Relações amorosas, (auto)sabotagem e saídas possíveis de conflitos

Escrito por André Nascimento

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Vem cá, deixa eu te dizer algumas coisinhas a respeito de Relacionamentos.

Ter um relacionamento é algo que todo mundo deseja, mas, poucos estão dispostos a passar pelas fases e transformações de uma relação à dois. Sempre que vou falar sobre relações amorosas, gosto de citá-las.

Afinal, existe três momentos no desenvolvimento de um amor, digamos, “maduro”: a paixão, desilusão e a aceitação da realidade.

“No primeiro momento, o amado é alguém maravilhoso, não tem defeitos, ninguém é melhor do que ele, está terrivelmente idealizado, quase endeusado. O amado fica engrandecido e, em troca, a pessoa vai diminuindo, a ponto de não poder entender como alguém tão perfeito pode ter reparado nela. No segundo momento, começamos a perceber algumas imperfeições na pessoa amada. Vemos que em determinadas situações seu caráter não é o melhor, que em algumas coisas se engana, e esses traços, que já existiam, mas que a paixão nos impedia de perceber, geram dor e desilusão; O que seria então o Amor? O Amor seria um terceiro momento no qual vemos o outro como ele é. Desfrutamos de suas virtudes e aceitamos suas faltas. E, apesar delas, nós o aceitamos e podemos ser felizes ao seu lado. Só aí podemos falar de um amor maduro com possibilidades de se projetar no tempo de uma maneira saudável. A chave do Amor está em reconhecer os defeitos do outro e perguntar-se sinceramente se podemos tolerá-los sem ficar o tempo todo reclamando, e ser feliz apesar deles” (Gabriel Rolón).

Pois bem, quando nos propomos a “conhecer alguém”, a “sorte está lançada”, estamos sujeitos a ser alvo de projeções, idealizações, expectativas e frustrações…

Se você vai se envolver com alguém, seja honest@, sincero@, consigo mesm@ e com o outro.

Pense comigo: se você não está preparad@ para se envolver, então não prolongue as coisas. Não tenha atitudes que dêem brechas para que o outro crie expectativas. Quer beijar? Beije, mas deixe claro que você só quer o beijo. Quer transar? Transe, mas seja sincer@ e diga que você só quer isso. Quer só uma companhia para não se sentir sozinh@? Ok, todo mundo tem suas carências, mas deixe tudo bem claro para a outra pessoa. Será uma escolha dela se ela decidir ficar com você mesmo nessas condições. Mas ela precisa saber o que, de fato, está acontecendo. (…) O problema não é você viver o seu luto, [de uma relação “complicada”, por vezes, “dolorosa”, “sofrida”] mas sim iludir a pessoa [com quem está se relacionando] e sumir do nada, sem dar nenhuma explicação, fazendo com que ela pense que o problema é com ela, que ela fez algo de errado. Seja uma pessoa adulta o suficiente para assumir as consequências dos seus atos” — A geração de pessoas que se sabotam emocionalmente.

O humano tem um hábito estranho de idealizar um tanto de coisas. De sonhar, dia após dia, com a “alma gêmea”, com a tão desejada completude:

A verdade é que queremos “viver um dia após o outro, um passo de cada vez, um gole a cada respirada. Não cobrar, não prender, não pedir. Viver sem colocar nos ombros d@ parceir@ o peso das próprias expectativas e/ou decepções”.

Seja sincer@! Quando dizemos ao outro o que queremos tudo fica mais simples. Ou menos “complicado”. Não é verdade?! Porque, assim, ninguém fica criando expectativas desnecessárias.

Não cobrar, não prender, não pedir e blá blá blá”… Tudo isso é muito bonito, mas não passa de uma bela idealização.

No mundo real, ninguém consegue viver dessa maneira com alguém. Pois viver assim, implicaria sermos perfeit@s, ter um relacionamento “perfeito”.E no dia-a-dia meu/minha amig@, sabemos que a vida não é assim…

Típica fala de quem não quer se envolver, se comprometer com nada, nem ninguém. Agora, o porque de tal descompromisso, depende de cada um.

Dificilmente pessoas que pensam assim terão um relacionamento duradouro, com a possibilidade de se projetar no tempo. Não há outro caminho a não ser acabar solitárias. Sempre sozinhas.

Cá pra nós, né!? Que reles mortal não sonha em ter um relacionamento ideal?

Mas, enfim, cada cabeça é uma sentença.

