúdico” (KISHIMOTO, 1997, apud CASTRO, 2010, p. 25).

Dentre as várias categorias do lúdico, quero destacar: o lúdico livre ou espontâneo (implica em liberdade, obtenção de prazer, aquilo que o sujeito faz por deleite próprio e não por atender exigências importas por terceiros) e o lúdico fictício (apresenta uma realidade própria diferente, mas extensiva à realidade da vida corrente).

De modo geral, há categorias e subcategorias que indicam que

  • existem atividades lúdicas que exigem persistência, habilidade e articulação de estratégias visando à superação de obstáculos, como os jogos de competição;
  • alguns jogos envolvem turbulência, improviso e fantasia, como os jogos de ilusão ou faz de conta. Outros, estão arraigados no prazer obtido na perda do controle, na vivência de risco em segurança, e nas percepções provisoriamente alteradas: uso de tobogãs ou balanços.
  • os jogos também possibilitam a aventura, o prazer da descoberta, do encontro com o novo, despertam a curiosidade, superação das próprias habilidades.
  • os jogos de fantasia permitem ao sujeito desempenhar imaginariamente outros papéis, tornar-se um outro personagem, tanto ao ler um livro, assistir um filme, uma peça de teatro, na apreciação ou realização de uma obra de arte.

É fundamental ressaltar que “o ludismo é um fenômeno universal, existente em todas as culturas e civilizações” (CASTRO, 2010, p. 29). E que a própria atividade lúdica – lê-se brincar – exerce papel importante no acesso à cultura, justamente por o lúdico ser “um meio, um instrumento na aquisição dos signos socialmente compartilhados por uma sociedade” (CASTRO, 2010, p. 45).

Disciplinas diversas como a Educação Física, Sociologia, Pedagogia, Psicologia, Psicanálise, dentre outras, atestam que o lúdico “facilita a aprendizagem, aquisição de conhecimento, principalmente para crianças e adolescentes” (CASTRO, 2010, p. 50). Além disso, o lúdico também “propicia o desenvolvimento cognitivo, afetivo, emocional e social, e auxilia no enfrentamento de situações adversas” (CASTRO, 2010, p. 50). Sem contar o poder que as atividades lúdicas têm o poder de proporcionar, também, momentos de descontração, alegria e diversão.

O brincar é o meio mais importante de expressão da criança. Enquanto brinca, a criança também conversa e diz toda a sorte de coisas, que têm o valor de genuínas associações” (KLEIN, 1997 apud CASTRO, 2010, p. 60).

Cabe ressaltar que, por meio da brincadeira, “a criança põe em jogo suas próprias interpretações, buscando dar um sentido diante da angústia” (Petri, 2008, p.123). E  embora faça a diferença entre brincadeira e realidade, a criança ‘brinca a sério’, seu trabalho é o brincar, atividade que consome seu tempo, demandando investimento psíquico (Petri, 2008).

Conclui-se que, o brincar é inevitável para a criança, uma vez que corresponde ao próprio movimento de sua estruturação psíquica: quando uma criança não brinca é sinal que existe algum impedimento em seu processo de subjetivação (Petri, 2008), de tornar-se sujeito de sua própria história!

Leia também: A Psicanálise da criança

Referências Bibliográficas

CASTRO, N. T. A Função reguladora do Lúdico: Representação. Afeto. Laço Social. LCTE Editora. São Paulo. 2010.

HUIZINGA, Johan. (1938). Homo Ludens – o jogo como elemento da cultura. Trad: João Monteiro, Mary Amazonas Barros. 4ed. São Paulo. 1993, p. 16-7.

PETRI, R. Psicanálise e Infância: clínica com crianças. Rio de Janeiro. Cia. de Freud. São Paulo: FAPESP. 2008.

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André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Psicanalista. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog A Vida e a PsicanáliseEu Tava Aqui Pensando, Sala de Espera e da Revista Eletrônica Escritos Psicanalíticos. Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

 

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