Compartilhando demais e pensando de menos!

Escrito por Pedro Oliveira

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Na sexta-feira o Snapchat, rede social que cresce mais rapidamente hoje no mundo, anunciou ter ultrapassado o Twitter em número diário de usuários ativos (150M Vs. 140M). Mas na prática, o que isso significa?

O dado significativo traz consigo algumas conclusões sobre o comportamento das gerações atuais que aspiram compartilhar tudo sobre suas rotinas e encontraram no Snapchat algo que atende prontamente essa necessidade – uma plataforma social de conteúdo efêmero que permanece armazenado por 24h.

(No último ano o Snapchat dobrou sua base de usuários e atraiu USD2 bilhões em investimentos)

Do outro lado está o Twitter, uma plataforma até certo ponto revolucionária no sentido de agregação de conteúdo, quando lançada há 10 anos, mas que hoje enfrenta problemas causados por sua própria miopia e pelas incansáveis movimentações de seus concorrentes.

Para combater essa fase difícil, neste ano a companhia resolveu se posicionar não mais como uma rede social e sim como uma empresa de mídia em sentido amplo – hoje na Apple Store, por exemplo, o aplicativo se encontra na categoria “News” e nos últimos comunicados ao mercado, executivos afirmaram que agregar informação e fornecer conteúdo são os maiores objetivos do business de agora em diante, tendo inclusive adquirido os direitos de transmissão da NFL (liga de futebol americano dos EUA) para a temporada 2016/17.

(Transmissão de 10 partidas da NFL será uma das primeiras aventuras do Twitter como empresa de mídia)

Portanto, guardadas as proporções e sem entrar no mérito sobre qual plataforma é melhor ou pior, quando temos outra validação de que hoje mais pessoas estão dispostas a compartilhar sua vida (e acompanhar a vida alheia) ao invés de ler sobre o que está acontecendo no mundo, o sinal amarelo muda para um tom mais avermelhado.

Pra onde estamos indo como sociedade?

Internet, grandes conglomerados, redes sociais. Nos últimos 20 anos esse tripé alterou completamente o rumo da humanidade, revolucionando a forma como suprimos duas necessidades essenciais: o senso de comunidade e o acesso à informação.

Com a penetração da tecnologia e consequente oferta de plataformas com boa usabilidade e interface em inúmeros dispositivos, entramos na Era da Plenitude Digital. Diversos portais de notícias, generalistas ou especializados, trazem instantaneamente notas ou reportagens completas sobre o que acontece nos quatro cantos do mundo, cabendo ao consumidor decidir o que quer.

Ao mesmo tempo, todos temos uma voz e podemos nos fazer ouvidos no ambiente digital. É como se fôssemos seguidamente provocados por Facebook, Twitter, Linkedin, Instagram, Snapchat, entre outros, a compartilhar aquilo que pensamos ou o fazemos.

No entanto, o pleno acesso à informação e a infinita disponibilidade de conteúdo também criaram o fenômeno da “ultrasimplificação”, ou seja, a sintetização de pensamentos, conteúdo e raciocínios, tornando-os mais comerciais e facilmente digeríveis. Vídeos curtos se transformaram na forma mais didática e rápida que 67% dos Millennials (aqueles que possuem entre 18-35 anos) assimilam conteúdo.

No melhor estilo Steve Jobs, fazer um show ou uma apresentação com atributos emocionais, se tornou supostamente a forma ideal e mais eficiente de transmitir conhecimento. Assim, surgiu a igreja “tecno-radical” do século XXI em que a inovação joga a favor do espetáculo e a cultura é preterida pelo status.

Num mundo em que 150M de pessoas usam o Snapchat diariamente, a mesma teoria de praticidade e simplificação é aplicada à produção de conteúdo. Com o fácil e rápido acesso à informação e a oportunidade de todos nos tornarmos canais de comunicação, o generalismo e a falta de profundidade são dois fenômenos recorrentes – de repente, ver o que outras pessoas fazem é mais importante do que entender o que acontece com o mundo ao nosso redor.

(A polêmica da vez: ao invés de estar em campo com seus companheiros de seleção, na sexta-feira Neymar, que está de férias, se juntou a Justin Bieber para premiar seus fãs com diversos snaps)

Empacotando o aprendizado

O empacotamento do conteúdo visando facilitar o entendimento é mais um desses fenômenos iniciados na sociedade norte americana que se espalharam pelo mundo. Claro – quem não gostaria de aprender sobre Einstein em um vídeo de 5min, talvez entender todo o problema geopolítico africano em um painel de 7min, ou quem sabe compreender como o Google se transformou no monstro que é hoje em TED Talks de 10min? Fácil, didático e praticamente autoexplicativo.