Seria o mesmo que dizer que se está com alguém quando, na verdade, não se está com ninguém, não se está em lugar algum.

O único compromisso de pessoas assim, são com elas mesmas.

É preciso lembrar que ninguém cria expectativas sozinh@, ou inseguranças ou dúvidas sozinh@. Pois um relacionamento envolve duas pessoas, onde um re-alimenta o outro. Então, ambos são, sim, responsáveis pelos impasses ou conflitos que acontecem no decorrer da relação.

Por isso, precisamos ser honestos, expor as nossas intenções. Do contrário, corre-se o risco de cair numa sabotagem. Pois, quando se trata de relacionamentos, a sabotagem é sempre dos dois lados.

“Não cobrar, não pedir, não prender”… Impossível! Isso é do humano! Faz parte das relações humanas. Entretanto, devemos, sim, ficar atentos e tomar cuidado com os excessos, pois os excessos podem comprometer a relação.

Não existe a possibilidade de um relacionamento “concreto” (por ausência de palavra melhor) onde tudo se dê “a céu aberto”, solto, indefinido. Isto é querer namorar e ter uma vida solteiro ao mesmo tempo.

Uma hora precisamos nos posicionar, “escolher” um lado e aceitar perder parte das nossas satisfações egoístas em prol de algo maior, de uma relação a dois. Mas, nem sempre abrir mão de parte de nosso prazer é fácil…

O que vemos hoje é que a maioria das pessoas não querem, não podem, não sabem “escolher”. Outras, não é que não “escolhem”, sua “escolha” é justamente essa: “querer ter e ser tudo!”. A grande questão é que nem sempre nossas “escolhas” são conscientes. Há sempre algo que escapa a nossa razão ou vontade.

E quem nunca disse ao outro: acho que gosto de você…”. Acho!?!? Como assim, acho? Um “posicionamento” instável, que denuncia que há reservas. Por sabe-se lá qual o motivo, razão ou circunstâncias…

Mas, vem cá: porque você insiste em correr atrás de pessoas que à três noites não te dão um boa noite? Por que você está se doando e se doendo por alguém que não faz questão da sua presença, alguém que não tem consideração por ti ou que não lhe dá a menor satisfação?

Um fato: quando alguém se “posiciona” com muita insegurança em uma realização, isso pode gerar ansiedade e insegurança n@ parceir@.

Como assim, gente!? Você diz que gosta de alguém mas provoca insegurança e afasta as pessoas…

Entretanto, os excessos de “cobrança” também afastam.

Diante de tudo isso, o que fazer? Como agir? Como construir segurança e cortar os excessos?

Talvez, uma Psicanálise pode ser uma das vias possíveis… Mas, você também pode conversar sobre isso com seu/sua parceir@.

É preciso sair da posição de “vítima”! Parar de se doer com bobagens. É preciso pensar em si mesmo, sim, é verdade, mas também é preciso escutar, pensar e ter empatia pelo seu/sua parceir@. E não permitir que o EGO ferido seja maior que os sentimentos quem vocês tem um pelo outro. É preciso, também, ser grat@ pelas coisas que se recebe, mesmo as mais simples como chocolates ou cartões. Se aquilo que foi dito à você, não lhe diz respeito, porque você ficou tão afetad@? Porque você se doeu tanto?

Então, vai ser assim? Ficamos por aqui? As coisas boas serão menores e insignificantes diante dos últimos acontecimentos?

Manda pra ela/ele. E o que decidirem. Aceite. Pelo bem dois dois.

Mas, sempre queremos justificar tudo. Então, dizemos ao outro: “você não conhece a minha índole e o meu caráter para, em tão pouco tempo, ter me julgado da forma que fez”.

Por vezes, insistimos em dizer que outro fez um “Show”, quando na verdade, não conseguimos ver que agora somos  nós que estamos no palco.

O risco maior é ficar agarrad@ em uma posição vitimizada, de pobre coitad@.

A intensidade em que acusamos o outro do suposto erro, tropeço ou embaraço, quando vitimizados, é a mesma intensidade na qual estamos cegos diante de nossas próprias questões, diante da nossa parcela e responsabilidade no fato ocorrido.

Se não nos esforçamos para “re-assistir a cena”, agora não mais como atores, mas, como espectadores, não conseguiremos nunca ficar com ninguém. Relacionamento é uma via de mão dupla. Ninguém faz laço sozinho. É preciso duas pessoas dispostas a cruzar as pontas da fita e dar o nó!