Porém colocar pessoas brilhantes, que pensam diariamente sobre problemas reais, para explicar de forma simplista e mastigada como funciona seu raciocínio ou quais as soluções que criam no dia-dia não é exatamente a solução do problema – é parte dele, pois passa-se uma falsa e mistificada ideia de que a vida e todos os problemas que dela fazem parte são rasos, simples e podem ser resolvidos a partir de uma epifania.

Quando na realidade, Einstein levou 50 anos para construir sua obra, a questão geopolítica africana existe desde a colonização realizada em meados do século 19 e o Google demorou 25 anos para se transformar no colosso que é hoje.

As informações de bandeja e a impressão de que somos senhores da razão não estimula a sociedade e as novas gerações a discutirem problemas de verdade, a questionarem a realidade em que vivem e a interagirem na tentativa de criar debates que não necessariamente precisem chegar a um consenso, mas que agreguem ao repertório de todos.

A pasteurização do ensino colabora com tudo isso – hoje nas escolas (e digo isso, pois experimentei a sensação durante o meu ensino médio e superior) o que vale é jogar pelo resultado, as próprias discussões não são incentivadas e o aprendizado passivo sobressai.

Assim, de certa forma, é possível entender o sucesso dos TEDs e porque dois a cada três jovens afirmam aprender melhor passivamente, por meio de vídeos, sem interagir com seu interlocutor – foram ensinados assim durante toda sua vida acadêmica, então porque agora haveria de ser diferente?

Do jeito que a sociedade está estruturada hoje, ao passo que as máquinas ficam mais inteligentes e facilitam nossas vidas, estamos ficando mais ignorantes – que tipo de paradoxo é esse?

A tecnologia nos premiou com plataformas e dispositivos que têm uma enorme contribuição em nossa realidade, porém será que estamos sabendo aproveitar isso da melhor maneira ou nos tornamos reféns de nossas criações?

A tecnologia que não inova

Hoje a sensação que fica é que a tecnologia deixou de ser uma ciência com o fim de desenvolver o mundo e se tornou uma ponte para nossa satisfação, adoração e alienação. “Seja criativo e use sua imaginação” são duas das frases feitas que mais ouvimos hoje em dia – algum cinismo em um mundo em que temos inspiração e compartilhamento demais e transpiração e pensamento de menos.

A inovação do mundo moderno é reconhecida como pegar coisas e ideias existentes, rearranjá-las e aprimorar processos a elas relacionados, tendo como resultado “algo novo”. Ver a inovação como uma repaginação não é errado, mas nos afasta da transformação, pois o resultado é um “mais-do-mesmo-mascarado” usado para resolver os mesmos problemas, ou seja, o status quo permanece inalterado.

É preciso voltar a criar, não no sentido tecnológico, e sim nas verdadeiras ciências humanas – economia, filosofia, história, artes – que devem usar a tecnologia como um meio de evoluir. Portanto, a tecnologia não deveria ser o fim em si mesma, e sim o meio de tornar melhores as ciências que são o alicerce para a humanidade (como por vezes já ocorre).

Na prática, ao invés de passarmos horas no Snapchat vendo o que “ozamigos” fazem, poderíamos usar a plataforma também com outras finalidades (como alguns canais já usam, transmitindo eventos ao vivo e publicando newsfeeds informativos).

Na era da plenitude digital e do feudalismo da nuvem, diversas comunidades estão espalhadas pela rede, cada uma com suas especificidades e nas quais inspiração se torna alienação. Vivemos no mundo de faz de conta nas redes sociais repleto de felicidade, sucesso e expectativas.

Assim, nos tornamos cínicos e esquecemos nossa própria existência. Transparecemos e vivemos utopias diárias, acostumando as novas gerações com versões TED das nossas vidas – curtas, rasas e bem sucedidas. Enquanto na verdade, para cada história de felicidade e de sucesso, existem anos de trabalho duro, fracassos e obstáculos.

Enfim…hoje vivemos virtualmente o teatro da vida real e passar horas interagindo nas redes sociais parece ser mais interessante e sedutor do que tentar resolver os nossos problemas. É importante inverter esse comportamento o quanto antes.

 

Notas de Rodapé

Este texto foi retirado integralmente do LinkedIn de , Analytics & Insights Student Associate na GlideSlope | MSc and LLM Candidate at Columbia University. Publicado originalmente em 6 de Junho de 2016.

 

Leia também: O Amor nos tempos do Wi-fi.

 

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André Bassete do Nascimento (André Nascimento). Psicólogo. CRP 16/4290. Psicanalista. Consultório Particular. Praia do Suá, Vitória, ES — Espírito Santo. Autor, editor e idealizador do Blog A Vida e a PsicanáliseEu Tava Aqui Pensando, Sala de Espera e da Revista Eletrônica Escritos Psicanalíticos. Contate-me! (27) 999617815 (Vivo/Whatsapp). Correio Eletrônico: dreebn@yahoo.com.br

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