Há duas tarefas que considero dificílimas em um relacionamento: sustentar o erotismo do casal, pois, vez e outra, corre-se o risco d@ parceir@ cair numa posição de filh@, de pai ou de mãe, de amig@, etc. E manter um laço firme, nem muito apertado, nem muito frouxo. Um laço com uma “folga”, e que permita que dois sujeitos, embora compromissados um com o outro, tenham suas próprias vidas, suas próprias particularidades e diferenças respeitadas.

Por isso, invista no diálogo!

Mas, no dia-a-dia, quem quer assumir os próprios erros? Quem quer mostrar para o outro o seus ciúmes, a suas carências, inseguranças, falhas, impotências, frustrações ou fragilidades?

Por vezes, no enunciado, dizemos que assumimos os nossos erros, que assumimos o nosso não saber, as nossas falhas. Entretanto, quantas vezes a enunciação, se impõe, e mostra exatamente o contrário!?

Bem, também acontece de se cair no erro de querer, a todo custo, que o parceir@ enxergue, se dê conta de toda essa situação, sua sintomática ou de sua autosabotagem. Esquecemos que cada um tem o seu próprio tempo para ver, compreender e construir saídas ou mecanismos para lidar e responder de outra forma às situações, por vezes, conflitantes. Este, ao meu ver, é um ponto essencial.

Errar, todo mundo erra: “Errar é Umano!”. Todo mundo está sujeito a, por exemplo, cair num papel de “vítima”. Mas não seremos nós quem fará o outro enxergar. Não seremos nós quem fará o outro “desagarrar” de seus conflitos e queixas.

Por vezes, sabotamos as nossas relações por conta das imensas expectativas, idealizações, que nada têm haver com @ parceir@. Entretanto, vale dizer: Ninguém é “bem resolvido!”. O humano é falho, imperfeito. Todo mundo tem suas crises, seus dilemas, suas contradições. E é justamente essa complexidade que faz de nós quem somos. Ninguém é igual a ninguém. Ninguém pensa e se comporta da mesma maneira, pois cada um tem uma história de vida. Cada um tem um modo de ver, interpretar e responder ao mundo. Cada um tem seu modo de viver!

Por vezes, projetemos a nossa imaturidade ou a nossa dificuldade de enxergar nossos erros no outro, um mecanismo de defesa do nosso ego para manter-se intacto. Assim, afirmamos em alto e bom tom: “eu não errei com você!”. E com isso, perdemos a oportunidade de elaborar (falar, por em palavras) um ponto que, certamente, irá se repetir mais adiante…

Por vezes, tentamos. Ah, e como tentamos agir diferente… Nos esforçamos tanto para dizer: “Eu sei que eu tinha que ter ligado para você para lhe explicar que não conseguiria lhe ver pois estava exausto. Mas…. Sim. Lá vem o bem-dito “MAS”. Palavra pequena, é verdade, mas que tem uma GRANDE capacidade de aniquilar, jogar na sarjeta, desvalidar tudo aquilo que foi dito anteriormente.

E assim, continuamos a levar a vida. Sempre nos justificando… Sempre vitimizados… Sempre colocando a culpa no outro… pelo conflito ou pelo que não deu certo no relacionamento…

Por mais que possamos gostar de alguém…

Por mais que desejamos construir uma relação que se projete no tempo…

Não somos nós quem temos que “desagarrar” o outro de suas mazelas! Já temos a nossa vida, já temos a difícil tarefa de lidar com as nossas próprias questões, sustentar, em nome próprio, o nosso próprio desejo.

Mas, caso desejamos tentar mais uma vez, em respeito aos bons momentos juntos e dos sentimentos que cultivamos pel@ parceir@, a única coisa que podemos fazer é lhe perguntar:

Mas, e você, “qual é a sua participação, qual é a sua responsabilidade na ‘desordem’ que você se queixa?”

Esta, à meu ver, é a única esperança de revirar o discurso, mudar de posição… no relacionamento, na vida!

Referências Bibliográficas

Rolón, G. Histórias de Divã. Oitos relatos de vida. Editora Planeta do Brasil. 2008. p.173.

 

 

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André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Psicanalista. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog A Vida e a PsicanáliseEu Tava Aqui Pensando, Sala de Espera e da Revista Eletrônica Escritos Psicanalíticos. Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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